REVENDO A ANTIGA POLÊMICA DA INTENCIONALIDADE E/OU ACASO NO DESCOBRIMENTO DO BRASIL – por Ariel Castro

A oito anos do primeiro centenário do início da publicação da monumental História da Colonização Portuguesa doImagem1 (3) Brasil (1921, 3 vol.) – notável sob vários aspectos – é útil ainda recordar, à luz de novos fatos, a já quase esquecida questão do acaso ou da intencionalidade no descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral. Neste último caso, intencionalidade significaria “propósito secreto”, ou seja, participação do rei D. Manuel ou de Cabral (Henrique Lopes de Mendonça, História, vol. II, p. 70-71) na direção da navegação pelo Oceano Atlântico.

O esclarecimento dessa questão envolve levar em conta duas indubitáveis viagens ao Novo Mundo patrocinadas pelo rei D. Fernando, de Castela: as de Américo Vespúcio e de Vicente Yáñez Pinzón de 1499 a 1500.

Para melhor compreensão da viagem de Vespúcio apresentamos um resumo de parte de nosso livro recente, Américo, América! (Rio, 2008, 328 p.), consultável no site da Internet Ariel Castro´s Corner.

Ao contrário do que vem sendo dito pela crítica histórica, a “viagem” conjunta de Alonso de Hojeda e Américo Vespúcio à América do Sul nunca ocorreu em 1499 e Hojeda nunca teve nada a ver com o Brasil (Castro, 2008, p. 209-233). Devido a isso, as seguintes situações devem ser consideradas para a reavaliação histórica de Américo Vespúcio:

Vespúcio partiu do porto de Santa Maria, em Cádis, direto para as Canárias e, depois, para Cabo Verde, em algum dia entre 13 e 20 de maio de 1499, porém mais provavelmente, segundo sua contagem do tempo gasto até a chegada ao outro lado do mar Oceano, no dia 18, mesmo dia em que partiu Hojeda para sua viagem. Este saiu, porém, do ancoradouro ou paragem de Santa Catalina, distante de Santa Maria cerca de cinco quilômetros.

Vespúcio chegou a terras, hoje brasileiras – sendo, por isso mesmo, o primeiro europeu a pisar em seu território –  provavelmente em 27 de junho de 1499, conforme ase pode deduzir de sua Lettera.

 As embocaduras dos dois rios que Vespúcio divisou após o episódio do enchimento de inúmeros barris com a água doce do mar só se enquadram, em termos de direção das águas e de largura, em dois canais da foz do rio Amazonas: o Canal Perigoso e o Canal Sul. Banham a ilha Mexiana e foi defronte à ponta atlântica desta que Vespúcio pôde divisar ao mesmo tempo os dois largos canais, decidindo por descer no Canal Sul para explorar a ilha (pode naturalmente não tê-la interpretado como tal), ao invés do Canal Perigoso, assim ainda hoje chamado pela quantidade que apresenta de bancos de areia perigosos à navegação. Vespúcio menciona o perigo da posição em que estavam suas caravelas, o que o levou a explorar a área por apenas quatro dias (dois de ida e dois de vinda).

A apresentação desses rios, hoje chamados de canais, permite localizar o ponto inicial de desembarque, tomando-se como referência as características físicas do mesmo: mangue fechado, de impossível acesso para os tripulantes de Vespúcio. O resultado é o litoral ao sul do Cabo Norte, no Amapá. Analisando-se o tempo médio de uma navegação do tipo da de cabotagem na região, que era a que Vespúcio passou a fazer em toda a sua viagem, e comparando-o com o tempo médio de navegação desde Cádis, chega-se à conclusão de que o ponto de desembarque foi um trecho de mangue marítimo 20 km ao sul da atual pequena cidade de Sucuriju, no Estado do Amapá. Os modernos mapas do Pará e Amapá, editados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) permitem a comprovação da verossimilhança dessa fixação do ponto de desembarque.

Fazendo permanentemente Vespúcio uma navegação “de longo“, ou seja, sempre à vista de terra, em razão do objetivo da viagem de localizar o Cabo Cattigara, descia a ela ou dela mais se aproximava em intervalos regulares, o que o ocupou pelos meses de junho julho e agosto. Após 22 de agosto, tentou afastar-se do litoral pela primeira vez e, como estava, sem o saber, no cotovelo do nordeste brasileiro, foi colhido pelo encontro da corrente do Brasil com a corrente das Guianas e não conseguiu mais navegar para o sul, que era o que acreditava estar fazendo desde o inicial ponto de chegada. Mais tarde, quando fez a viagem para o rei D. Manuel, chegou à região do nordeste brasileiro onde tinha estado nessa viagem de 1499 e, ao invés de se aventurar mar adentro, como antes, retomou a navegação “de longo“, o que lhe permitiu realizar a navegação que deu origem à criação, por ele, do conceito de Novo Mundo, como novo continente ou como quarta parte da Terra.

