Nota prévia:
Para ouvir as canções baseadas em poemas de Urbano Tavares Rodrigues, assim como o programa “Agora… Acontece!”, há que aceder à página
http://nossaradio.blogspot.pt/2013/08/em-memoria-de-urbano-tavares-rodrigues_16.html
e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.
Em memória de Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013)
Eu sou marxista mas nunca achei que lutar pela transformação do mundo seja suficiente.
É preciso lutar no concreto por cada ser humano.
URBANO TAVARES RODRIGUES
Ficcionista, cronista, ensaísta, crítico literário e poeta, Urbano Augusto Tavares Rodrigues nasceu em Lisboa (freguesia de Santa Catarina), a 6 de Dezembro de 1923, e faleceu na mesma cidade (Hospital dos Capuchos), a 9 de Agosto de 2013. 
Filho do jornalista e escritor republicano Urbano da Palma Rodrigues (que foi chefe de gabinete de Afonso Costa) e de Maria da Conceição Tavares, senhora devota, viveu, dos três aos onze anos de idade, na herdade da família, o Monte da Esperança, na margem esquerda do Guadiana, a escassos quilómetros da sede do concelho, Moura. O contacto íntimo com a Natureza alentejana e a percepção da exploração de que era objecto a gente mais humilde marcariam indelevelmente a sua sensibilidade e índole humanista.
«A casa da minha infância foi um “monte” alentejano, próximo do rio Ardila, a cerca de quatro quilómetros da branca cidade de Moura. A frontaria dava para um pátio empedrado, de onde ainda se vêem, num alto, a eira, e mais perto, outras construções: a habitação do feitor, a cavalariça, a vacaria, o galinheiro, o curral dos porcos, o alpendre onde guardavam o trem, o churrião e vários carros de lavoura e alfaias agrícolas, a charrua, a debulhadora, o trilho… A toda a volta da casa, mansas oliveiras, quase cinzentas por tempo fosco, mas de prata quando o sol se mostra. E, quase encostada à casa, as olaias, muito visitadas pelos pardais sobretudo à noitinha, e a suave glicínia, trepando por uma parede caiada, junto a janelas de grega do quarto dos meus pais. Foi nesse cenário rústico, que de Inverno acordava muitas vezes branco de geada e onde a Primavera vinha cedo, de ouro e azul, sobre a verde germinação das searas, que decorreram os anos mágicos da minha infância, escutando os cantos e os dizeres dos camponeses, brincando com os pastorinhos das ovelhas e das vacas, galopando pelos montados do outro lado do rio, escalando cabeços cobertos de estevas e mistério, descobrindo os caminhos que levam ao Guadiana, a imensa herdade da Rola, aos longes de Espanha. Entre a catequização da minha professora, a D. Guilhermina, piedosa senhora docemente ridícula no seu outono de vida cheio de folhos, fitas e sonhos gorados, e a rebeldia franca dos trabalhadores ranchos, que pelo nosso “monte” passavam, vindos da Amieira e de Portel, comecei a tactear a vida, a dar pela injustiças sociais mesmo ao meu lado, a crescer entre cheiros e sons, visões, bem diferentes, mas misturadas, do paraíso e do inferno. Sentimentos em guerra nasciam dentro de mim e aos meus momentos contemplativos do fim do dia, após as horas de estudo ou os passeios pela beira do Ardila, a pé ou a cavalo, sucediam-se interrogações sem resposta. Deixara de acreditar nos mitos cristãos e procurava outras crenças, outros valores. Era o fim da minha infância, na altura em que meu pai ia ter de hipotecar a herdade (salvando-se anos depois do descalabro) e nós já víamos pela frente a partida para Lisboa, o liceu, o “exílio” entrecortado por breves férias no Alentejo.» (“A Casa da Minha Infância”, in “Seixo Review: Revista Semestral de Artes e Letras”, n.º 6, s/d.)
Feita a instrução primária em Moura, matriculou-se no Liceu Camões, em Lisboa, onde foi colega do futuro linguista Luís Lindley Cintra. Concluídos os estudos liceais, ingressou na Faculdade de Letras de Lisboa, vindo a licenciar-se em Filologia Românica, em 1949, com a tese “Manuel Teixeira Gomes: Introdução ao Estudo da sua Obra”, redigida sob orientação de Jacinto do Prado Coelho. Entre 1949 e 1955, foi professor de Língua, Literatura e Cultura Portuguesas em Montpellier, Aix-en-Provence e Paris (Sorbonne). Na Cidade-Luz, trava conhecimento e relaciona-se com grandes vultos das letras francesas, mormente com os existencialistas Jean-Paul Sartre e Albert Camus. De regresso a Portugal, a par da actividade literária e ensaística dedicou-se ao jornalismo, ao serviço do “Diário de Lisboa”, fazendo diversas viagens ao estrangeiro como repórter, das quais resultarão crónicas reunidas em livros. Em 1957, foi nomeado assistente da Faculdade de Letras de Lisboa, cargo de que seria destituído, dois anos mais tarde, por ter apoiado a candidatura do General Humberto Delgado nas eleições presidenciais de 1958. Para prover ao seu sustento e da família (havia-se casado, em 1949, com a escritora Maria Judite de Carvalho de quem tinha uma filha, a futura escritora Isabel Fraga) retomou a actividade jornalística, como redactor e crítico literário e teatral, no “Diário de Lisboa” (e a partir 1963 n’ “O Século”), leccionando no ensino particular (no Colégio Moderno, da família Soares, e depois no Lycée Français Charles Lepierre, vulgo Liceu Francês) e fazendo traduções.
O seu envolvimento em sucessivas acções de luta contra o Estado Novo (solidariedade com as rebeliões estudantis, viagens clandestinas a Cuba e à Checoslováquia, militância na resistência ao lado do Partido Comunista Português, ao qual aderiu formalmente em 1969, apesar da sua aversão ao estalinismo) valeram-lhe a perseguição da PIDE, livros apreendidos e três encarceramentos (em 1961, 1963 e 1968).
Em Outubro de 1974, por proposta de Luís Lindley Cintra, foi reintegrado no corpo docente da Faculdade de Letras de Lisboa, onde se veio a doutorar em 1984 com uma nova tese sobre Manuel Teixeira Gomes (“Manuel Teixeira Gomes: O Discurso do Desejo”), jubilando-se em 1993, mas continuando a exercer a docência na Universidade Autónoma de Lisboa Luís de Camões.
Paralelamente, colaborou em diversas publicações periódicas, como “Bulletin des Études Portugaises”, “Colóquio”, “Colóquio/Letras”, “Cosmos”, “Estudos Italianos em Portugal”, “Europa” (de que foi director), “Gazeta Musical e de Todas as Artes”, “Letras e Artes”, “Suplemento Cultural” (do jornal “O Diário”), “Vértice”, “Vida Literária” (suplemento do “Diário de Lisboa”), “JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias”, “Nouvel Observateur”, Seara Nova, Prelo. Foi ainda presidente da Associação Portuguesa de Escritores (1980/82) e membro da secção portuguesa do PEN Club, da Associação Internacional dos Críticos Literários, da Associação Portuguesa de Literatura Comparada, da Academia das Ciências de Lisboa, da Academia Brasileira de Letras e da Académie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres, além de integrar vários júris de prémios literários.
(Continua)
