*Cà Foscari – Universidade de Veneza
A evolução do ciclo do ouro, no Brasil do século XVIII, determinou um afluxo de mão-de-obra escrava nas zonas auríferas, designadamente na região de Minas Gerais, o que terá
determinado, entre outras causas, um mal-estar social que está na base de um suceder de rebeliões contra a coroa portuguesa em todo o século.
A primeira dessas revoltas terá sido a de 1720, com o acentuar da consciência independentista em relação a Portugal, dando origem aos episódios da conjuração mineira de 1789, mais conhecida como Inconfidência Mineira. A este respeito já referiu Sílvio Castro: «Os conjurados mineiros desejavam instaurar a liberdade para todos os homens, com o fim da escravidão de negros e indígenas, pela criação de um Estado que desenvolvesse a produção de riquezas no território brasileiro em benefício de toda a população» (“História da Literatura Brasileira”, vol. I, Alfa, 1999, p. 325).
Dada a sua importância como primeiro acto de um Brasil independente, a bibliografia sobre o significado histórico-político da rebelião é muito ampla. Mas o episódio, como se compreende, foi também referente de alguns textos poéticos brasileiros, dos quais se deve salientar “Romanceiro da Inconfidência” (1953), de Cecília Meireles, e “Oratório dos Inconfidentes” (1989), de Domício Proença Filho. É o primeiro texto que aqui se pretende analisar, ainda que em termos gerais, dados os limites de espaço.
Cecília Meireles (1901-1964) recupera formas dos romances ibéricos de tradição oral para, em 85 romances de vária prosódia – intercalados por “falas” e “cenários” com função contextual -, e sem pretender respeitar a isometria, repropor de maneira sugestiva a crónica romanceada da conjura de Minas e dos seus mártires Inconfidentes. Tratou-se, como se sabe, de uma frágil conjura encabeçada por um personagem pitoresco, o Tiradentes, seguido porém de alguns intelectuais, e que terminou de forma trágica: Tiradentes foi enforcado, o poeta Cláudio Manuel da Costa suicidou-se na prisão, Alvarenga Peixoto e Tomás António Gonzaga (o de “Marília de Dirceu” e que se divide entre Portugal e o Brasil) são deportados para África. Mas o impacto da conspiração reflecte-se literariamente na chamada escola “mineira”, com novos símbolos e novos significados.
O núcleo da acção processa-se em Vila Rica (que depois se chamará Ouro Preto) e por isso Cecília Meireles lhe dedica a “Fala à antiga Vila Rica” onde se recorda a denúncia anónima da conjura: «Veio uma carta de longe / – Fortes ecos tem a dor! / que os escravos já souberam, / no fundo de suas brenhas / dêsse aviso de terror» (Romance XXV). E na economia da narrativa, a Autora não equece o papel dos delatores, aos quais dedica igualmente um romance desenhando as implicações e o mecanismo perverso da delação: «Digo o que me disse o prêso, / que de outro já o tinha ouvido, / que o ouvira de outro…» (Romance XLI). E é no romance seguinte, o de um sapateiro mulato, denunciado e preso, que se introduz a voz popular independentista, pronunciada em segredo e transcrita entrre as linhas do discurso: «Estes branquinhos do Reino / nos querem tomar a terra:/ porém, mais tarde ou mais cedo, / os deitamos fora dela».
Na minuciosa exploração romancística do processo, segue-se o “romance das conversas indignadas”, isto é, das considerações do narrador sobre o sinuoso funcionamento da justiça («quando escrivães e juízes / trocam por vacas paridas, /…/ as testemunhas que servem / de fundamento às sentenças…»), no sentido de incriminar o mais desprotegido socialmente: «Êsse que todos acusam,/…/ É o Alferes Tiradentes» (Romance XLIII). E são ainda dedicados romances a outras figuras, quer se trate de protagonistas (“Romance de Cláudio Manuel da Costa”, “Romance de um prêso chamado Gonzaga”), quer de personagens de menor importância, ou ainda de figuras consideradas vítimas da conjura abortada como a de Marília (“Romance LXXIII, “da inconformada Marília” e romance LXXXV, do “testamento de Marília”).
“Romanceiro da Inconfidência” exibe a grande poesia de uma autora já consagrada anteriormente pelo lirismo participante das trovas medievalizantes de “Viagem” (1939), curiosamente dois textos que se inspiram em modelos da poesia tradicional ibérica. Mas o que no “Romanceiro” se acentua, numa linguagem originalíssima e consentânea com o tema, é a solidão do homem perante as formas de iniquidade: «Não choraremos o que houve,/…/ contra rocas de ignorância / rebenta a nossa aflição». É esta a “fala inicial” mas poderia ser a da conclusão.
