CARLOS EURICO DA COSTA
( 1928 – 1998)
ALTERAÇÃO DO ESTRNGEIRO
(fragmento)
Eis finalmente este leito de moluscos
este país insólito das campânulas fosforescentes
radioactivando-nos na sua mesa de cristais
o país das fontes cautelosas
das florestas móveis do contraponto.
Ei-lo finalmente
e só temos para nós este silêncio
quando provocamos os insectos da tragédia
o carnaval frio das palavras
uma nénia entoada pelo pobre desencantador das vírgulas
a mão que treme idolatrando o pó da infecção.
Está aqui acaso não reconheces?
É bem certo que a partícula de saliva lhe deformou os olhos
e os braços estão exaustos de abater lustres, irreconhecíveis.
Mas não importa é ele.
À porta o louco espera o momento oportuno de sorrir
e mais valerá que os relógios paisagísticos se alterem
mesmo que a fotografia (ex-estátua decepada)
nos exiba a inconfidência do desencontro.
(da revista “Árvore”, 1951-1952)
Coorganizador da “Antologia 10 Jovens Poetas Portugueses” (1953). O seu nome ficou ligado ao movimento surrealista português. Obra poética: “Sete poemas da Solenidade e um Requiem” (1962), “Aventuras da Razão” (1965), “A Fulminada Imagem” (1968), “A Cidade de Palajüin” (1979).
