“O GATO DESCE A ESCADA” – um conto inédito de Cecília Meireles?

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Para Maria-Cecília Correia

Não tem nome nenhum. Não sabe que é gato, quadrúpede, mamífero, de pêlo preto. Não sabe que está num jardim, nem de que casa, em que rua, no mundo, num planeta, entre planetas, lua, sol, estrelas, nebulosas, cometas – no meio do universo.

O gato desce a escada. Solenemente. Como se soubesse tudo isso e muito mais.

O gato desce a escada. Silenciosamente. Como se não existisse.

Pedras, árvores, brisa da tarde, pingo d’água da fonte no muro, passarinhos na ponta dos telhados, nada disso o distrai.

Botânica, Zoologia,  Mineralogia, nada disso tem nome, para ele, nem conteúdo, nem separação.

O gato desce a escada.

Ninguém o chamou. Não tem família. Não tem casa. Não parece ter fome nem sede: é luzidio, nédio, grande e sereno.

Mas desce a escada.

Lá fora, pode ser ferido pela pedrada dos meninos maus. Pode ser atropelado por uma roda qualquer, dos milhares de rodas que sobem e descem pelos caminhos. Pode ser agarrado, esfolado, e virar tamborim, nas festas de Carnaval que estão preparando nos morros. E, se algum feiticeiro o avistar, pode ser cozido numa panela nova, que é a fórmula de tornar os homens invisíveis.

Humanidade, Vida, Morte, Dor, Alma, Deus, – ele caminha solitário entre as palavras e as idéias. Ele desce a escada.

Quando escurecer, seus olhos serão fosforescentes. Mas ele nunca viu seus olhos. Atrás dele vão a sua sombra e o meu pensamento. Cada qual mais precário.

O gato desce a escada.

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Nota da Coordenação – Este conto de Cecília Meireles, dedicado a Maria-Cecília Correia, chega-nos pela mão da psicóloga e argonauta Clara Castilho, filha de Maria-Cecília Correia. No post que publicamos em seguida, Clara Castilho conta-nos  que circunstâncias se estabeleceu a amizade entre as duas escritoras. Não sabemos se este conto está em algum dos volumes da vasta obra da escritora brasileira ou se, por qualquer motivo, se mantém inédito.

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