A BATALHA DE ALJUBARROTA, ENCRUZILHADA DA HISTÓRIA – 5

Com a devida vénia e os nossos agradecimentos transcrevemos excertos de um estudo realizado por uma equipa especializada da Fundação Batalha de Aljubarrota. Essa equipa, dirigida pelo Professor Mário Jorge Barroca, é constituída pela arqueóloga Maria Antónia Amaral, pela antropóloga Eugénia Cunha e por Alexandre Patrício Gouveia, equipa que felicitamos pela excelência do seu trabalho.

«Confiante na sua superioridade numérica, a hoste castelhana, admitia agora combater.  Enquanto isso, o exército português tirava o máximo partido da sua nova posição no planalto  de S. Jorge. A frente era bastante estreita e achava-se bordejada, a nascente e a poente, por  duas linhas de água, que coincidiam com outros tantos barrancos. A espera permitira também  efectuar, ou completar, uma série de fortificações acessórias, destinadas a reforçar a protecção  dos flancos e a criar dificuldades ao avanço castelhano. Assim, rasgaram-se fossos e cavaramse  covas-de-lobo, que escavações arqueológicas (de Afonso do Paço, nos anos 60 do Séc. XX,  e outras mais recentes) colocaram a descoberto. Cortaram-se e empilharam-se troncos de  árvores, formando-se com eles “abatises”. Depois, uma grande parte deste dispositivo de defesa  foi disfarçada com ervas e ramagens.

A hoste portuguesa desenhou, então, no terreno, uma espécie de quadrado. A vanguarda,  comandada por Nuno Álvares Pereira, comportava homens desmontados armados com lanças.  Lateralmente, e avançando em relação a esta linha, duas alas formadas por corpos de arqueiros  e besteiros. Duzentos ou trezentos metros atrás da vanguarda, estava a retaguarda ou reserva,  também ela apeada e comandada por D. João I. Ao fundo de tudo ficou estacionada a  carriagem, ou trem de apoio. Os flancos foram forrados com tropas de composição mista.  A vanguarda castelhana, formada a uns 700 metros a Sul, incluía um grande número de “lanças” dispostas em várias fileiras. Em cada uma das alas havia centenas de cavaleiros. A  retaguarda, ainda incompleta quando se iniciou o combate, reunia alguns milhares de “homens  de armas”, distribuídos por várias linhas.

Depois de estacionado na esplanada de Chão da Feira, o monarca castelhano reuniu o seu  conselho de guerra, tendo sido defendidas duas grandes posições:  – Aqueles que defenderam que não se devia atacar, argumentando que já era tarde, as tropas  estavam cansadas, não tinham comido e o inimigo encontrava-se numa boa posição. Dentro  desta opção, discutem-se duas alternativas possíveis: não tomar qualquer atitude, ordenando as  forças e aguardando, o que levaria os portugueses a ter de tomar a iniciativa, saindo da sua  posição e perdendo a vantagem; ou ignorar o exército português e continuar a progressão para  Lisboa, que era o objectivo da expedição. » (…) «Por decisão (ou como consequência de alguma indecisão que gerou desobediência),  concretizou-se a opção de atacar. Seguiram-se diversos acontecimentos, dos quais podemos  destacar os seguintes:

1.º Das 17:45 até às 18:15 – o primeiro assalto:

Enquanto D. Juan I reunia e ouvia o seu conselho de guerra, 16 trons foram instalados à frente  da vanguarda do exército castelhano, a cerca de 800 metros da vanguarda do exército  português. 100 metros atrás, ou seja, a 900 metros da vanguarda do exército português, estava a  primeira linha da vanguarda castelhana, composta na sua grande maioria por cavaleiros  franceses. Cerca de 600 metros atrás da primeira linha, estava D. Juan I de Castela, com a sua  escolta. Nessa segunda linha começavam-se a estabelecer, à medida que chegavam, o resto das  lanças montadas, dos peões e dos besteiros. Um pouco atrás, tinha-se montado a tenda real e  algumas outras, onde se colocaram diversas bagagens.

