(Continuação)
No entanto, quando nossa visão não se encontra fragmentada pela poluente sucessão de imagens da televisão, ou quando o som do mundo deixa de ser o do trânsito e dos celulares, ainda é possível reencontrar-se com a natureza, ou encontrar-se consigo mesmo diante dela.
Eis aqui um exemplo de alguém que em devaneio em frente ao mar, deixando-se possuir por um sentipensar poético, produziu versos pela primeira vez:
Meu olhar desliza longe sobre o mar
Os pensamentos fogem e voam
No eterno balanço das ondas.
Felicidade sem peso.
Então vem a queda sobre a pedra!
Quem me ensina a voar
O Tempo?
Ou ele tudo me quer roubar?
Meu olhar desliza longe sobre o mar.. 5
O longe da poesia é o universo inteiro. Pois,
O caminho mais curto
De nós mesmos
Para nós mesmos
É o Universo. 6
Como se houvesse um só poeta, Fernando Pessoa diz em seu “Acordar da Cidade de Lisboa”:
… E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Em outro “longe”, Boris Pasternak diz:
É impossível atravessar a estrada
Sem chapinhar no universo inteiro.
Marina Tsvetáieva, a grande poeta russa sacrificada pelo stalinismo, acreditava que a poesia é una em todas as suas manifestações, que não existem poetas, mas “um poeta, sempre o mesmo, do começo ao fim do mundo, uma força que se reveste com as cores dos tempos, das tribos, dos países, das línguas”7… e que renasce sem cessar. E antes dela, em seu ensaio sobre Rilke, outra russa, a que encarnou como ninguém o espírito da Belle Époque – Lou Andreas Salomé – afirmou que
…quanto mais nos afastamos da consciência clara,
mais profundo é nosso mergulho na escuridão da alma:
essa verdade é incontrolável quando escutamos o poeta
que nos habita, o poeta que existe em cada um de nós.8
Podemos dizer ainda , à luz de Lou Salomé e de Marina Tsvetáieva, que existe, de fato, em cada um de nós, mais ou menos adormecido ou sufocado pela poluição do real, um demiurgo, um poeta em cujo espelho mágico se concentram numa só figura, dançantes e capazes de cantar o mundo, os rostos de todos os poetas.
Espelho que em Borges tem um sentido ainda mais rico:
A veces en las tardes una cara
Nos mira desde el fondo de un espejo
El arte debe ser como ese espejo
Que nos revela nuestra propia cara9
Seria essa a missão do poeta – a de estabelecer e manter o contato com as profundezas do Ser, com a vida e a morte, para mostrar-nos a nossa cara, o que somos, isto é, seres de imaginação, os únicos capazes de poiésis em toda a “Criação”.
Na era da imagem e da informação instantânea, contudo, há um descaso não apenas pela poesia, mas também pela palavra escrita e pela língua culta, e uma desconfiança em relação ao experimentado e sentido, ao construído e ao “antigo”, que nos impedem de enxergar o que revela o espelho da poesia. No entanto, Adolf Loos, um dos mais revolucionários inovadores da arquitetura moderna, não hesitou em afirmar que só se deveria transformar o modo antigo de construir, por exemplo, se isso significasse um melhoramento, pois “a verdade, mesmo quando é velha de muitos séculos, tem mais relação íntima conosco do que a mentira que anda ao nosso lado”10
No tempo de indigência em que vivemos, a jovem verdade que a palavra inaugural dos poetas instaura parece mesmo ter-se refugiado “em outro mundo”. Mas o poeta não é somente o lírico, é muitas vezes quem consegue denunciar a injustiça, a guerra, o crime com mais contundência do que a própria mídia escrita e televisada. Porque o poeta não apenas nos fala, fala também em nosso nome, fala por nós.
A poesia é o terreno privilegiado do ser plural e cultural que somos. E se a palavra, como disse Heidegger, é a morada do Ser – e do homem – a morada da palavra, o lar da casa é a poesia. 11
E é o filósofo Hans Georg Gadamer quem diz:
… que a linguagem não seja apenas a casa do Ser, que seja também a casa do ser humano, o lugar que este habita, onde se instala, se encontra, no Outro, e que um dos espaços dessa casa seja o espaço da poesia, da arte, eis o que me parece sempre verdadeiro.12
1 Do aforismo número 822. Der Wille zur Macht (Vontade de Potência)
2 Tradução de José Paulo Paes, Companhia das letras, São Paulo, 1991.
3 Cf. Rilke, Rainer Maria, carta de 14 de maio de 1904 in Cartas a Um Jovem Poeta, Ed. Globo, Porto Alegre, 2a edição, 1961.
4 Cf. Bachelard, Gaston, A Poética do Devaneio, Martins Fontes, S.Paulo, 1960, p.8.
5 Poema evocado por W.B.Yeats in The Queen and the Fool, Mythologies, Macmillan Yeats, London, 1982, p.116.
5 Do original alemão, intitulado Meditation , de Christine Graser Pimentel: Mein blick gleitet weit übers Meer,/ die Gedanken fliegen davon/ im ewigen Rauschen der Wellen/Glück ohne Schwere.//Doch dann kommt der Fall auf den Stein!/ wer lehrt mich das Fliegen,/ die Zeit?/ Oder raubt sie mir alles?// Mein Blick gleitet weit übers Meer…
——————–
