Para Maria-Cecília Correia
Não tem nome nenhum. Não sabe que é gato, quadrúpede, mamífero, de pêlo preto. Não sabe que está num jardim, nem de que casa, em que rua, no mundo, num planeta, entre planetas, lua, sol, estrelas, nebulosas, cometas – no meio do universo.
O gato desce a escada. Solenemente. Como se soubesse tudo isso e muito mais.
O gato desce a escada. Silenciosamente. Como se não existisse.
Pedras, árvores, brisa da tarde, pingo d’água da fonte no muro, passarinhos na ponta dos telhados, nada disso o distrai.
Botânica, Zoologia, Mineralogia, nada disso tem nome, para ele, nem conteúdo, nem separação.
O gato desce a escada.
Ninguém o chamou. Não tem família. Não tem casa. Não parece ter fome nem sede: é luzidio, nédio, grande e sereno.
Mas desce a escada.
Lá fora, pode ser ferido pela pedrada dos meninos maus. Pode ser atropelado por uma roda qualquer, dos milhares de rodas que sobem e descem pelos caminhos. Pode ser agarrado, esfolado, e virar tamborim, nas festas de Carnaval que estão preparando nos morros. E, se algum feiticeiro o avistar, pode ser cozido numa panela nova, que é a fórmula de tornar os homens invisíveis.
Humanidade, Vida, Morte, Dor, Alma, Deus, – ele caminha solitário entre as palavras e as idéias. Ele desce a escada.
Quando escurecer, seus olhos serão fosforescentes. Mas ele nunca viu seus olhos. Atrás dele vão a sua sombra e o meu pensamento. Cada qual mais precário.
O gato desce a escada.
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