Quando se tomou evidente que um conjunto de cavaleiros ia iniciar o ataque às posições  portuguesas, os referidos trons dispararam as suas cargas (pelouros de pedra), dando início à  Batalha de Aljubarrota. Um desses tiros atingiu a ala direita portuguesa, matando dois  escudeiros portugueses e um arqueiro inglês. Estes tiros causaram grande consternação na  hoste portuguesa, uma vez que a grande maioria dos homens de armas portugueses desconhecia  esta arma». (…) «O Condestável português havia entretanto desmontado e, rodeado pela sua guarda pessoal de  50 escudeiros, encontrava-se junto à sua bandeira, instalada numa pequena colina, no local  onde hoje se encontra a Ermida de São Jorge. A vanguarda dispunha de 600 lanças dispostas  possivelmente em três fileiras, ao longo de 180 metros. A ala esquerda, a Ala dos Namorados,  mais próxima do Condestável, era comandada por Mem Rodrigues de Vasconcelos e por seu  irmão Rui Mendes. Esta ala, onde sobressaía uma grande bandeira verde, dispunha de aproximadamente 400 besteiros, 200 lanças e 650 homens a pé. A ala direita, que dispunha de  aproximadamente 200 arqueiros ingleses, 100 besteiros, 200 lanças e 750 homens a pé, era  comandada por Antão Vasques. Sobre ela pairava a bandeira de São Jorge. Os dois lados da  sua saliência ocupavam 260 metros.

Poucos minutos depois, pelas 17:45 horas, a vanguarda do Rei de Castela, constituída por cerca  de 2.000 cavaleiros, na sua quase totalidade tropas auxiliares francesas, iniciou o ataque. Avançando a galope, estes cavaleiros passaram a estar, a partir dos 400 metros, debaixo do  alcance dos virotões dos besteiros portugueses. A menos de 300 metros passaram a receber  igualmente as setas disparadas pelos arqueiros ingleses, armados com os temíveis long bows  (arcos longos). Atingidos pelos virotões primeiro e depois também pelas flechas, cavalos e  cavaleiros começam a cair. À medida que a zona central do planalto foi ficando mais estreita,  foram-se apertando uns contra os outros. As baixas começaram a multiplicar-se e a confusão  foi alastrando. Os cavalos e cavaleiros caídos por terra e feridos arrastaram consigo outros, que  caíram igualmente. Devido ao peso das suas armaduras e às feridas sofridas, os cavaleiros  tinham dificuldade em se levantar. A menos de 250 metros da vanguarda portuguesa, os  cavalos começaram a cair nas covas-do-lobo e nos fossos criados pelos portugueses. Os  cavaleiros que mesmo assim conseguem chegar a menos de 100 metros da vanguarda  portuguesa, saltando com os seus cavalos os fossos e as covas-do-lobo, estavam sujeitos a um  crescente aperto, devido à existência dos abatises que estreitavam o acesso à vanguarda  portuguesa.

Com falta de espaço, sujeitos aos contínuos disparos de virotões e flechas e às  quedas dos seus cavalos, muitos cavaleiros desmontaram e procuram continuar a combater a  pé. Contudo, além de não conseguirem romper a vanguarda portuguesa, foram sujeitos a um  forte ataque dos homens de armas portugueses da vanguarda, com lanças e armas de choque.  Combatendo isoladamente do resto do exército castelhano, que ainda não tinha avançado, os  cavaleiros franceses sobreviventes lutaram desesperadamente, mas acabaram por ter de se  render aos portugueses. Foram então aprisionados cerca de 1.000 cavaleiros franceses, que  foram levados para trás da vanguarda portuguesa. Alguns começaram a negociar o resgate. A  maioria aguardava a chegada do exército de Castela, confiantes que os viriam livrar do cativeiro.

2.º Das 18:15 até às 19:30 – o segundo assalto:

Observando, à distância, o desenrolar dos acontecimentos e tendo recebido os relatos de alguns  cavaleiros franceses que tinham conseguido regressar para junto da posição castelhana, D. Juan  I toma, pouco depois das 18:00 horas, conhecimento da terrível notícia. Alguns nobres  castelhanos aconselham o Rei de Castela: “Meu Senhor, o sol já está posto, pelo que não  devemos continuar aquela hora o combate; devemos antes esperar pelo amanhecer, e reagrupar até lá as nossas tropas, que não comeram e estão cansadas”. Contudo, D. Juan I respondeu:  “Quem tal conselho dá não preza a minha honra, pois nunca poderei deixar presos em mãos  inimigas cavaleiros do meu exército”.

Tocaram então as trombetas e os tambores muito fortemente, e ouviram-se vozes que gritavam  “Por Santiago! Por Santiago!” e “A eles! A eles!”. O exército castelhano iniciou pelas 18:15  horas o avanço com a sua vanguarda, alas, e retaguarda. Na primeira linha vinham cerca de  3.000 cavaleiros, na sua maioria castelhanos mas também vários nobres portugueses, entre os  quais o Conde D. João Afonso de Teles, irmão de D. Leonor Teles. Estes cavaleiros  avançavam organizados em três filas, cada uma com 1.000 cavaleiros. A maior parte destes  cavaleiros estavam munidos de longas lanças. Numa segunda linha, algumas centenas de  metros atrás, vinham cerca de 4.000 ginetes, para além de cerca de 500 besteiros castelhanos e  diversos homens de armas. Com o exército castelhano avançou a bandeira do monarca  castelhano, onde se viam os brasões de Castela e de Portugal, e muitas outras bandeiras e  estandartes da nobreza castelhana.

