POESIA AO AMANHECER – 271 – por Manuel Simões

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EDUARDO GUERRA CARNEIRO

( 1942 – 2004 )

ALGUMAS PALAVRAS /fragmento)

Algumas palavras são mais que o som.

Soltam-se delas lâmpadas, por vezes gritos.

Palavras que demoram na boca

com o sabor da manhã de Outubro, o claro gosto

da terra húmida, castanha até doer.

E há noites em que se ouve, além das horas,

um chamar por nós, um apelo

comovido. Podemos afirmar: são irmãos,

são mães, são companheiras. Mas é outra a face

revelada. Todo um ruído quente

quase desanimado. Um ténue vento

queimando-se nos vidros. Posso dizer:

em noite assim alguns morrem, muito antes

de saberem o nome e a voz. De quem

esse clamor? Saber que na antiga casa

as portas se abriram, um ou outro quarto

vai iluminar-se e começa o dia!

(de “Algumas Palavras”)

Poeta e jornalista. Obra poética: “O Perfil da Estátua” (1961), “Corpo Terra” (1966), “Algumas Palavras” (1969), “Isto anda tudo ligado” (1970), “É assim que se faz a História” (1973), “Como quem não quer a coisa” (1978), “Dama de Copas” (1981), “Contra a Corrente” (1988), “Profissão de Fé” (1990), “Lixo” (1993), “A Noiva das Astúrias” (2001).

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