Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
A Europa tem razão ao duvidar da liderança alemã sobre o Euro – II
Jakob Augstein
(conclusão)
…
Cercado por idiotas?
Com o calvário de Chipre a intensificar-se, ficou clara uma certa ideia sobre a política alemã: os alemães são caracterizados por uma teimosia que os próprios alemães consideram fazer parte dos seus princípios, mas que na verdade nada mais é do que um falso moralismo. Com as suas manobras políticas sobre os europeus, Merkel quebrou todas as tradições de Alemanha Ocidental. E fê-lo com menos delicadeza do que quando ela quebrou as tradições do seu próprio partido. O conselheiro principal de Merkel para os assuntos europeus, Nikolaus Meyer-Landrut, disse-lho no Verão de 2011. Tudo o que de Bruxelas é responsável funciona muito bem, disse-lhe ele a ela, enquanto as áreas que cabem aos Estados-Membros estão em desordem. Assim, seria lógico conceder a Bruxelas mais poder. Mas Merkel decidiu uma outra coisa.
Sob a liderança de Angela Merkel, a Europa dos Estados-nação voltou ao de cima — uma tendência contra a qual ex-Chanceler Helmut Schmidt emitiu um aviso de alarme. “O Tribunal Constitucional Federal alemão, o Bundesbank e Chanceler Merkel estão a agir como sendo o centro de decisão da Europa, para exasperação dos nossos vizinhos,” disse ele, e uma parte da opinião pública é propensa a uma “visão nacional-egoísta” da Alemanha. Schmidt, que viveu todo o período da Alemanha nazi e todo o período da Segunda Guerra mundial, não utilizou estas palavras de ânimo leve.
Nikolaus Blome, editor-chefe adjunto do tablóide de grande circulação Bild, escreveu um editorial em que chamou aos parlamentares cipriotas “Cypr-idiotas” porque eles votaram contra o plano da UE de tributar os depósitos bancários. Mas, se nós aprendemos alguma coisa com a série infantil feita a partir do best-seller “Diary of a Wimpy Kid” é que aqueles que se acham estar cercados de idiotas são eles próprios geralmente uns idiotas. Para lá desta crise do euro está a surgir um conflito sobre a hegemonia alemã na Europa. Parece ser por causa da economia, quando na verdade está baseado no exercício do poder político.
A pressão dos alemães com os grilhões da dívida sobre os povos europeus..– o antropólogo americano e activista dos Occupy Wall Street David Graeber julga-a como altamente perniciosa. “Se a história mostra alguma coisa, é que não há nenhuma maneira melhor para justificar as relações fundadas na violência, do que fazer com que essas relações pareçam moralmente justificadas, do que reformulá-las e enquadrá-las na linguagem da dívida — acima de tudo, porque isso imediatamente faz parecer como se fosse a vítima que está a fazer algo de errado,” escreveu ele no seu livro em 2011 “Debt: The First 5,000 Years.”
Alemanha paga para a (e ganha com a) crise
Como no passado, os mais fracos estão hoje a ser ridicularizados. Quem tenha dívidas é culpado do seu próprio crime.
Essa linha de pensamento deixa espaço para acusações e para a auto-piedade, como se evidenciado pelo colunista conservador Vogg Hugo-Müller. “Sem garantias dos alemães, não haveria nenhum resgate,” escreveu ele numa artigo no Bild na semana passada. “No entanto, de todas as pessoas, nós alemães somos o alvo das críticas, até mesmo de um imenso ódio, nos países flagelados pela crise. A Chanceler é denegrida com o bigode de Hitler, as bandeiras alemãs são rasgadas e os alemães são os maus da fita e os culpados de todas as desgraças. ” Daqui resultam muitas conversas em bares e ou às mesas de jantar, entre proletários e professores –que poderiam levar a que o novo partido populista de direita “Alternativas para a Alemanha” possa obter um brilhante sucesso nas próximas eleições federais
Isto é tudo uma mentira. Os alemães não só pagaram para a crise, eles também ganham com a crise. As economias feitas com a redução no pagamento de juros de que a Alemanha tem beneficiado desde o início da crise, ascendem a mais 10 mil milhões somente no ano passado. Além disso, há o pagamento de juros das nações endividadas . A realidade da crise do euro é isto: os pobres de Atenas estão a pagar para os ricos na Alemanha. The poor of Athens are paying the rich in Germany.
Tais experiências falharam no passado, e eles falharão no futuro. Os europeus não o permitirão. Os alemães continuam a aplaudir a sua Chanceler, mas deviam prestar atenção às palavras do antigo Presidente do Eurogrupo Jean-Claude Juncker: ” Quem acredita que a eterna questão da guerra e da paz na Europa tem sido permanentemente colocada em sossego poderá estar a cometer um erro monumental. Os demónios não foram banidos, eles estão apenas a dormir.”


E o alemão médio bebe disto todos os dias, e está convencido de que os idiotas são os outros (neste caso do Sul).