POESIA AO AMANHECER – 267 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

CARLOS LOURES

( 1937 )

EM LOUVOR DOS EQUILIBRISTAS

Falta ainda uma condecoração,

ordem, ou comenda, que consagre

o esforço do equilibrista

em prol da civilização.

Formidável ciclista,

verdadeiro paganini da circulação

em cima do arame,

o equilibrista percorre,

sem qualquer hesitação,

o ténue traço que separa

a esquerda da direita.

É um simples traço,

quase uma abstracção,

um risco passado

por onde não há espaço.

Ágil, aproveira

o espaço inexistente

deslocando o corpo

obliquamente:

metade sobre o risco da direita

e outra debruçada

sobre os riscos da vertente

que à esquerda, sobre o abismo,

espreita.

Mas ouçamos a receita do artista

(que ninguém está livre

de a ter de usar:

quando menos se espera e pensa,

a corda tensa, a pista, a vertigem,

lá estão à espera

dos que não aprenderam a voar).

Diz, com modéstia,

o frágil saltimbanco:

– Afinal nem é assim tão complicado.

Sigo pela direita

quando

ando;

avanço pela equerda

quando estou

parado.

(de “O Cárcere e o Prado Luminoso”)

Coodenou a revista “Pirâmide” (1958-1960), de matriz surrealista. Co-dirigiu o suplemento “Labareda”, tendo sido grande animador do movimento dos suplementos culturais da imprensa regional na década de 60. Crítico de poesia do “Jornal de Notícias” (1964-1966). Coordenador da “Antologia da Poesia Contemporânea de Trás-os-Montes e Alto Douro” (1968). Co-fundador da colecção “Nova Realidade”. Co-organizou as antologias poéticas “Hiroxima” (1967), “Vietname” (1970) e “Poemabril” (1984, 2ª ed. 1994). Obra poética: “Arcano Solar” (1962), “A Voz e o Sangue” (1967), “A poesia deve ser feita por todos” (1970), “O Cárcere e o Prado Luminoso” (1990).

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