POESIA AO AMANHECER – 281 – por Manuel Simões

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ORLANDO NEVES

( 1935 – 2005 )

O PÃO

Dir-se-ia que, secretamente, é no mais escuro

do dia, nas horas pálidas e mansas, que, como

uma coroa de paz, de tersa brancura, nos conduz

à pátria que temos no corpo ou à festa

que, na boca, tímida se oculta. Acordam, primeiro,

as grandes manhãs quietas, donde emergem

as rosas e escaldam as mãos, para despertarem,

depois, as pedras, os muros, as árvores onde

se desenha a luz e se acende o calor amante.

Vai construindo o hábito, o olhar, o desejo,

como um futuro breve, mãe e morte da casa

e do corpo. Até que além da fome, se desvanece

o sabor essencial no áspero fermento tardio

da terra ambígua, eira mineral do fogo.

(de “Decomposição – a Casa –“)

Jornalista, poeta e dramaturgo. Dicionarista, foi autor do “Dicionário de frases feitas” (1991) e co-autor do “Dicionário do palavrão e afins” (1993) e “Dicionário obsceno da língua portuguesa” (1997), entre outros. Da sua extensa obra poética, salienta-se: “Sopapo para a destruição da felicidade” (1959), “O silêncio na cidade” (1963), “Canção para o jovem país” (1963), “O Corpo e a Voz” (1973), “Regresso de Orfeu” (1989), “Ulisses e Nausica” (1990), “Decomposição – a Casa –“ (1992), “Mar de que futuro” (1993), “Loca obscura, pranto de Leonor de Sepúlveda” (1994), “Os Olhos de Alba” (1998), “Clamores” (2001).

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