DYLAN THOMAS – 5 – por Rachel Gutiérrez

(Continuação)

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No fim da guerra, chegam, com o sucesso, os convites para as tournées nos Estados Unidos. Dylan bebe cada vez mais. Caitlin, apesar de briguenta, é paciente e nem um pouco rancorosa. Mas em seu processo de autodestruição, o poeta machuca os que o cercam e tudo arrasta num turbilhão irrefreável. Muitos se perguntam: o que é que leva um homem com todo esse talento a beber assim? Fitzgibbon diz que ao contrário do homem comum que, no fim de um dia de trabalho, ao fechar a gaveta de sua mesa no escritório consegue desligar-se daquilo que muitas vezes faz sem vontade, mecanicamente, o poeta não pode deixar de ser poeta, de ver e de sentir como poeta. Sua sensibilidade é um fardo pesado, um estado de excitação quase constante, não raro capaz de conduzi-lo ao limiar da loucura. Senão, por que a loucura exerceria tanto fascínio sobre os poetas? O próprio Dylan nutria um especial respeito por Vernon Watkins porque este, na adolescência, estivera internado, com problemas mentais. Além disso, a insatisfação do artista, em permanente luta com a resistência da matéria de seus sonhos, o leva, quando descansa, a atordoar-se, a tentar anestesiar-se. E a embriaguez do álcool serve de metáfora para a outra embriaguez, a da criação.
Qualquer que seja a trajetória do artista, seu desregramento ou seu sofrimento, sua dedicação ou sacrifício – em uma palavra: sua paixão –, o que transcende e justifica tudo isso é que a obra de arte nos revela, como diz Borges, a nossa própria cara. Sim, além de encarnar o espírito do tempo, a arte nos diz quem somos, não importa se contemporâneos ou compatriotas do artista, pois ele capta, para além do espírito do tempo, e cada vez de forma nova, original, o sentido universal da condição humana. Por essa razão, nos emocionamos tanto com a tragédia grega quanto com Goethe, com Dickens ou Guimarães Rosa, com Cecília Meireles e com Dylan Thomas.
Antes da primeira viagem aos Estados Unidos, houve, em 1947, uma pequena temporada na Itália, embora Dylan acreditasse que o único lugar para um escritor “fogoso e fluente” era a Inglaterra, como escreveu, certa vez, para Lawrence Durrell.

Os mais elevados hinos ao sol são escritos no escuro…se eu fosse para o sol apenas me sentaria ao sol.7
Mesmo assim, graças aos esforços de amigos que, comandados por Margaret Taylor, – uma de suas protetoras – , lhe arranjaram uma espécie de bolsa de estudos, partiram para o país do sol. Visitaram Milão, que ele descreveu como “uma gigantesca cidade de pesadelo”, Roma, a Riviera italiana, e depois se instalaram perto de Florença, numa casa sobre uma colina. O grupo era formado por Caitlin, a irmã desta, Dylan e duas crianças saltitantes e barulhentas. O poeta trabalhou mal: em três meses, produziu apenas o longo poema “No sono campestre”.
Apesar das imagens desses versos não serem das mais complicadas, Dylan teve de explicá-las mais tarde, em Nova York. O poeta fala de um ladrão e adverte uma pessoa, ou criança, para tomar cuidado. Brincando, Dylan ora dizia que o ladrão era o ciúme, ou o álcool, a fama, o sucesso, o excesso de introspecção, ou então: qualquer coisa que lhe roube a fé ou sua razão de existir. Ele não gostava que interpretassem sua poesia, queria ser compreendido literalmente. E as críticas vinham ferozes: “ é um destrambelhado passeio por um manicômio”, disse H.G.Porteus ( crítico provavelmente esquecido hoje em dia); o poeta Stephen Spender que, segundo Ferris, mudou mais tarde de opinião, referiu-se a um “material poético sem começo nem fim, nem controle inteligente ou inteligível”. O galês era difícil até para seus pares.

That though I loved them for their faults
As m uch as for their good,
My friends were enemies on stilts
With their heads in a cunning cloud.

