SAÍDA DO EURO – UM TEXTO DE JACQUES MAZIER

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

O FUTURO DO EURO – I

Por Jacques Mazier

Junho 2013
(Este texto foi enviado à Presidente da Assembleia da República solicitando que seja distribuído pelos Grupos Parlamentares)

Desequilíbrios estruturais intra-europeus

Após a criação do euro, as divergências entre os países da União Monetária cresceram de uma forma que hoje é insustentável. Os países do Norte (Alemanha, Países Baixos, Áustria e outros) continuaram as suas políticas de compressão dos custos salariais para aumentar a sua competitividade e ganharem assim quotas de mercado. O crescimento da procura interna nestes mesmos países foi prejudicado o que contribuiu para a travagem de toda a área. Os excedentes nas balanças correntes cresceram fortemente. Ao contrário, os países da Europa do Sul experimentaram impulsionar o crescimento pelo boom imobiliário (Espanha, Irlanda) e pela dívida e tudo isto foi favorecido por uma política monetária acomodatícia. Os preços e os custos derraparam. As balanças correntes afundaram-se. Estas alterações não foram consideradas alarmantes: a Espanha, Portugal e a Irlanda eram modelos de rigor orçamental e um discreto véu foi lançado sobre o caso da Grécia. Com a crise financeira de 2008, a actividade económica caiu, os desequilíbrios orçamentais alargaram-se profundamente, mais ainda, os défices nas balanças correntes reduziram-se em certos países (Gráficos 1 e 2).

As medidas adoptadas por etapas sucessivas, desde 2010 e face à crise da zona euro foram respostas parciais tomadas em situação de catástrofe. Estas permitiram ganhar tempo sem nos fornecer as medidas correctivas adequadas para os desequilíbrios estruturais que caracterizam a zona euro. A união monetária assenta sobre um modelo fundamentalmente desequilibrado. As variações de paridade são impossíveis, não existindo portanto nenhum mecanismo de ajustamento para corrigir as evoluções divergentes que afectam os diferentes países da zona euro devido à sua grande heterogeneidade. Nenhum federalismo orçamental ou mecanismo de seguro orçamental foi criado. A ideia segundo a qual uma integração financeira acrescida permitiria criar suficientes mecanismos de estabilização e evitaria assim a necessidade de um federalismo orçamental tinha sido em grande parte veiculada pelo Banco Central Europeu e pela Comissão durante a década de 2000. Esta tese está largamente errada.

Restam os mecanismos de ajustamento pelos preços relativos, chamados ainda de mecanismos de “desvalorização real” [ou ainda de desvalorização interna ou também deflação interna], ou seja, a compressão dos preços e dos salários, a redução de efectivos e as políticas de austeridade. Esses mecanismos só são eficazes a médio e longo prazo para reduzir os desequilíbrios, de maneira desigual segundo os países, e arrastam consigo uma travagem do crescimento e um aumento do desemprego. São ainda menos eficazes quando a sua aplicação é feita de forma generalizada num grande número de países interdependentes mas tanto mais eficazes quanto os países em causa são de pequena dimensão económica. É a política imposta aos países do Sul da Europa. Os resultados são sem nenhuma surpresa: redução da produção e aumento do desemprego para fazer baixar os custos, mas com uma redução dos desequilíbrios orçamentais, que só pode ser lenta e parcial devido ao facto de se verificar uma contracção das receitas. A Comissão Europeia teve aliás que reconhecer os limites desta política.

Gráfico 1: Balança corrente (em % do PIB)

Mazier - I

Fonte: Eurostat

Gráfico 2: Custo salarial unitário relativo (base 100 = 2000)

Mazier - IIFonte: Eurostat

Isto reflecte uma confirmação simples. A nível da zona euro como um todo, a balança corrente está próxima do equilíbrio e os défices públicos são menores que em outros países da OCDE. O euro, como um todo, está perto da sua paridade de equilíbrio. Desvalorizar o euro sem dúvida facilitaria a reabsorção da crise, mas à custa de outras regiões da economia mundial. Esta seria uma política unilateral sem fundamentos objectivos e que iria agravar os desequilíbrios internacionais. Por outro lado, os desequilíbrios intra-europeus são consideráveis. O euro está fortemente sobreavaliado para os países da Europa do Sul, incluindo a França e, pelo contrário, está altamente desvalorizado para os países da Europa do Norte, nomeadamente para a Alemanha (Jeong, S.-E., Mazier, J., Saadaoui, J., 2010). A ideia de desajustamentos cambiais intra-europeus tem dado origem a debates, mas há muito pouca dúvida de que, no caso de um euro alemão flutuante, este se apreciaria muito significativamente. As estimativas dos desajustamentos cambiais fornecem ordens de magnitude importantes: entre 2008 e 2011, o euro espanhol e grego teriam estado sobreavaliados em cerca de 20 a 40%, o euro português de 20 a 30%, o euro francês em cerca de 13%, enquanto o euro alemão estaria em vez disso subavaliado em 22%.