Embora no início do avanço as linhas castelhanas estivessem alinhadas, depressa começaram a  ter dificuldade em manter as filas paralelas, devido à configuração do planalto. As duas alas  viram-se impedidas de progredir pelos flancos. A vanguarda castelhana continuou o seu  avanço, e as alas, comprimindo-se, procuraram segui-la. O conjunto tornou-se primeiro  convexo, e depois informe e compacto. Quando ultrapassou a linha dos 400 metros de distância das forças portuguesas, a vanguarda castelhana passou a estar também sob o efeito dos virotões  dos besteiros portugueses, provocando a queda de cavalos e cavaleiros e causando mortos e  feridos.

A partir de então, em face dos obstáculos artificiais que se avistavam e da falta de  espaço para os cavalos poderem avançar livremente, a maioria dos cavaleiros castelhanos  desmontou e tentou percorrer a pé as escassas centenas de metros que faltavam para atingir o exército português. As suas compridas lanças, que se destinavam a combate montado, seriam  quebradas para se adaptarem à luta corpo a corpo que se avizinhava. Contudo, nem todos os  cavaleiros castelhanos desmontaram e algumas dezenas conseguiram chegar à zona da  vanguarda portuguesa. A partir do momento em que sentem que estão debaixo dos virotões e das flechas, tanto  cavaleiros como homens a pé procuram acelerar o passo. Devido à grande concentração de  homens, ao progressivo estreitamento da frente de batalha e aos obstáculos artificiais existentes  (covas-do-lobo e fossos) que lhes provocavam continuamente quedas, os atacantes vão-se  acotovelando, tropeçando em corpos de homens estendidos no chão e vêm-se cada vez mais apertados. Devido a este estreitamento no espaço disponível para o avanço, a retaguarda  castelhana estava já encostada à vanguarda castelhana, de tal forma que constituíam apenas um  conjunto único de homens. Os cerca de 400 besteiros castelhanos que acompanhavam os  homens de armas da vanguarda, viram-se incapazes de utilizar eficazmente as bestas, por não  terem campo de tiro livre. Entretanto os homens de armas iam sendo atingidos pelas flechas e  virotões dos atiradores ingleses e portugueses.  Todas estas circunstâncias fizeram com que os últimos 300 metros, antes de ser atingida a  vanguarda portuguesa, fossem percorridos com um grau crescente de dificuldades. Não  podendo atacar pelos flancos, dadas as duas linhas de água que torneavam o planalto, e não podendo vencer os obstáculos artificiais que se deparavam no terreno (abatises, fossos e covasde-  lobo), os castelhanos foram convergindo para o centro do planalto, convertendo-se numa  massa confusa, amontoada e disforme. Perderam velocidade de progressão no terreno e o  número de baixas foi aumentando. A compressão foi de tal ordem que muitos castelhanos  mortos não apresentavam qualquer ferimento, tendo morrido esmagados ou sufocados.

Perante este avanço, os portugueses tocaram as suas trombetas, e a vanguarda avançou em boa  ordem, passo a passo, com as lanças debaixo do braço, apontadas a direito, numa frente de  aproximadamente 250 metros de largura. Apesar da investida castelhana ter abrandado a velocidade, de ter sido encaminhada para um estreito corredor em frente do exército português, e do elevado número de baixas sofridas durante o processo de aproximação, cerca de 2.000 homens castelhanos chegou ainda com alguma força à vanguarda portuguesa, mais junto à ala esquerda portuguesa, perto da zona onde se encontrava Nuno Álvares Pereira e a sua bandeira. Deu-se então o choque com a vanguarda portuguesa, onde, num primeiro momento, cada parte procurou crivar as suas lanças nos seus inimigos. Simultaneamente, os besteiros portugueses e arqueiros ingleses continuavam a flagelar os assaltantes castelhanos. Nos intervalos dos seus lançamentos, os peões portugueses, situados atrás dos besteiros e arqueiros, arremessavam um elevado número de pedras e lanças. Nesse momento, e neste segundo assalto, já os assaltantes castelhanos tinham sofrido cerca de 3.000 feridos e mortos».(…)

