A história dos últimos séculos mostra claramente que o Ocidente esteve quase sempre contra o Egipto. Napoleão Bonaparte, quando partiu para o Egipto em 1798, levava consigo um grande grupo de sábios, fez às suas tropas a famosa declaração sobre os quarenta séculos das pirâmides e tentou um relacionamento próximo com as autoridades locais , mas o seu grande objectivo era estorvar os ingleses, abrindo uma nova frente de combate, no que aliás fracassou rotundamente. A abertura do canal de Suez teve sobretudo objectivos estratégicos e comerciais, mais do que contribuir para o desenvolvimento do Egipto. Contribuiu decisivamente para manter o país numa situação de sujeição, mesmo depois de se ter libertado do Império Otomano. Ficou numa enorme dependência da Inglaterra, até ao derrube da monarquia, em 1952, e à nacionalização do canal, em 1956. Entretanto, em circunstâncias conhecidas, tinha sido criado o Estado de Israel, que se tornou o peão do Ocidente no Próximo e Médio Oriente, assegurando a continuidade das políticas imperialistas.
Após a morte de Gamal Abdel Nasser, que procurou conduzir o seu país pela via do desenvolvimento, introduzindo reformas na educação, na economia e nos restantes serviços públicos, o Egipto voltou a colocar-se sob a batuta do Ocidente, com Sadat e Mubarak, sem dúvida que sentindo o peso da hegemonia militar israelita. Entretanto, por todo o mundo árabe recrudesceu o islamismo, encorajado pelo Ocidente para travar o progresso das ideias socialistas. Assim, o mundo árabe, melhor dito, os povos do Próximo e Médio Oriente, onde o Islão é predominante, deram um sério passo atrás, sendo dilacerados entre a religião, governos retrógrados e um genuíno desejo de liberdade e democracia.
É neste quadro que se consegue perceber um pouco do que se passa do Egipto de hoje. Com certeza que muitos egípcios não se identificam com as horríveis lutas entre o Exército, hoje em dia controlado pelas potências ocidentais, e os Irmãos Muçulmanos, que estão cada vez mais sob a influência salafita, e sabem que a separação entre a política e a religião é um pilar fundamental da civilização e da democracia.