Estes desajustamentos cambiais reflectem uma heterogeneidade estrutural entre o Norte (Alemanha, Holanda, Bélgica, Áustria, Finlândia) e o Sul da Europa (Itália, Espanha, Portugal, Grécia). A França encontra-se, de muitos pontos de vista, numa posição intermédia entre as duas Europas. Alguns indicadores para ilustrar esta heterogeneidade.

Em primeiro lugar, a Europa do Norte é mais especializada em produtos da indústria transformadora (cerca de 20% do valor acrescentado em cada país) enquanto a Europa do Sul está cada vez mais especializado em bens e serviços não negociáveis internacionalmente (construção, comércio e turismo) com uma parte decrescente do sector transformador (de 16% em 2000 para cerca de 13% do valor total acrescentado em 2010). Em segundo lugar, a dimensão das empresas industriais é muito menor na Grécia, Portugal, Espanha e Itália do que no resto da Europa. Um terço das empresas industriais gregas tem menos de 10 trabalhadores, em comparação com apenas 4% das empresas na Alemanha. Apenas 19% das empresas industriais portuguesas tem 250 assalariados ou mais, em comparação com 55% na Alemanha. Geralmente, as pequenas empresas têm menor produtividade. Assim, a produtividade das empresas europeias com menos de 20 trabalhadores é apenas igual a um pouco mais de metade da produtividade das empresas com mais de 250 funcionários. Em terceiro lugar, o esforço de inovação é significativamente mais baixo no Sul do que no Norte. O peso da I&D no PIB é de 1,5% no Sul contra 2,6% no Norte. Da mesma forma, o número de patentes por habitante é três vezes mais fraca no Sul do que no Norte. Finalmente, a população activa é claramente menos qualificada no Sul do que no Norte (OCDE, 2010).

Estes desajustamentos cambiais bloqueiam o crescimento e aprofundam os défices públicos e os défices correntes no Sul enquanto o crescimento no Norte é sustentado pelas exportações, especialmente para o resto da área do euro, facilitando a redução dos défices públicos. Estes desajustamentos monetários aumentam os custos dos produtores do Sul e reduzem os dos seus concorrentes no Norte e isto em montantes consideráveis. Um resultado sintético é dado por país, em média para três subperíodos entre 2000 e 2011, tendo em conta os desajustamentos cambiais observados e o grau de abertura do país (ver Quadro 1).

Quadro 1: Crescimento ou redução dos custos induzido pelos desajustamentos cambiais observados (em % do PIB de cada país)

Mazier - IIIFonte: Duwicquet, Mazier et Saadaoui, 2012

A subavaliação do euro para os países do Norte da zona euro traduz-se em reduções dos custos unitários. As suas exportações são assim subsidiadas, enquanto os produtores nacionais têm uma vantagem sobre os importadores, cujos preços aparecem assim como que aumentados. Estas reduções de custos representavam em média cerca de 10% do PIB por ano em meados da década de 2000. Os países do Sul da zona euro (Portugal, Espanha e Grécia) estão na situação oposta. Por causa da sobrevalorização das suas moedas, eles suportam custos de produção adicionalmente mais elevados. As suas exportações são assim encarecidas. Os produtores nacionais enfrentam a concorrência dos importadores, cujos preços são reduzidos pela taxa de câmbio sobreavaliada. A França, apesar de ser dos países menos afectados não tem deixado de estar a sofrer custos adicionalmente mais elevados e na ordem de 5% do PIB desde meados da década de 2000. Tem sido a mesma coisa para a Irlanda mas esta tem praticado, desde a abertura da crise, uma política drástica de desvalorização real que inverteu a situação. A Itália tem permanecido em matéria de câmbios numa situação muito próxima do equilíbrio.

Estes aumentos ou reduções dos custos ligados aos desajustamentos cambiais entre os países europeus têm um significativo impacto macroeconómico. Um país da Europa do Sul com a sua moeda euro sobrevalorizada é penalizado por um aumento nos seus custos de produção em comparação com os seus concorrentes e assim vê o seu comércio externo em valor a deteriorar-se, o seu crescimento a ser travado e vê igualmente a deteriorar-se o seu volume de emprego e os preços a ficarem mais baixos. Expresso em moeda nacional, o valor da sua produção baixa, tal como baixa o seu nível de emprego. Mas expresso em moeda internacional, ou seja, em dólar, a sua produção encontra-se aumentada graças à sobrevalorização da moeda. Mais poder de compra internacional mas menos emprego e mais desempregados, em resumo. Por outro lado, um país da Europa do Norte, com a sua moeda desvalorizada beneficia de uma redução nos seus custos em relação aos seus concorrentes. Melhora o seu comércio exterior, melhora o seu crescimento em volume, o seu emprego aumenta. Expresso em moeda nacional, a sua produção está a crescer, mas cresce menos em moeda internacional. O nível de emprego é maior na Alemanha do que se o marco alemão tivesse sido mantido. Mas os alemães em dólares são mais pobres. 

(continua)

Leave a Reply