Sim, Brites de Almeida, bem te conheço, tu és a famosa Padeira de Aljubarrota que matou sete soldados castelhanos à pazada. Mas agora quero recordar a tua vida antes da glória te envolver…
Cerca de 1350 terás nascido numa póvoa do Algarve, sul do país.
Os teus pais são muito pobres, vivem dos magros lucros que lhes dá uma pequena taberna.
Nasces e logo te revelas menina robusta. Os teus pais ficam muito contentes, irão ter uma preciosa ajudante nos trabalhos quotidianos, lavar e encher as pipas, servir canecas de vinho aos clientes. Enganam-se, coitados… Basta um garoto chegar à porta da taberna a provocar-te com um dichote, para largares logo o trabalho que tens em mãos e correres atrás do provocador. Se consegues apanhá-lo, dás-lhe um enxerto de porrada que ficará famoso. E tantos são os enxertos que rapidamente ganhas a alcunha de Maria Rapaz.
Ó Brites, creio entender-te: não é a chalaça que te tira do sério, mas a arrogância masculina sempre a exigir a submissão feminina. Ou seja: canga, seja ela qual for, tu não aceitas.
Cerca de 1370, terás tu uns vinte anos, ficas órfã. Não te apetece continuar o negócio do teus pais, porque ele obriga a muitas curvaturas de espinha ante os clientes. Vendes os parcos bens que herdaste e metes-te a caminho de serra em serra, de praia em praia, de terra em terra, de feira em feira. Ao relento, dormes ao lado de vagabundos, soldados, frades e pedintes, mas ai daquele que tentar apalpar-te tirando partido do teu sono…
Comida? Muitas vezes apenas uma côdea e meia dúzia de azeitonas.
Ora com este, ora com aquele, praticas o jogo do pau, logo a seguir aprendes a esgrimir e rapidamente ganhas fama de valentona. É quanto basta para que um dia um soldado alentejano, sorrindo, por escárnio te proponha casamento. Também sorrindo, tu respondes:
– Vamos lutar. Se venceres, serei tua mulher.
– Vamos a isso!
Espada ensarilhada contra espada, ó Brites, evitas um bote e dás uma cutilada tão profunda que o soldado tomba morto. Tens agora um grave problema pela proa porque matar um soldado é crime, seja em que circunstância for. Para fugir da mais que certa prisão resolves abalar para Espanha.
Aventuras e desventuras, mas por fim a ventura de Aljubarrota, sua marota…