NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 109 – por Manuela Degerine

Ser ou não ser

Fui educada por um avô que admirei, que continuo a admirar e, embora tenha falecido, me continua a servir de modelo: tinha sessenta anos quando eu nasci.

Todos sabemos, por os conhecermos, que tantos idosos atingem, após os sessenta, os setenta anos, o ponto máximo da sua personalidade, com mais tempo e liberdade, com mais saber e experiência, com maior capacidade para separarem o essencial do supérfluo, com valores e exemplos que fazem agora falta: são parte essencial do nosso presente. Embora o corpo comece a cansar-se, a memória por vezes falhe, as mãos tremam um pouco, compensam as dificuldades com bom senso, com uma elegância, com um sentido de humor, com uma consciência do presente que faltam aos mais novos. Nas andanças por Lisboa peço às vezes para tirar fotografias a idosos; e não raro depois me surpreende a ironia, o humor com que me fixam. O meu tio José Henriques, agora com noventa e dois anos, é um exemplo deste humor quando pergunta à médica:

– Será que consigo chegar a velho?

 Não é a mais feliz época da vida, pois há uma inevitável consciência trágica, mas muitos aceitam com sensatez, com serenidade, os limites que o corpo lhes impõe. Já não podem fazer isto ou aquilo? Podem fazer tantas outras coisas. (E nunca podemos fazer tudo.)

Por outro lado, se os rostos jovens são com frequência vazios, os idosos trazem nas rugas o mapa da vida. O prodígio da beleza, frágil e sublime – faz-me parar na rua – são as senhoras que, aos oitenta, aos noventa anos, persistem em se vestir e pentear com elegância: não renunciam à sua imagem. E esta dignidade, tão defendida, é uma homenagem ao género humano.

Jean-Pierre Mocky, um realizador francês que foi assistente de Fellini, conta como o realizador italiano o encarregava de encontrar caras. Mocky emprega a palavra “gueules” que significa trombas, carantonhas, isto é, caras que contem uma história. Jean-Pierre Mocky costuma criticar o cinema francês contemporâneo por ter falta de caras significativas. (E lembremo-nos dos rostos de Hollywood, nos quais não só as rugas foram inchadas, esticadas, mas cujos olhos, lábios, narizes, queixos seguem os mesmos modelos.)

Isto não significa que os idosos, por viverem mais anos, tenham sempre razão, sejam todos génios ou mesmo gente respeitável. O tempo não nos corrige, quando somos parvos, parvos somos, canta Georges Brassens (“Le temps ne fait rien à l’affaire, quand on est con, on est con”). É verdade. Mas, se somos inteligentes, o tempo torna-se um aliado e, aos setenta anos, bonificámos o que aos vinte já éramos –

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