«Na sequência desta luta brutal, cujo barulho podia ser ouvido a longa distância, a vanguarda  portuguesa acabou por ceder, abrindo a passagem a cerca de 1.500 homens de armas  castelhanos. Outros castelhanos ficaram a enfrentar a parte não destroçada da vanguarda  portuguesa. A coluna de assaltantes que conseguiu forçar a linha de vanguarda continuou a  avançar de forma desordenada, o que aumentou o atropelo. A ruptura da vanguarda portuguesa  deu-se junto à ala esquerda, ou seja, a Ala dos Namorados, razão pela qual houve aí maior  número de baixas portuguesas. Mem Rodrigues de Vasconcelos e seu irmão Rui Mendes, que  comandavam esta ala, foram alguns dos que ficaram feridos.

Perante a ruptura da vanguarda portuguesa, as duas alas laterais recuaram, colocando-se entre a  vanguarda e a retaguarda portuguesa. Com efeito, não havendo inimigos que estivessem a  atacar as alas, os besteiros portugueses e os arqueiros ingleses puderam recuar e virar-se para o  interior do “quadrado” português, alvejando os assaltantes castelhanos que aí haviam  penetrado. O mesmo faziam os homens de armas portugueses aí situados, que atacavam os  assaltantes com as suas lanças.

Contudo, este movimento das alas portuguesas não conseguiu impedir o avanço dos  castelhanos.»(…) Os portugueses  utilizaram neste combate as suas espadas, punhais e fachas. Os homens de armas portugueses  da retaguarda tinham, poucos metros atrás de si, os seus pagens e tratadores com os seus  cavalos à mão. Quando estes homens de armas portugueses avançaram em direcção ao inimigo, foram seguidos por eles. Após este choque, os castelhanos deixaram de avançar. Com este movimento, que assume uma  importância decisiva na batalha, os assaltantes castelhanos ficaram pressionados por vários  lados pelos portugueses. Com efeito, sendo atacados violentamente por três lados, os homens  de armas castelhanos sofreram significativas baixas. A norte enfrentavam a retaguarda  portuguesa, com cerca de 2.000 homens de armas. A este e oeste as alas portuguesas, com  cerca de 1.200 peões, besteiros e arqueiros. E a sul, cerca de 350 lanças, que haviam  sobrevivido ao rompimento castelhano».(…)«Enquanto alguns castelhanos continuavam a combater, outros, feridos e cientes do desfecho  que se avizinhava, começaram a procurar fugir. A bandeira castelhana foi derrubada, o que  aumentou a desorientação entre as forças de D. Juan » (…)«Os portugueses conseguiram assim em primeiro lugar parar o avanço castelhano, e  posteriormente, à custa de luta corpo a corpo, empurrar progressivamente os castelhanos para  sul, e depois, mesmo para fora da sua vanguarda. Este movimento fez com que muitos,  recuando a lutar, caíssem na ribeira aí existente, e nos fossos construídos pelos portugueses.  Isto sucedeu também com os cavaleiros castelhanos que continuaram a avançar montados, e  que saltaram com os seus cavalos um fosso que existia em frente da vanguarda portuguesa.  Todos foram derrubados dos cavalos, e nenhum sobreviveu. » (…)

«A vanguarda portuguesa, embora desfalcada, tinha conseguido  restabelecer a sua frente. Mas a segunda linha castelhana, em organização ao longe, constituía  uma ameaça. Generalizou-se então a fuga dos assaltantes castelhanos em direcção ao acampamento  castelhano. A segunda linha castelhana, onde estava o rei de Castela, começou a formar para  iniciar o ataque à posição portuguesa. Contudo, ao deparar com um imenso pelotão de  castelhanos que retrocediam, desmoralizou e acabou por não iniciar o seu ataque.  Nesta altura, pelas 18:45 horas, perante o desbarato dos castelhanos, os portugueses tomaram a  iniciativa. Procurando explorar o sucesso, passaram à ofensiva, gritando, e perseguindo a  cavalo os adversários que tinham sobrevivido e que procuravam fugir. Este movimento de contra-ataque a cavalo, prolongou-se até à tenda Real de D. Juan de Castela, e em direcção a  Leiria até à Canoeira. Foi na Canoeira que caiu em mãos portuguesas o altar de campo de rei de Castela. Por esta altura, muitos cavaleiros castelhanos procuravam fugir, cavalgando para longe do  campo de batalha. Uns largavam as suas armas para mais facilmente poderem fugir. Outros  viravam as suas roupas do avesso, de forma a não poderem ser reconhecidos como castelhanos. Muitos, com medo, saíam das estradas e metiam-se no mato, acabando por se perder.

