Tribulações de uma lisboeta
(Ou a arte de apanhar pulgas)
Cidade leprosa enfeitada de seda
Sete colinas com plásticos
Cacos de porcelana
Restos de pimenta
E muito encanto
Lisboa das avenidas esburacadas
Das tampas desniveladas
Dos passeios gordurosos
Dos ratos dos pombos das baratas
Ai, Lisboa, quem pudesse
Lavar-te
Rebocar-te
Amar-te.
Do ponto de vista da higiene nas ruas, Lisboa é uma cidade do terceiro mundo. Na paragem do 28 já os turistas o veem e nós, os moradores, cada dia o lamentamos. Conhecem outra capital onde espaços tão turísticos como a Rua Augusta acumulem papéis e plásticos pelo chão? O vento faz voar os guardanapos nas mesas das esplanadas e, com milhares de pessoas a passar cada dia, que sempre deixam cair isto ou aquilo – resulta uma lixeira. Deveria portanto haver ali em permanência uma equipa de varredores. Entenda-se: a trabalhar.
Durante anos o da minha rua passava – talvez ainda passe – os dias na tasca da Rua de Liverpool. Aparecia contudo às vezes outro e um dia, caso único, não repetido, vi este segundo varredor… a varrer. Deixara para trás um enorme excremento de cão.
– Não reparei… Eu volto lá!
Quando regressei a casa, quatro horas mais tarde, o excremento jazia intocado. E ali se manteve – já pisado – até à biodegradação.
Escrevi no site “A minha rua” uma comprida queixa, foi-me respondido que as ruas todos os dias são varridas: a língua-de-pau municipal. (Este site é pura comunicação, só produz linguagem.) Ora a minha não o é todos os meses, verifico-o pelo tempo que uma seringa ou uma cabeça de galinha, facilmente identificáveis, perduram na via pública: até uma chuvada as arrastar. Mais tarde dirigi-me à câmara, no Campo Grande, para teimar que a rua continuava a não ser varrida.
– E é só a sua?…
Inquiriu a funcionária que, pelos vistos, mora na província, nunca viu a capital e não percebia o problema.
Eu, quando vou à Baixa, em vez de descer a Almirante Reis, poluída e barulhenta, costumo ir pela do Benformoso, mais fresca e silenciosa, porém com prostituição numa parte, tráfico de droga na outra e, por toda ela, drogados e sem abrigo. (Temos não só o direito mas também o dever de passar nestas ruas.) O lixo atinge ali excessos como só vi na Índia em Udaipur – os homens que recolhiam o lixo estavam então em greve. Resulta disto que em Lisboa eu já trouxe pulgas e até um percevejo agarrado às canelas, deixei portanto de vestir saias quando desço à Baixa, ao chegar a casa tiro a roupa, verifico se há qualquer parasita, antes do necessário duche. O meu terror, para além das doenças, é introduzir pulgas que infestem o soalho. Ou percevejos. Ou baratas: nunca poiso um saco no passeio.
Contei estas desventuras a um amigo, não só conhecedor de plantas e animais, mas também inventor de estratégias.
– O método mais eficaz é a fita-cola.
– A fita-cola?!
– Convém teres um rolo e uma tesoura a jeito na casa de banho. E seres previdente, instalares o material perto da cama pois, mais cedo ou mais tarde, acabarás por levar alguma pulga, sem dares por isso, para lá… Na cama é simples, quando a vires, colocas um lençol por cima do outro, assim ela salta sem se escapar, entretanto cortas várias tiras de fita, não demasiado compridas, dez, quinze centímetros, que poisas por uma ponta num sítio qualquer e, quando situares a bicha, colas-lhe o adesivo por cima. Basta agires com calma.
Ainda não necessitei de pôr o método à prova, deixo-o porém aqui exposto, pois haverá muitos lisboetas aos quais ele pode ser útil. E entretanto… Lembremos aos serviços camarários a sua responsabilidade.
