Os puristas vão esfolar viva! Heresia esta forma de olhar para o célebre quadro de Picasso?
Talvez, mas uma outra forma. Que não substitui a emoção de nos confrontarmos com ele, o choque com o seu tamanho, força e mensagem. Que não substitui o pensarmos nos acontecimentos que levaram Picasso a pintá-lo e a apresenta-lo em 1937 na Exposição Internacional de Paris, pouco depois do trágico acontecimento. Acontecimento que não presenciou mas cujo impacto e sofrimento imaginou, deixando para a posteridade, através da força da sua pintura, um exemplo do pior de que o homem é capaz, mas também um exemplo de solidariedade.
Actualmente pode ser vista no Centro Nacional de Arte Rainha Sofia, em Madrid.
Lena Gieseke, artista nova-iorquina, fez esta análise do quadro que poderá também ter algum interesse.

Não é razão para tal violência. Mas o trabalhito, para além do exercício de algum virtuosismo técnico, que exibe, poderia, com um pouco mais de aprofundamento do tema, contribuir para ajudar a ‘ver’ alguns dos vários significados possíveis de uma obra de grande complexidade. Como o fez, há muitos anos, em poesia e genialmente, Carlos de Oliveira.
Depois a música… Falla, claro, não há outro, já que de Espanha se trata!
Não haverá?…
É que (e o Falla e a sua popular e belíssima canção de embalar não têm culpa nenhuma neste cartório), a escolha não ultrapassa o nível do que as ‘famílias de posses’ pediam às antigas criadas de servir: o trivial…
Dando uma rápida vista de olhos na minha discoteca (que é grandota, mas não é um acervo oficial), encontro, entre outras obras mais adequadas e que melhor dialogariam com um trabalho sobre este quadro de Picasso:
– ‘Guernica’, do espanhol Leonardo Balada; e ‘Guernica’, da americano-coreana Beata Moon.
– Obras relacionadas com Lorca – cujo assassínio se transformou numa representação icónica do absurdo, da estupidez e da crueldade do fascismo -, sobre poemas dele ou com excertos de poemas como epígrafe: os ‘Epitáfios’ de Luigi Nono (são 3, só tenho 2); ‘Cante in memoriam de Lorca’, de Gonzalo de Olavide; ‘Guirlanda p.ª F. G. Lorca’, do nosso Lopes-Graça; ‘Muerte’, de John Mitchell; o Adagio “De Profundis”, 1.º andamento da fabulosa 14.ª Sinfonia de Chostakovitch; ‘Anneau du Tamarit’, de Maurice Ohanna, sobre o ciclo de poemas homónimo, escrito em Viznar, onde Lorca foi assassinado; ‘Songs, Drones & Refrains of Death’, de George Crumb, a mais apropriada, no caso, mas apenas uma das várias obras dedicadas a Lorca pelo grande compositor norte-americano; o genial 2.º Concerto p.ª Violoncelo, de Cristóbal Halffter (encomendado, estreado e gravado por Rostropovitch).
– Também de C. Halffter: ‘Variaciones sobre la resonáncia de un grito’ (referência à tortura) e ‘Llanto por las victimas de la violéncia’, outra obra de oposição e denúncia do franquismo, assumindo, naturalmente, uma dimensão universal.
– Ainda: Sinfonia de Câmara ‘À Memória das Vítimas do Fascismo e da Guerra’ (uma adaptação do Quarteto N.º 8), de Chostakovitch; o Quarteto n.º 4 ‘Los Desastres de la guerra’ (sobre as gravuras de Goya), de Tomás Marco; ‘Sonido de la Guerra’ (poema de Vicente Aleixandre), de Luís de Pablo.
– Ou (como contrapomto), ‘Lamento di Guerra’ (sobre a ‘Oração para a Paz’, de Francisco de Assis), belíssima composição de Dieter Schnebel.
Muito mais haverá…
Não se trata de heresia, pois. O que me arrelia um tanto é, sobre um quadro que devora a atenção de quem o contempla, elaborarar-se apenas uma habilidadezinha bem intencionada que visa encher o olho, mas não ultrapassa a superfície, faltando-lhe quase tudo, a começar por um mínimo entendimento da simbologia de uma tela singularíssima – mesmo na obra de Picasso -, cujos estudos são já obras-primas, que suponho poderem também ser desfrutadas no Museu Rainha Sofia (a última vez que vi o quadro, acompanhado pelos estudos, ainda estava noutras instações, anexas ao Museu do Prado) e a acabar na ignorância de um enquadramento cultural que explicita a repercussão que a tragédia da Guerra de Espanha teve e continua a ter entre os criadores culturais, a um nível onde a tão glosada “globalidade” funciona mesmo.
Não é pecado. É tão-só uma despreocupada viagem pelos arredores modernaços de uma cidade histórica: vê-se de longe, diz-se “já lá estive” e tiram-se uma fotos, com umas torres românicas em fundo, pr’a recordação; mas não se tenta entrar, conhecer, perceber.
Quase adivinhava que se o Paulo Rato lesse esta publicação, me iria responder…E que, com os seus conhecimentos, daria uma achega preciosa. E acertei! Obrigada, Paulo. Os leitores ficaram com muito mais informação. Que nem todos poderemos ir repescar, no que se refere à música. De acordo quanto ao resto. Abraço.