“PALAVRAS MAL DITAS” OU “PALAVRAS MALDITAS”? – 4 – por Álvaro José Ferreira carlosloures19 de Julho de 201318 de Julho de 2013Literatura, Música/Dança Navegação de artigos PreviousNext BALADA DO DESESPERO Porque nasceste, vives; Porque vivias, cresceste; Porque cresceste, tiveste A sorte que não previas; Porque estudaste, aprendeste As coisas de se saber, E outras, inúteis de sobra As coisas para se esquecer As coisas para se esquecer. Porque cumpriste, fizeste O que mandaram fazer Os padres, o pai, a mãe O professor, o mais velho O sargento, o comandante O senhorio, a porteira O ministro, o governante O cobrador, o pedreiro – Esteja cá na terça-feira! – O bancário, o carpinteiro O homem do gás, da luz Da água, do pão, do leite E acabaste cumprindo Cumprindo tudo a preceito. Encomendaste gravatas Fatos novos e sapatos Dedicaste-te ao chinquilho Ou, se for noutro horizonte, Talvez ao king, à canasta Fizeste um filho, e outro filho E nas horas livres, às vezes, Em havendo futebol Sentiste-te homem de tasca Sentiste que eras uma besta E puseste um cachecol Mas segunda-feira cedo Bem cedo, bem matinal De novo te achaste pronto Partindo para o mesmo emprego Comprando o mesmo jornal. E sempre, todos os dias Cobiçaste a secretária Do teu chefe, o Sr. Lima Cobiçaste o horário do Saavedra E a mini-saia da Lina Ah! Para à noite, corpo cansado Tomares o trinta e sete O carrito, a bicicleta E regressares, esgotado Do trabalho e da ausência Para te sentires confortado Da solidão na indolência De um canapé, recostado Aquecedor, televisão Tudo muito bem ligado Pijama posto, chinelos Conforto que traz descanso E uma certa sonolência Concordância e anuência. Nas férias redecoraste-te Bizarro na concepção E arriscaste um figurino Compraste um chapéu assim Foste às compras de calção E sorriste aos teus parceiros De barraquinha na praia E à senhora vizinha Que nunca tirou a saia Agosto inteiro com saia Calculem só os senhores Agosto inteiro com saia. E aturaste a pequenada Brigas, birras, fraldas, caca Apreciaste o traseiro Da amiga do teu amigo Rechonchudinha, mulata Quase nua, fio dental – Já é preciso ter lata! Por decoro, viras a cara Não vão os putos ver isto; Assobias, disfarçando Espalhas óleo pelas espaldas Enquanto a tua mulher Um pouco desconfiada Desabrida e despeitada Te exigiu: – Ó Silva! Tu muda as fraldas! Depois à noite, porreiro Caminhaste na avenida Muito fresco e prazenteiro Com a pança bem comida Às vezes um frango inteiro (Que não és homem dos fracos Dos fracos não reza a História E o Silva é alguém na vida Homem de bem, de memória Contabilista da firma Tal e tal, Rua da Glória – Sempre que quiser já sabe Uma casa às suas ordens…) E depois, pelo caminho Regressas, gritas, dás ordens Recuas, gritas, dás ordens E ameaças o outro Que guinou para este lado – Se calhar querias, coitado! E o camião chateado De se ver ultrapassado – Viste aquele? Tu viste aquele? Regressas mais bronzeado Mais gordo, talvez mais magro Mais velho um mês e, quem sabe?, Mais cansado que à partida. Regressas ao rame-rame Enquanto suspirarás Todo o ano, por um mês Todo o mês, por outra vida Toda a vida, por viver Algo que te valha a pena Ou então, tu já nem sentes E mentes-te enquanto mentes E mentes e já não sentes E já não sentes, mas mentes. Ano a ano te esfolharam Te roubaram prestações Letras, fantasmas, viagens Cromos, selos, colecções Hálito fresco e saudável Graxa, sabão, brilhantina. Mudaste a cor do salão De azul para um verde marinho Do castanho para um branquinho E depois, por fim, como a Lurdinhas, Para uma espécie de lilás – O que é que tu achas, Gertrudes, meu amor? – Eu escolhia… mais clarinho… E ao fim de tanto trocares Baralhares e confundires Acabas por rebentar – Evitando, pelo menos Teres enfim de destruir Tudo o que creste ser belo Ser lindo, ser valioso… Acabaste confundindo Viver com reeducar-te Passaste o tempo calcando O que podias ter sido tu Nu, inteiro e pessoal Pois que assim, afinal Foste um entre milhões Que de morte natural Tem uma cruz, lega uns tostões E cai podre numa cova, No funeral. Não te ficou nem um gesto Que não façam mais milhares Não te ficou nem um risco Um grito para espalhares; Não te ficou nem uma sobra Uma intenção, uma diferença Isto é caso p’ra dizer Parvo, incapaz e castrado Rastejante e cumpridor Rastejante e tão honrado Foste um escravo do dever Sem glória, nem recompensa. Repousa em paz, meu rapaz, Que a cova te seja leve Como a vida te foi breve, Oca e breve, sem ofensa. “Zé Povinho e Xico Esperto” © Cristina Sampaio (http://www.cristinasampaio.com/) “Apertar o cinto” © Cristina Sampaio (http://www.cristinasampaio.com/) Publicada por Álvaro José Ferreira à(s) 11:01 Share this: Share on Facebook (Opens in new window) Facebook Share on X (Opens in new window) X Share on LinkedIn (Opens in new window) LinkedIn Share on WhatsApp (Opens in new window) WhatsApp Email a link to a friend (Opens in new window) Email More Print (Opens in new window) Print Like this:Like Loading...