SAÍDA DO EURO – A MINHA RESPOSTA. Por JÚLIO MARQUES MOTA

O argonauta Júlio Marques Mota responde à pergunta que ele próprio formulou

À pergunta formulada

Eis pois a questão que levanto aqui e agora,  uma vez que Portugal se recusa viver em autarcia como um país pequeno que é,   uma vez que a saída da zona euro unilateral é também ela inaceitável, uma vez que a saída apoiada pela UE é , por seu lado, impraticável, e tendo ainda em conta o conjunto,  caracterizado pela ignorância, ganância e maldade,  destes que nos governam,  seja  a nível regional seja  a nível nacional, então o que fazer para não se morrer, mesmo que lentamente (!)  com estas políticas que estão e estão mesmo para durar e  talvez mais de dez anos, de acordo com as declarações de Jens Weidmann ao Wall Street Journal

eis a minha resposta

A minha resposta à pergunta feita no blog sobre o permanecer ou sair do euro

PARTE IX
(CONCLUSÃO)

Gráficos XXXIII e XXXIV: Crescimento das importações alemãs por zona (lado esquerdo) e crescimento das exportações alemãs por zona (lado direito)

 júlio - XXXI

A mesma realidade captada de um outro ângulo, onde se mostra a importância crescente do hinterland alemão, onde se mostra a perda relativa da China nas importações alemãs, enquanto a China vai ficando excedentária contra todos os países da zona euro. Por outro lado esta realidade está a indiciar claramente que as modificações impostas na dinâmica europeia, pós-crise, estão a transformar a Europa numa paisagem industrial face à Alemanha, por um lado, e, por outro, estão a transformá-la no espaço de fornecimento de produtos intermediários para a potência firmada no espaço europeu, a Alemanha, e se possível aos custos asiáticos, daí que as desvalorizações internas impostas aos Estados-membros da zona euro correspondem a esse  mesmo objectivo. Veja-se a perda relativa da China nas importações alemãs entre 2000 e 2007 quando confrontadas com o peso relativo entre 2007 e 2013, acontecendo o inverso com África, fornecedor privilegiado de matérias-primas que nessa qualidade aumenta de importância. Pelo lado das exportações, a posição com a China assinala os efeitos da crise, mas pouco mais. Nenhuma dúvida se tem perante a afirmação de que o reforço da Alemanha como potência industrial na Europa e no Mundo é apoiada na desindustrialização dos restantes países da Europa com o referido detalhe que as zonas de salários mais baixos tendem a ser as zonas de sub-contratação da Alemanha. E mais uma vez a política europeia e da Troika a servir-lhe de alavanca. Pelo meio de tudo isto temos pois o peso crescente da China no comércio com a zona euro e diremos então que os países do Sul no contexto da actual integração e da actual globalização são batidos no comércio externo em produtos de alto valor acrescentado pelos países do Norte e quanto aos produtos de baixo e médio valor acrescentado são batidos pela tomada de posição dos países emergentes no comércio internacional. Daí a nossa questão de vender o quê, dada nossa fragilidade de tecido produtivo, vender a quem dado o actual quadro recessivo do centro europeu, e vender contra quem, dada a luta entre cada país da periferia face aos países com poder de compra e em recessão, luta essa desencadeada contra os países de Leste e contra os países emergentes, na mais desenfreada concorrência desencadeada à escala planetária de que há memória e num quadro em todas as grandes Organizações Internacionais submetidas aos ventos do neoliberalismo se demitiram de todas as funções para que foram inicialmente criadas. A consequência desta realidade é imediata no que se refere à permanência ou saída de um pequeno país da zona euro. A saída da crise exige que se criem condições efectivas para que haja crescimento económico. Ora, neste contexto uma política expansionista conduzida por um só país levaria apenas a aumento das suas importações e chamamos a atenção para o que ocorreu em França com François Miterrand em que a política expansionista conduzida pelo governo francês de então fazia crescer, isso sim, a economia alemã, via as importações com origem neste último país. Portanto não é pensável que a Inglaterra sozinha, como o não foi a França sozinha (no início dos anos de 1980), mesmo abandonando o modelo neoliberal e dinamizando então a procura interna seja capaz de sair da crise, pela simples razão que como economia aberta está rodeada de países que praticam uma forte política recessiva e então o crescimento num só país, no actual contexto da globalização sob a égide da OMC, é uma pura miragem que não queremos assumir. Imagine-se então um pequeno país, como Portugal, completamente endividado, com uma aparelho produtivo completamente desarticulado pela globalização, a querer sair da crise pelo crescimento e sozinho, quando se dispõe das piores características que caracterizam a Inglaterra de agora, não dispondo de nenhuma das suas especiais vantagens, no contexto actual,  e reunido também as piores características da França de então, com o todo agravado pela recessão brutal que na altura não existia e agravado ainda pela mundialização de agora, porque na altura a OMC não existia ainda com a sua bandeira: a livre-troca a todo o custo.!

