O 7 DE SETEMBRO – por Rachel Gutiérrez

Imagem1 (3)Que é que estamos celebrando neste 7 de setembro de 2013, uma ruptura ou  um simples afastamento, o aniversário da Independência ou a festa da interdependência, do incontornável parentesco?

Quando perguntaram a Hannah Arendt qual o vínculo que a mantinha ligada à sua Alemanha natal, apesar dos horrores da II Guerra e do holocausto, a filósofa judia sem hesitar respondeu:  a língua materna, a língua mãe.

E Fernando Pessoa disse por todos nós :“a minha pátria é a língua portuguesa”. Língua mãe e língua dos nossos avós, dos nossos antepassados, dos começos, da origem.E com a língua, carregamos um temperamento, um sentimento do mundo e a maneira de expressá-lo. Há diferenças também, como há diferenças entre irmãos. Mas há muitas semelhanças.

Se compararmos dois poemas nostálgicos, um do português Fernando Pessoa e o outro, do brasileiro Manuel Bandeira, por exemplo, sentiremos o quanto a saudade de um ecoa na do outro.

Refiro-me ao Aniversário, de Álvaro de Campos e à Evocação do Recife, de Manuel Bandeira.Tem-se a impressão de que  Pessoa 0carrega a fatalidade, a tristeza do Fado, sua infinita melancolia; Bandeira, esse, carrega algo da tristeza do samba, mas com a  brejeirice das modinhas de antigamente e das cantigas infantis: “Roseira, dá-me uma rosa/ Craveiro, dá-me um botão…”.As diferenças estão nos tons, nas cores: em Bandeira, a  viagem ao passado da infância evoca uma ensolarada Recife e uma casa pitoresca e feliz, a casa do seu avô. No Aniversário de Pessoa, as cores, sem dúvida,são muito mais sombrias: há o grelado das paredes, a umidade, o frio, há ele ter- se transformado “no terem vendido a casa”.Mas a saudade é a mesma: “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto”, diz Pessoa; “Meu avô morto. Recife morto. / Recife bom. Recife brasileiro como a casa de meu avô“, diz Bandeira. E ambos lamentam a eternidade perdida: “Tudo lá parecia impregnado de eternidade.”, diz Bandeira; “Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos”, diz Pessoa.

Festejemos então a nossa pátria, a eternidade e a beleza da língua luso-brasileira.

1 Comment

  1. Felicito o Autor e faço-o, sobretudo, pela última linha do texto.
    Quem, hoje em dia, tem o atrevimento – melhor dito, a coragem – de festejar a nossa Pátria, a eternidade e a beleza da língua portuguesa em todas as suas variantes CLV

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