DA NORMALIDADE À PATOLOGIA – por Joana Domingues

Imagem4O verdadeiro indíviduo  “saúdavel “ não é simplesmente alguém que se declara como tal, nem sobretudo um doente que se ignore, mas um sujeito que conserva em si tantas fixações conflituais quanto as outras pessoas….e reservando-se o direito de se comportar de forma aparentemente aberrante em situações excecionalmente “anormais”. Jean Bergeret (1996)*

Certo é que se torna impossível  avaliar a noção de normalidade sem um termo de comparação “apropriado”. Afinal, o que é ser normal? A dialética normalidade-patologia parece muitas vezes caminhar de mãos dadas . No domínio da psicopatologia existem diversos estudos que se debruçam sobre a “ordem” e a “desordem”, outros porém falam de excesso ou  carência em relação ao estado normal.

Ao observarmos em nosso redor frequentemente encontramos alguém que parece “brincar às pessoas normais” tudo isto porque fazemos uma comparação ainda que na sua condição infelizmente limitante entre o que é normal e o que pode ser patológico. Já que a mesma, pode encerrar uma condição de infelicidade no caso da não pertença à maioria “aos ditos normais”.

A tendência à imitação para ser ou vir a ser normal é visível no caso das crianças que se identificam com “os outros”, que esconde a designação de “os grandes”. Por sua vez, uma personalidade ansiosa tem por objetivo imitá-los na integra.

 Aparentemente, poderiamos chegar a uma conclusão oferecida pelo senso comum, respeito à noção de normalidade, a de que alguém se encontra num estado normal quando organiza os seus problemas, angustias, dilemas pessoais mais profundos, quando se adapta a si e aos outros, sem tocar o extremo narcisista ou por sua vez ser rejeitado pelos outros.

 A normalidade versa por isso numa “adaptação” económica da estrutura interna do indivíduo às infinidades do meio. Por essa mesma relação de interdependência estrutura interna e meio, encontra-se amplamente comprovado que uma personalidade carateristicamente “normal” pode derivar a qualquer momento da sua existência em patologia mental. R. Diatkine (1967) vai de encontro a esta mesma ideia quando defende que o adulto não tem uma estrutura dita “normal” qualquer situação nova poderá afetar o equilíbrio psíquico como tal, é na criança que o autor estuda as dificuldades que podem levar a exprimir este sofrimento segundo idades e fases de maturação diversas.

Na problematização do ser normal ou patológico, a observação clínica desempenha um importante papel na diminuição do sofrimento mental atenuando os comportamentos que se desviam da “media” da “maioria” dos “outros” ,o que por si só não deixa de considerar mantidos nos limites do “normal” alguns estados considerados por outros “patológicos”, já que estes estados podem constituir na vida do sujeito uma “normatividade”.

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*Jean Bergeret- Psicanalista e autor na área da psicopatologia e psicanálise, com a famosa distinção “ A personalidade normal e patólogica”.

BERGERET, Jean (1996) La personnalité normale et pathologique, Dunod, Paris.

                                                                                                                                 Joana Domingues

Tags- Psicologia, personalidade.

1 Comment

  1. Olá, Joana! Para além do que assinalou, queria só deixar o alerta para a questão cultural e social. Um indivíduo que na nossa sociedade seria considerado esquizofrénico, noutra poderá ser um xamã considerado pelo grupo em que se integra. Isso nos mostrou Devereux ao analisar o modelo xamânico, dando-nos um bom exemplo de adaptação do material cultural ás próprias exigências de cada indivíduo, de maneira a poder utilizá-lo enquanto sintomas, provando assim que qualquer adaptação que utiliza o material cultural aos seus fins neuróticos é uma manifestação patológica e que este modelo é uma defesa que oferece a sociedade ao indivíduo para combater as suas tensões interiores.

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