3.º Das 19:00 até às 19:45 – o assalto á carriagem portuguesa:

A ala esquerda castelhana, chefiada por Don Gonçalo Nunes de Gusmão, composta por  aproximadamente 700 cavaleiros, havia desde o início deste segundo assalto avançado pela  zona do Tojal, contornando a ala esquerda do exército português. Vendo que o ataque frontal ao exército português não era possível, em face do Vale da Mata que tinha diante de si e que  torneava a ala esquerda portuguesa, optou por avançar mais pela direita, longe do exército  português. Mais a norte, tendo já contornado completamente o exército português, subiu ao  planalto de São Jorge, inflectiu para sul, e atacou a carriagem portuguesa. Este ataque  verificou-se aproximadamente no momento em que se iniciava o contra ataque português à  tenda real de Castela. Don Gonçalo Nunes de Gusmão contava que o assalto do exército castelhano à vanguarda  portuguesa durasse bastante mais tempo de que sucedeu, pelo que, ao atacar a carriagem  portuguesa, submeteria o exército português a dois ataques simultâneos, um na vanguarda,  outro na retaguarda. Contudo, o seu ataque ocorreu quando o ataque castelhano à vanguarda  portuguesa já havia terminado, cerca das 19:00 horas, e quando muitos castelhanos já  procuravam fugir. Não deixou contudo de ser um ataque violento, que se traduziu em várias  investidas na zona da carriagem. A carriagem portuguesa era defendida por homens a pé e besteiros, que entrincheirados por detrás das bagagens, de carroças derrubadas e de outros  obstáculos artificiais que conseguiram utilizar, atiravam pedras, lanças e disparavam virotões.  Sabendo que o ataque principal castelhano já tinha sido repelido, e que não tardariam a chegar  reforços, os portugueses aguentaram estes ataques, embora em grande dificuldade.  Perante a situação difícil em que se encontrava a carriagem portuguesa, D. João I avisou D. Nuno Álvares Pereira, dizendo-lhe que socorresse imediatamente aqueles portugueses. Estando  cansado e não dispondo de cavalo, temeu em não conseguir chegar a tempo, uma vez que a  carriagem se situava cerca de 350 metros a norte. Valeu-lhe então o comendador-mor Pêro  Botelho que, estando montado, se apeou e cedeu o cavalo ao condestável. Quando D. Nuno aí  chegou, acompanhado por outros homens de armas portugueses, exortou os portugueses que defendiam essa posição, dando-lhes palavras de incentivo. Em face disto, a peonagem  portuguesa ganhou novo alento e resistiu enquanto que os ginetes castelhanos, ao verem que o  Condestável português se apresentara com reforços, acabaram por desistir do ataque.

4.º A partir das 19:15 – a retirada de D. Juan I de Castela:

Perante a debandada geral castelhana, os homens da guarda de D. Juan I colocaram o monarca  doente num cavalo e, com uma escolta de cem cavaleiros, abandonaram o campo de  Aljubarrota dirigindo-se para Santarém, evitando que o monarca castelhano caísse prisioneiro.   Don Juan de Castela chegou a Santarém cerca da meia-noite, doente, exausto e desesperado.  Embarcou nessa mesma noite em direcção a Lisboa, onde chegou no dia seguinte, 15 de  Agosto, onde embarcou na sua frota seguindo, por mar e em segurança, até Sevilha. Perante a debandada geral do exército castelhano segue-se uma curta, mas devastadora perseguição portuguesa durante o final da tarde. O escudeiro inglês Harteaelle discutiu com D. João I, pedindo cavalos para que os cavaleiros portugueses pudessem perseguir os fugitivos. O  Rei recusou, pois era tarde e o inimigo ainda era muito poderoso, referindo: “Quem tudo quer  tudo perde. Agradeçam a Deus que nos deu a honra e a vitória”.  O exército castelhano precipitou-se numa fuga desorganizada. Até à manhã do dia seguinte,  milhares de castelhanos em fuga foram chacinados por populares nas imediações do campo de  batalha e nas aldeias vizinhas. O restante das forças franco-castelhanas saiu de Portugal uma  parte passando por Santarém e depois por Badajoz, outra rumando a Norte e Leste, através da  Beira. No campo de batalha, as baixas portuguesas foram cerca de 1000 mortos, enquanto no exército  castelhano se situaram em aproximadamente 4000 mortos e 5000 prisioneiros. Fora do campo  da batalha, terão sido mortos nos dias seguintes pela população portuguesa, cerca de 5000  homens de armas castelhanos, em fuga».

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