Por estas razões, as tentativas de construção de um New Deal ou até mesmo de um plano Marshall a nível europeu são bem-vindas, como são bem-vindas todas as tentativas de dinamizar a realização de um Novo Bretton Woods. Só assim se poderá sair da crise e estamos a falar dos patamares mínimos para organizar essa saída da crise que nos está a levar claramente ao abismo.

Mas uma certeza porém nos fica de tudo isto. Se nem estes mínimos passos forem possíveis, a História determinará então as suas próprias vias de saída. Os exemplos, esses, mesmo que trágicos, abundam. Sabemos porém que, isoladamente, a saída de um qualquer pequeno país da zona euro estará condenada ao fracasso, no contexto da actual liderança política da zona euro, e a situação inglesa mostra-o claramente, quando mesmo assim, goza de várias vantagens relativamente aos países do Sul da Europa. Para complicar ainda mais este quadro, no contexto da actual globalização temos as Instituições Internacionais a defenderam o modelo neoliberal que tem sido aplicado e por aí o resultado poderá ser ainda bem pior. Morre-se de forma rápida ou lenta, mas morre-se. Mas um país não pode morrer, também o sabemos. E então qual a saída?  Em primeiro lugar tomar posições firmes nos locais europeus onde se tomam as decisões relevantes para a Europa  e dar publicamente conhecimento das posições politicamente assumidas contra o actual caminho das coisas. A saída começará imediatamente por aqui e a saída na minha opinião exigirá portanto um intenso combate político, ao nível nacional e internacional, e no plano nacional desencadear-se-á nas urnas e nas ruas, demitindo todos aqueles que podem claramente, por ignorância ou maldade, serem acusados de crimes conta a História e contra a Humanidade e a partir daí recomeçar a reconstruir a Europa. Se todos nós formos lentos neste combate político e não o ganharmos a tempo, a História se encarregará de fazer com que o ganhemos, com a saída de um mais dos grandes países, como a França, ou a Espanha ou a Itália. Aqui os mecanismos de repressão contra a nossa saída não se verificarem, protegidos que ficaríamos pelo guarda-chuva que é a saída de um grande país da zona euro. Com a saída de um ou mais países é toda a construção europeia que cai a seguir e nesse sentido só nos cabe igualmente agarrar o sentido da História e então sair do euro, em liberdade e sem medo de represálias. Nunca sozinho, portanto. A hipótese de dissolução violenta da zona euro é a menos agradável das hipóteses mas é, certamente, a que tem lamentavelmente mais probabilidades de se realizar. Muitas vezes se escreve direito por linhas muito tortas, sabemo-lo todos. De igual opinião parece-nos estar o relator Olivier Passet, director de Xerfi-Synthèse, quando afirma:

Do ponto de vista político e social, o desafio dos parceiros europeus para com a Alemanha é o de exigir que se reequilibrem as suas relações com a Alemanha mas salvaguardando a integridade produtiva de cada um dos parceiros. Se os mecanismos de protecção e de garantia deste nobre objectivo não forem desencadeados a partir do Conselho Europeu, ele será inevitavelmente imposto pela base e, aqui, corre-se o risco da própria sobrevivência do euro. Do ponto de vista económico, a contra-ofensiva veio dos Estados Unidos e do Japão no campo das taxas de câmbio, o que significa que a concorrência global vai-se tornar ainda mais intensiva, mais violenta mesmo. A expansão “mercantilista” para fora dos muros da Alemanha talvez nem sempre esta será de grandeza suficiente para compensar as suas perdas de oportunidades no espaço nacional e no espaço da zona euro que se irão verificar com o deslocar da Alemanha do centro de gravidade para Leste e até à nova Ásia.

Parafraseando Voltaire, para quem “a nossa credulidade faz toda a ciência deles” poderíamos aqui dizer que a ingenuidade dos povos europeus faz todo o poder daqueles que a Europa estão a destruir, ou seja, de uma outra forma, a força dos neoliberais depende apenas do desconhecimento que tenhamos da nossa própria força. É pois o combate sem tréguas que contra esse desconhecimento aqui vos proponho.

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Para a parte VIII da resposta de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/08/22/saida-do-euro-a-minha-resposta-por-julio-marques-mota-8/

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