Pois ainda quando os amei por seus defeitos
Tanto quanto por suas qualidades,
Meus amigos eram inimigos sobre pernas de pau
Com as cabeças ocultas numa nuvem astuciosa.

Olson, que chegou a organizar um glossário com as palavras mais difíceis e recorrentes na poesia de Dylan Thomas, apontou nada menos que seis níveis de compreensão só no poema “Como um altar em meio às trevas”. O primeiro, da analogia da vida humana com o ano e suas estações; o segundo, no qual o homem e o sol são comparados; um terceiro, onde os símbolos são os da própria subjetividade do poeta; um quarto, em que Hércules encarna antigo mito grego do sol; um quinto, no qual Hércules é a constelação de Hércules; e finalmente um sexto, que seria o da roupagem cristã nesses mitos antigos. Essa estranha elucubração do crítico de Chicago vem apenas provar que, como disse Umberto Eco, a obra de arte é uma obra aberta.

O mesmo Olson observou que só uma vez em toda a sua obra poética, Dylan se permitiu experimentar o fluxo de uma narrativa delirante e fantasmagórica, como a do Bateau Ivre de Rimbaud. Foi na “Balada da isca andarilha”, onde

All the fishes were rayed in blood,
 Said the dwindling ships.

Todos os peixes estavam raiados de sangue,
 Disseram os navios em ruínas.

Poema complicado, povoado por insólitas metáforas e imagens enigmáticas, que Dylan se comprazia em explicar como a simples trajetória de um rapaz que vai pescar apenas para se divertir, em busca das selvagens alegrias de uma vida livre e despreocupada e que se dá conta, no fim, de que já tem mulher e filhos, e uma pequena casa para cuidar. Que não se esqueça o cinismo brincalhão do poeta!

Quando, em 1950, o galês chega na América, famoso, festejado, assediado por mulheres, a fonte dos sons e dos sonhos parecia quase seca. Agora é o homem da performance, do discurso, da leitura dramática, por mais que Caitlin tenha lutado para mantê-lo fiel à missão de poeta. Em Gales, na amada Laugharne, tinham finalmente uma casa – a Boat House , doada por Margaret Taylor. E quando Dylan estava terminando de celebrar a mudança, com o poema “Sobre a colina de Sir John”, chegou a oferta tentadora do Centro de Poesia , uma associação semi acadêmica de Nova York.

Foram quatro as viagens aos Estados Unidos e mais de 100 as apresentações: leituras de poemas dele e de outros, conferências, debates, recitais de prosa e de poesia. Dylan tinha muito de um ator. Percorreu todo o país e não há Universidade norte-americana hoje que não guarde, como relíquias, seus textos e gravações, num esforço de preservar o sopro, a cadência da voz e a luz das palavras do extraordinário Merlin do século XX, mago e poeta, saltimbanco trágico que soube como ninguém tocar, comover, encantar e enfeitiçar a todos que o ouviam.

Já então prisioneiro de sua persona, inchado pela bebida, prematuramente envelhecido, nos últimos três anos desta fase das viagens, apesar de ganhar muito, não há dinheiro que chegue, envolve-se com várias mulheres, mas volta sempre para Caitlin, vive o tumulto das grandes cidades e sonha com as colinas e lagos cinzentos, com o mar e com os ventos de Gales. Vive sua última vertigem de glória e exílio, de sucesso e solidão. O corpo doente, desgastado, parece incapaz de conter a exaltação do espírito, seus tormentos, sua angústia.

Os poucos poemas que escreve, como quem fecha um ciclo, retratam as paisagens da infância, raiz de onde brotaram seus melhores contos, sua melhor prosa, a do Retrato do Artista quando Jovem Cão, que ele garantia só ter afinidade com Joyce no título. De algum modo, sempre tivera medo de cortar os elos com a infância e com a adolescência em Gales. No fim, sua poesia parece brotar de uma redescoberta da inocência. A magia é reencontrada nas pinceladas rápidas de “Conto de inverno” e em “Colina das Samambaias”.

Diz Fraser que os pintores de Gales, contemporâneos de Dylan, têm o mesmo tipo de tonalidade em seus quadros. Melancolia e inocência.

(Conclui amanhã)

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