A morte de Ana Rita Pereira enlutou o nosso país. Perecer assim uma jovem cria-nos um vazio terrível, até porque sentimos mais um golpe na nossa juventude tão causticada. E a Ana Rita é já o terceiro elemento de uma corporação de bombeiros a morrer por causa do fogo, este ano. Há vários feridos graves. Este ano os incêndios estão a atacar com ainda mais força que nos anteriores. Entretanto há dezenas de indivíduos detidos, sob a acusação de fogo posto. Terrível questão: porque razão um ser humano decide largar fogo a uma floresta, um bosque ou mato rasteiro? Por loucura? Se se tratasse só de um caso ou outro por ano, ainda se conseguiria acreditar. Agora dezenas de casos, quiçá centenas? Não se pode deixar de levantar a dúvida de haver fogos postos que são planeados. E que os detidos são meros agentes de intenções ainda mais obscuras. Mas quais serão? A Polícia Judiciária, todas as polícias têm-se movimentado. Mas todos sabemos que se debatem com grande escassez de meios. E para além de carências em meios, precisam de ser fortemente respaldadas para conseguirem enfrentar com êxito certos interesses.
Vários responsáveis se têm manifestado no sentido de serem reforçados os meios à disposição dos bombeiros. Há mesmo quem fale na necessidade de uma nova política para a floresta. Mas é necessário ir mais longe. A primeira coisa a medir é o impacto das opções políticas ao longo dos anos sobre o que se chama a floresta. Será que Portugal deverá investir tanto na floresta? Em vastas zonas com certo tipo de árvores, com a ideia, mais clara ou mais vaga, que dali vai um dia tirar proveito? Portugal já tem o sobreiro, será que poderá ter outras árvores? São questões que devem ser debatidas por especialistas, em primeiro lugar, sem dúvida. Mas das questões, dos debates e dos seus resultados, devem ter conhecimento todos os portugueses, por razões que estão bem à vista.
Outra questão: entre as sucessivas vagas de incêndios e a desertificação não existirá uma relação próxima, para não dizer que, em bastantes casos, existe mesmo uma relação directa? A desertificação do interior, um fenómeno já com dezenas de anos, pelo menos, tem-se acentuado nos últimos anos. A pseudo-reforma administrativa de Passos/Portas, que consistiu apenas em reduzir o número de freguesias de modo perfeitamente aleatório veio agravar ainda mais o problema. Em muitos locais do país, a freguesia é o único ponto de referência a que se pode recorrer, pelas mais diversas questões. A sua extinção, feita em muitos casos baseada apenas em critérios estatísticos, manifestamente insuficientes, vai agravar ainda mais o isolamento das populações. A manutenção das zonas florestais, dos ecossistemas, ou de outras formações a estas equiparáveis, assenta muito na relação que com elas têm as populações. O envelhecimento das pessoas residentes, a emigração em grande escala, põem em causa essa relação. O número de incêndios em muitas zonas aumenta com o avanço do abandono a que estão sujeitas. São questões que é preciso não esquecer.
Mas o incêndio, o incêndio a que estamos sujeitos, lavra por todo o lado. Na ilha da Madeira, que dizem que também é Portugal, e nós assim o achamos, houve um incêndio enorme. Com muitos problemas. Entretanto, pessoa amiga chamou-nos a atenção para a notícia que segue, e que farão o favor de ler com toda a vossa atenção:
Todos nós, portugueses, todas as pessoas de bem deste mundo, temos (têm) o direito de exigir um rigoroso inquérito ao que se passou. A tudo o que se passou. Se for verdade que deixaram deliberadamente para trás os toxicodependentes, os responsáveis deverão severamente castigados. Nunca mais exercerem funções directivas, entre outras penas. Não podemos estar à mercê de pessoas que tenham cometido tal acto. Poderá haver inexactidões ou insuficiências na informação transmitida. Mas então que isso fique claro. O jornal fez o seu dever: informou. Com certeza que rectificará com prazer algum erro cometido.

