João Vicente Biqueira. Obra selecta (poesia e ensaio) – por Carlos Durão

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Coordenação de Pedro Godinho

 João Vicente Biqueira. Obra selecta (poesia e ensaio)   (edição ao cuidado de António Gil Hernández, Cadernos do Povo, Revista Internacional da Lusofonia, Ponte Vedra-Braga, nºs 43-45, 1998)

 Esta edição definitiva do pensador galego J. V. Biqueira, organizada pelo professor Gil Hernández, apresenta-nos a obra fundamental deste vulto chave das Irmandades da Fala da Galiza, unificando-a conforme a grafia do Acordo Ortográfico de 1990, a começar pelo próprio nome do pensador, por entender-se que assim se satisfaz a sua proposta de integrar o idioma galego na Lusofonia (fique claro, contudo, que ele assinava Johán V. Viqueira).

 Alguns dos textos constituíram o primeiro caderno, Johán V. Viqueira. Uma utopia verificável, do volume primeiro (Fizeram utopia…, da série Divulgação) dos Cadernos do Instituto de Estudos Luso-Galaicos Ricardo Carvalho Calero-Manuel Rodrigues Lapa, da Associação de Amizade Galiza-Portugal.

 A extensa obra (212 páginas) abre-se com um Parlamento inicial do dramaturgo Jenaro Marinhas del Valhe, no que este valente lutador, derradeiro sobrevivente das Irmandades da Fala históricas, nos lembra que “… nenhum povo deve considerar-se fração de um Estado; antes, é um pedaço do mundo.”

 A biografia apresenta-no-la José Luís Fontenla, Presidente das hodiernas Irmandades da Fala da Galiza e Portugal. Vemos, brevemente, como Biqueira foi aluno da Institución Libre de Enseñanza; como estudou em Madrid com Giner de los Ríos e Cossío; em Paris com Bergson; e em Berlim com Simmel e Cassirer, mercê duma bolsa da Junta para la Ampliación de Estudios; como se doutorou em Filosofia pela Universidade de Madrid e exerceu a docência no Instituto Eusébio da Guarda, da Corunha. Colaborou com Ângelo Casal, Vítor Casas, os irmãos Vilar Ponte, Lugris Freire, Penha Novo, Alfredo Somoça, entre outros. Sempre atento à cultura do país irmão, era bom conhecedor da obra e pensamento de Teixeira de Pascoaes, de Lopes Vieira e de Leonardo Coimbra (de cujo espírito filosófico se considerava perto). Presidiu à associação operária corunhesa Antorcha Galaica del Libre Pensamiento. Publicou obra galega e castelhana (a título de exemplo: Ensaios e Poesias, Elementos de Ética e Historia de la Filosofía); colaborou no semanário A Nossa Terra (primeira época); traduziu Natorp, Berkeley, Hume.

 Foi, em resumo, um filósofo vitalista e positivista, teórico da pedagogia (na que naturalmente incluía a educação da mulher) e da psicologia, pensador político, nacionalista integrador, socialista utópico e humanista integral. Propugnou com todas as suas forças a unificação ortográfica, a ortografia histórica, para reintegrar o idioma galego no espaço lusófono que lhe corresponde, pelo que o podemos considerar como um notável precursor do moderno reintegracionismo. E foi Presidente das Irmandades da Fala da Corunha.

 O volume contém a sua obra poética, inclusive as traduções (p. ex. de Goethe), colaborações em ANT, divagações “enxebristas”, a conferência “Os nossos problemas educativos”, artigos póstumos e vários, versões dos seus textos castelhanos (entre eles um ensaio sobre a filosofia de Unamuno). Fecha-se com uma pormenorizada e utilíssima Tabela de nomes e conceitos, que amiúde se acha em falta em publicações deste tipo.

 E isto leva-nos à autoria desta Tabela e de toda a organização, aparato crítico e apresentação geral do disperso material, ingente e paciente trabalho que nos brinda com a sua habitual erudição o professor Gil Hernández, como tantas vezes tem feito nos âmbitos mais conflituosos da sociolinguística galega. Graças a todo este trabalho, é mais fácil para os leitores de hoje entrar no universo biqueirano e apreciar o que o seu alento generoso significa para as nossas gerações neste começo de século e milénio, e com o conflito linguístico galego ainda sem resolver.

 Foi Biqueira um idealista? Eis as suas palavras: “o facto de o ideal existir… o facto de sermos capazes… de realizarmos o ideal”, “sustentar que a vida vale, que a existência não é um caos doloroso e louco, é justamente sustentar o valor do ideal”, “o ideal nasce porque a natureza da nossa alma o faz nascer”; “O outro idealismo admite decerto a ideia; por isso quer ele que encha a realidade de maneira que nela brilhe e fulgure. Este idealismo deve ser o nosso porque é o fecundo!”.

 Foca assim a questão da nacionalidade: “A Humanidade desfaz-se em Nações, porque precisa órgãos. Portanto, as Nações são órgãos da Humanidade”. E entende que não devem impor a sua língua: ensinar na escola galega em castelhano “é o mesmo que em Castela ensinar em português ou em catalão”.

 Sobre a separação de Galiza e Portugal declara: “… o Minho une-nos e não nos separa… nele se misturam águas portuguesas e galegas…”. Por isso rejeita uma ortografia fonética: “… isolar-se é morrer! Nenhuma língua se escreve foneticamente. O galego, não sendo uma língua irmã do português, mas um português, uma forma de português (como o andaluz do castelhano), tem-se de escrever em consequência como português. Viver no seu seio é viver no mundo, é viver sendo nós próprios”. “Em resumo: a ortografia fonética é a morte da nossa língua; a ortografia etimológica é a sua vida…”.

 E não é opinião passageira sua, mas fundamental, sobre a que volta continuamente: “Insisto muito na ortografia porque terá, unida à purificação da língua, uma virtude mágica: fará da nossa fala camponesa, isolada e pobre, uma língua universal, de valor internacional e instrumento de cultura”.

 Afinal, ficamos com a sua exortação: “Que fazermos? Acordemos, cultivemos em nós a força, a capacidade de criação, a audácia, a vertigem do futuro, a sede da distância, o inebriamento do ideal”.

 Ideal ao que ele dedicou a vida inteira.

Carlos Durão, Londres, agosto, 2013

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