RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e arranjo por Júlio Marques Mota

A crise europeia e o papel do sistema financeiro

Intervenção de Vítor Constâncio, Vice-Presidente do Banco Central Europeu na Conferência no Banco da Grécia sobre “ A crise na zona euro”

Atenas, 23 Maio de 2013

PARTE II
(continuação)

Refazendo-se o sector bancário

Sugiro que, para se ter uma narrativa mais precisa para as causas da crise, se deva olhar para além da hipótese de se considerarem somente as políticas orçamentais: os desequilíbrios originados principalmente pelo aumento dos gastos do sector privado, que eram, por sua vez, financiados pelos sectores bancários dos países credores e devedores.

Como o slide 1 bem mostra, ao contrário da evolução do nível da dívida pública, é o nível global da dívida privada que aumentou nos primeiros sete anos na UEM em 27%. O aumento foi particularmente acentuado na Grécia (217%), na Irlanda (101%), na Espanha (75,2%) e em Portugal (49%), e todos destes países são os que têm estado sob forte pressão durante a recente crise [1]. O forte aumento da dívida pública, por outro lado, só começou após a crise financeira. Ao longo de quatro anos, os níveis de dívida pública aumentaram de cerca de cinco anos na Irlanda e de cerca de três pontos em Espanha.

Visto desta perspectiva, o rápido aumento da dívida pública  foi  seguido do colapso das receitas fiscais e das despesas sociais e estas aumentaram durante a recessão, uma vez que os estabilizadores automáticos tenham sido accionados. Surgiram perigosos efeitos de repercussão entre sistemas bancários locais e soberanos depois da crise financeira se ter iniciado e que serviram também para enfraquecer as contas públicas.

Quando é que o financiamento resulta da explosão da dívida privada? Um aspecto particular do processo de integração financeira na Europa, depois da introdução do euro, foi a de um grande aumento na actividade bancária transfronteiriça. A exposição de bancos de países que não estavam sob pressão aos países em situação de mais dificuldade mais do que quintuplicaram entre a introdução do euro e o início da crise financeira.

constâncio - XX

[Slide 2: Exposição total dos bancos dos países que não estavam em dificuldade face aos países em dificuldade]

Embora essa explosão dos fluxos financeiros tenha sido desigualmente distribuída entre os países da periferia, esta afectou todos eles e, comprovadamente, contém efeitos extremamente desafiadores.

constâncio - XXI[Slide 3: Exposição total dos bancos dos países que não estavam em dificuldade aos bancos dos países em dificuldades, em percentagem do seu PIB. DP]

Eu tenho a experiência, e em primeira mão, das dificuldades que enfrentaram os países da periferia. As regras europeias sobre a livre circulação de capitais, o objectivo de criar uma pratica concorrencial não falseada, a level-playing field, e a crença na eficiência dos mercados financeiros auto-regulados, tudo conspirou, tudo contribuiu para tornar muito difícil de colocar em prática qualquer tipo de política de contenção. Além disso, nunca ninguém previu que uma paragem súbita, característica das economias emergentes, poderia ocorrer na zona euro.

Como resultado, o afluxo de financiamento relativamente barato transformou-se num enorme boom de crédito nos países agora sob fortíssimas pressões. Como sabemos, o crédito não foi perfeitamente optimizado pelos agentes privados racionais. Pelo lado da procura, num ambiente de juros baixos, os consumidores e as empresas, antecipando o crescimento futuro, antecipavam os seus níveis de consumo e de investimento como bons optimizadores intertemporais. Pelo lado da oferta, os bancos europeus e os mercados financeiros não funcionavam de acordo com a teoria de gestão de risco de crédito. Foi isso que levou ao superaquecimento dos salários e às pressões sobre os preços, às perdas de competitividade e aos elevados défices na balança corrente.

constâncio - XXII[Slide 4: Crescimento do crédito bancário no sector privado nos países em dificuldade]

A responsabilidade das políticas orçamentais

Qual o papel que poderiam as políticas fiscais ter desempenhado na compensação destes desenvolvimentos? Em alguns casos, as políticas orçamentais inapropriadas terão certamente contribuído para os desequilíbrios instalados. Mas, como mostrei num outro lugar, [2] seria pedir muito à política orçamental pensar-se que esta poderia ter significativamente compensado esta explosão da despesa privada. E isto porque os multiplicadores orçamentais das economias muito abertas são geralmente muito pequenos nos períodos da actividade económica normal. Com baixos multiplicadores orçamentais, seriam necessário muitas grandes alterações induzidas pela política orçamental sobre a despesa ou sobre os rendimentos para amortecer o ciclo. O excedente orçamental necessário para compensar os desequilíbrios privados na área do euro teriam sido totalmente irrealistas e inviáveis.

Por exemplo, em Portugal o boom de crédito que começou em 1995, com a entrada no euro a aparecer ficar cada vez mais assegurada, levou a que o equilíbrio do sector privado caísse de +5% do PIB em 1995 para – 5.2% no ano 2000. Tratar-se-ia de uma variação de 10 p.p. em 5 anos. Como o défice público melhorou de 1,7 p.p., ou seja de de -4,5% para -2.8% do PIB – o défice externo implicava um crescimento de – 0,5% para cerca de -8% do PIB. Para ter evitado este cenário, a situação financeira líquida do Estado seria excedentária e fortemente – e ninguém no momento recomendaria isso ou pensou que isso seria possível. Certamente, se a política orçamental tivesse sido mais contra-cíclica, os desequilíbrios macro induzidos do sector privado poderiam ter sido atenuados. Mas eis que eles não foram eliminados por completo.

(continua)

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