CAMILO CASTELO BRANCO – 2 – “Histórias de Suicídios Famosos em Portugal” – por José Brandão

Conclusão)

Quando finalmente em 1834 os absolutistas são vencidos, o conflito transfere-se para o campo liberal, opondo conservadores e progressistas. A estabilidade só chegará em 1851, com a Regeneração. Ora, Camilo formou-se, como homem e como escritor, nesta sociedade em efervescência. E é nesse clima de agitação, de instabilidade, que decorre a acção de muitas das suas novelas. As suas novelas constituem um painel descritivo, em tom frequentemente sarcástico, da sociedade portuguesa do século dezanove. A sua atenção debruça-se sobretudo sobre uma aristocracia em clara decadência — material e moral — e uma burguesia em ascensão, que, aos seus olhos, se destaca pela boçalidade. A obra de Camilo é, em grande parte, um reflexo do seu próprio percurso biográfico.
A agitação, a instabilidade, os raptos, o conflito entre a paixão e a razão que encontramos nas novelas de Camilo, encontramo-los igualmente na vida de Camilo. Por outro lado, como profissional das letras que era, Camilo não pôde ignorar os apelos do seu público, que os editores traduziam sob a forma de pressões incontornáveis. Camilo vivia da escrita, e para isso precisava vender, o que implicava obedecer de alguma maneira às solicitações do público leitor. É essa sujeição aos gostos dominantes que explica também a “conversão” naturalista, detectável nas últimas obras de Camilo. Independentemente dessas cedências, há na sua obra passagens antológicas, onde transparecem os costumes, os comportamentos, os jeitos de falar do norte de Portugal. A exuberância, o imprevisto, o excesso passional das suas intrigas cativaram igualmente a geração literária dita ultra-romântica, que o homenageou quase no fim da vida. A intriga é quase sempre de teor passional, como se esperaria de um escritor romântico. Os impulsos do coração determinam a acção das personagens principais, que, normalmente, se defrontam com outras, movidas por outros impulsos menos ideais: o estatuto social, as rivalidades familiares, os interesses económicos… As suas intrigas são frequentemente demasiado lineares, mas não se pode negar a Camilo uma capacidade de efabulação notável. As condicionantes estéticas da sua época, os circuitos editoriais, a sociologia e psicologia do seu público e a sua própria personalidade impuseram à sua obra novelística características fortemente românticas. No entanto, a sua longa permanência de quase meio século na vida literária, e a sua dependência financeira da escrita, levaram-no, talvez a contragosto, a tentar acompanhar a evolução ideológica do seu tempo. Daí que o mais romântico dos nossos escritores nos apareça, quase no fim da vida, a ensaiar uma escrita realista e até naturalista. É autor de uma obra multifacetada. Nela se destaca, como sabemos, a componente novelística, mas estende-se também pelo teatro, jornalismo, ensaios biográficos e históricos, poesia, polémica, crítica literária, além de dezenas de traduções e uma extensa epistolografia. Vida e obra, realidade e ficção interpenetram-se no percurso de Camilo Castelo Branco, o escritor mais abundante do Romantismo português. A produção literária de Camilo sofreu grande influência das atribulações, nomeadamente amorosas, da sua vida.
Tendo de se sujeitar frequentemente às exigências dos seus editores, fazendo cedências, apressando a escrita, recorrendo a estereótipos que satisfizessem o gosto da época, a sua produção é algo irregular e apresenta algumas falhas. No entanto, soube pintar de forma ímpar os costumes e gentes da sua região e os seus modos de falar; as suas personagens revelam ainda uma intensidade passional que o celebrizou. A sua vida foi atribulada: ficou órfão bastante cedo, tendo passado a viver, primeiro com uma tia, em Vila Real, depois com uma irmã, período de que data a sua aprendizagem literária. Quando contava dezasseis anos, casou-se com uma aldeã, de quem cedo se separou. Estudou Medicina no Porto, de 1842 a 1844, e preparou-se para ingressar no curso de Direito em Coimbra, que não chegou a frequentar. A partir de 1848, dedicou-se à actividade jornalística, no Porto. Integrando-se no grupo dos «leões» do café Guichard, dedicou-se aos escritos polémicos e à novelística. Entre as várias aventuras amorosas que vinha tendo, salienta-se a sua paixão por Ana Plácido, cujo casamento o levou a matricular-se num seminário, em 1850. Dois anos mais tarde, regressou à actividade jornalística e literária, impondo-se nos círculos culturais de então. Em 1859, fugiu com Ana Plácido. Os dois foram presos, acusados de adultério, e absolvidos posteriormente, em 1861. Após a morte do marido de Ana Plácido, passaram a viver na casa deste, em São Miguel de Ceide. Dependente da sua escrita para sustento da família, Camilo viveu dificuldades económicas. Os seus problemas agravaram-se com o avanço progressivo da cegueira. Em 1888, casou-se com Ana Plácido e, dois anos mais tarde, suicidou-se com um tiro de pistola. A maior glória da literatura portuguesa escreveu uma carta datada de 21 de Maio de 1890: «Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país, durante quarenta anos de trabalho.
Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego». A 1 de Junho do mesmo ano, depois do dr. Edmundo de Magalhães Machado, oftalmologista de renome, o ter examinado cuidadosamente na sua casa de S. Miguel de Ceide. Camilo percebe que a cegueira era irreversível. Despediu-se do médico, saindo este acompanhado de Ana Plácido: «Calmo e decidido, Camilo sacou do revólver, em seu poder há vários anos, e disparou sobre o parietal direito». O suicídio sempre lhe fora familiar, parece que «primeiro como uma especulação da inteligência», depois, à medida que a cegueira progredia como resolução final. O escritor recusava deixar-se ficar um morto vivo. Considerado um dos grandes prosadores românticos, ainda durante a sua vida foi muito admirado pela geração ultra-romântica, e homenageado oficialmente recebendo, em 1885, o título de visconde de Correia Botelho. É geralmente tido como um dos grandes escritores portugueses.
Obras: Da extensíssima bibliografia de Camilo salientam-se Pundonores Desagravados, 1845 (sátiras); Anátema, 1851 (novela); Inspirações, 1851 (poesias); Mistérios de Lisboa, 1854 (folhetim); O Livro Negro do Padre Dinis, 1855 (novela); A Filha do Arcediago, 1857 (novela); Amor de Perdição, 1862 (novela); Memórias do Cárcere, 1862 (memórias); Esboços de Apreciações Literárias, 1865 (crítica literária); Vaidades Irritadas e Irritantes, 1866 (opúsculo); A Queda de um Anjo, 1866 (novela); O Retrato de Ricardina, 1868 (novela); Curso de Literatura Portuguesa, 1876 (crítica literária); Eusébio Macário, 1879 (novela); A Corja, 1880 (novela); A Brasileira de Prazins, 1883 (novela).

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