MÁRIO DE OLIVEIRA: “CANONIZAR UM SER HUMANO NÃO PODE TER PERDÃO”

(Conclusão)

O Santuário da Resposta (IURD) é a solução para todos os nossos problemas? (Título da capa do Jornal da IURD)Imagem2

Você disse IURD? E não vomitou, ao dizer esta sigla?! O que quer que lhe diga, se todo esse pequeno-grande monstro só me faz vomitar? Aceita os meus vómitos como resposta? Nada mais perverso, dentro do perverso que é o Poder vencedor, que a IURD é. Mas a IURD é apenas um dos mais recentes ramos visíveis da máfia Poder. E por aqui me fico. Quem quiser entender que entenda!

O diabo é cego, surdo e mudo?

O que se costuma dizer não é essa afirmação, mas outra muito parecida e totalmente diferente: Que o diabo seja cego, surdo e mudo! Vale como uma categórica afirmação, por parte de quem a faz sua, de que é alguém acima de toda a suspeita, que não está metido em nada dessas sujeiras que é suposto o diabo fazer. O diabo é um mito. Como tal, inofensivo. Mas, tal como o Cristo, quando adquire rosto e nome em alguém que aceita entrar no universo do Poder, é um desastre e causa de sucessivos desastres. O hoje português e europeu – 2013 – é suficientemente revelador, neste particular. Os que institucionalmente mais se nos apresentam e são apresentados como acima de toda a suspeita, são, na realidade, os mais sujos, os mais corruptos, os mais cúmplices, os mais monstros. Porque, sob aquelas vestes brancas e aquelas mãos limpas, anda muito sangue derramado. E é esse sangue que todos eles bebem, nas suas liturgias sacras e laicas.

O diabo às vezes tece-as?

Bem, depois da sua obsessão de Deus, vem-me agora com a do diabo. Mas olhe que dizer diabo e dizer deus é a mesma coisa. Um e outro escondem-nos a realidade mais real que são as vítimas humanas, hoje, mais de dois terços da humanidade, fabricadas pelo Poder, com todos os seus exércitos de agentes históricos, armados uns, de colarinho branco, outros, mas assassinos e algozes, todos. Nos governos e nos parlamentos das nações. Nos quartéis e nas grandes multinacionais. Nos templos e santuários.

Onde e quando se encontra o diabo a quatro?

O diabo Poder, como o Deus Poder, está em toda a parte. E lá, onde está, está sempre a quatro. Mesmo e sobretudo, quando veste de papa sorridente, de cardeal, de cónego, de bispo residencial-empresário, de pároco-funcionário do religioso, de senhora de Fátima. Ou de Obama, de Merckel, de Paulo Portas, de Passos Coelho, de Aníbal-chefe-de-estado. Ou de Amorim, de Belmiro de Azevedo, de patrão do Pingo Doce, ou de uma qualquer SAD do futebol dos milhões. Ou de offshores na Madeira ou em qualquer outra parte do planeta. Numa palavra, lá onde estiver o Dinheiro, como único senhor!

Afinal, o que é que acontece enquanto o diabo esfrega um olho?

Olhe, milhões e milhões de pessoas, no mundo, ficam sem trabalho, sem casa, sem família, sem afectos, sem hoje, sem amanhã. E milhões e milhões de crianças ficam por nascer, porque neste tipo de mundo dirigido/dominado pelo Dinheiro, já nem há lugar para se nascer! Basta o senhor Dinheiro dar um espirro, e as Grécias todas do mundo ficam a ver navios. De bolsos vazios.

A última e mais transcendente das perguntas: admite ou já admitiu um dia vir a ser canonizado por esta Igreja?

Canonizado, eu? Nem por esta igreja, nem por nenhuma. Só são canonizados os que desistiram de seres humanos e aceitaram ser agentes activos e lacaios do Poder, místicas, místicos de olhos fechados, gurus/guias de populações impedidas de crescer de dentro para fora, até serem sujeitas dos seus próprios destinos. Um ser humano orgânico com as populações mais ostracizadas e mais cuspidas pelos poderosos, sororal e maiêutico, numa relação vasos comunicantes com todas e todos, nunca será canonizado por nenhuma igreja. A menos que alguma delas decida matar-lhe definitivamente a alma/identidade, ao transformá-lo, depois da sua morte, num ídolo de altar. Nunca eu poderia perdoar a alguma igreja religiosa ou laica que me fizesse essa malfeitoria. Todos os crimes e pecados podem ser perdoados. Mas esse de canonizar um ser humano, não pode ter perdão.

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[1] Nota do entrevistado: o verbo SORORIZAR, feminino de FRATERNIZAR, acho que não existia antes. Ou, se existia, nunca era conjugado. A língua portuguesa é demasiado patriarcal. Tive de o criar, ou, pelo menos, insistir na sua utilização para não ficarmos reduzidos ao verbo fraternizar. Assim, irmã/irmão, sororal/fraternal/ sororizar/fraternizar. Nenhuma discriminação de género, também na linguagem com que nos (des)entendemos.

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