ESTRANHOS JARDINS DE PAPEL NO MUSEU DE ELECTRICIDADE por clara castilho

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Iniciou-se a 7 Junho e termina a  8 Setembro a exposição  de Maria Lusitano e Paula Roush, no Museu de Electricidade.

É uma exposição que se estranha mas que entranha. Duas salas. Uma com 3 paredes cheias de composições, muito semelhantes, que se seguem umas a outras, deixando-nos sem fôlego. A leitura do desdobrável que acompanha a exposição ajuda na sua compreensão. Mas só depois de estarmos cerca de uma hora, de pé, a assistir à projecção de dois vídeos (filmes ensaio em dupla projecção, feito de uma forma semelhante de “colagem”) que fazem parte da exposição, é que vamos percebendo e deixando entrar em nós o significado do exposto na sala ao lado. 

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Expliquemo-nos. Temos duas pintoras portuguesas, com carreira no exterior, principalmente a partir de Inglaterra. Temos a abordagem de várias obras, realizadas em três séculos sucessivos, que vão do trabalho de colagem botânica de Mary Delany, intitulado Flora Delanica (1772-1782), considerado um trabalho pioneiro da colagem em papel, à foto-colagem victoriana da segunda metade do século XIX e, finalmente, aos romances-colagem modernistas que são o fulcro da exposição: Une Semaine de Bonté (1934), realizado por Max Ernst, e Dons des Féminines (1951), da poeta surrealista Valentine Penrose. E temos exposição multimédia.

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Confuso? E como se chegou aqui? Dizem as autoras ser um projecto que aborda a história da colagem através da combinação dum trabalho de pesquisa histórica e visual com investigação artística.

 

E percorrendo estes polos temos o tema das relações homem/mulher, da moral burguesa e da sua desagregação, da visão surrealista sobre os géneros, da passagem de um discurso de dominante masculina, para um discurso de contra-poder  feminista.

Nestas “viagens”, a viagem pela história da colagem e pela deslocalização no tempo e a viagem pelo exótico como sendo um espaço de liberdade que proporciona experimentação com o género e a sexualidade, face ao ambiente doméstico burguês  visto como castrador e reclusivo. 

João Pinharanda explica melhor:

“Estabelece-se nesta exposição um colóquio, real e imaginado, entre as artistas e as suas fontes. Vejamos os seus protagonistas reais, aos quais devemos, imediatamente, juntar-nos.
Na sequência de experiências anteriores, iniciadas em 1921 e sistematizadas como romances visuais a partir de 1929, Max Ernst, alemão estabelecido em Paris, ligado desde meados da década de 10 às vanguardas que conduziram do Dada ao Surrealismo, editou em 1934 (em 7 capítulos distribuídos por 5 volumes), Une Semaine de Bonté.

Valentine Boué Penrose, poeta francesa, casada desde 1925 com Roland Penrose, de quem se divorciou em 1937, conheceu e frequentou os mesmos meios de Max Ernst, de quem o marido, “introdutor” do surrealismo na Grã-Bretanha, era amigo intímo. Em 1936, interessada pelo hinduísmo, partiu para a Índia onde viveu até 1939 com Alice Rahon Paalen, casada com outro surrealista alemão, Wolfgang Paalen. Em 1951, de novo em Inglaterra, e de novo vivendo na casa de Roland Penrose e da sua nova companheira, a fotógrafa Lee Miller, Valentine compõe Dons des Féminines. Seguindo as mesmas minuciosas soluções técnicas das colagens de Ernst, dele se afasta pelo modo como coloca a vertigem da imaginação surrealista ao serviço de uma visão feminista radical.”

 

 

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