Viajando  desde as Canárias com referência à linha equatorial e dentro de sua concepção ptolomaica e chegando finalmente a um ponto inicial de terra firme, passou a navegar sempre para o sul. Por coincidência, o litoral do Amapá, ali, tem a direção norte-sul. Essa navegação para o sul, de acordo com Ptolomeu, iria dar em Cattigara, propósito de viagem de Vespúcio. Isso se comprova com o mapa de Ptolomeu de 1482, que Vespúcio devia possuir. Como na concepção ptolomaica os ventos sopravam sempre afastando para o ocidente na parte desse mapa que correspondia ao mar desconhecido, Vespúcio julgava estar indo para o sul, pois, como todos, só entendia de latitudes, mas os ventos o afastavam sempre do ponto inicial de toda a sua navegação, a cidade de Cádis. Por isso, ao tentar medir seu afastamento em 22 de agosto, seu resultado numérico tornou-se incompreensível para os pósteros, pois vai dar em um ponto do Oceano Pacífico ao largo da costa do Equador. A realidade dele se obtém traçando-se um percurso inverso, desde o ponto inicial. Ao invés da medida de Vespúcio, considerado o afastamento progressivo desde esse ponto inicial, deve-se considerar a distância desse ponto do Estado do Amapá para sudeste. Isso permite avaliar que a medição feita por Vespúcio em 22 de agosto o foi no Estado brasileiro do Rio Grande do Norte, nas proximidades do Cabo de São Roque, alguns dias antes de se ver impedido pela corrente da Guianas de continuar seguindo para o sul.

Em consequência do exposto aqui e ao contrário do que vem sendo dito pela crítica histórica, a “viagem” conjunta de Alonso de Hojeda e Américo Vespúcio à América do Sul nunca ocorreu e Hojeda nada teve a ver em 1499 com o Brasil. Devido a isso, as seguintes situações devem ser consideradas para a reavaliação histórica de Américo Vespúcio após o quinto centenário da publicação da Lettera:

O não reconhecimento pelos reis católicos da tomada de posse, em seu nome, por Vicente Yáñez Pinzón, de terras hoje brasileiras, quando de sua viagem de 1499-1500, provam o cuidado que tinham a respeito desse assunto. Sempre, nas autorizações de viagens ao Novo Mundo, colocavam a proibição de se passar pelas terras do rei de Portugal. Dessas viagens havidas mas não sabidas, falou Gómara em parte conhecida de sua História General, cap. XXXVI.

Dentro desse contexto e em relação à viagem de Vespúcio de 1499, procurou ele disfarçar ou omitir da melhor maneira possível a passagem por terras do rei D. Manuel, pois poderiam incomodar D. Fernando não só relativamente às viagens não oficiais que ocorreram por iniciativa do monarca, mas também à violação flagrante do Tratado de Tordesilhas. O não reconhecimento pelos reis católicos da tomada de posse, em seu nome, por Vicente Yáñez Pinzón, de terras hoje brasileiras, quando de sua viagem de 1499-1500, provam o cuidado que tinham a respeito desse assunto, além do que sempre, nas autorizações de viagem, colocavam a proibição de se passar pelas terras do rei de Portugal. Dessas viagens havidas mas não sabidas, falou Gómara em parte conhecida de sua História.

O rei D. Manuel era discreto em relação às viagens que autorizava, não demonstrando nenhuma preferência maior por este ou aquele navegador. São conhecidos os casos de Vasco da Gama e do proprio Cabral. Tão logo soube da navegação de Vespúcio para D. Fernando, fez chegar a ele o desejo de vê-lo a seu serviço.

Vespúcio rapidamente se transferiu para Portugal e fez duas navegações cheias de descobertas. Ao fim da segunda, frustrado com a ausência de reconhecimento, através de atos concretos em seu benefício, por parte do rei e impressionado com o perigo que correu Juan de La Cosa, suspeito de espionagem, voltou para Castela.

A desistência de continuar em Portugal foi devida à frustração que experimentou por essa ausência de resultados pessoais que provavelmente acalentava. Quais?

Resolveu realizar uma coisa em que já pensara antes. Escrever.

Sua primeira publicação foi o Mundus Novus e a segunda As quatro  navegações. A primeira tornou-se o maior best-seller de seu tempo, criando-lhe uma fama imensa e fazendo do Brasil por ele revelado o maior mito continental dos dois séculos e meio seguintes. Tal notoriedade levou um cartógrafo alemão, Martin Waldseemüler, a propor ao mundo dar o nome do florentino a esse Novo Mundo, como América, em 1507.

Como interpretar a ação de Vespúcio nesse contexto?

Sua ambição parece, objetivamente, ter tido o mesmo resultado que chegou para Colombo antes mesmo de partir para seu empreendimento. Assim como este tornou-se vice-rei das Índias, Vespúcio, por ter feito um serviço grandioso para um soberano independente e discreto, D. Manuel I, quis ser provavelmente um vice-rei, como Colombo, vice´rei do Novo Mundo, ou seja, da América Portuguesa que se surgia graças a ele.

Por que isso não aconteceu?

Porque ele foi o executor inicial de um projeto, mas não o inspirador.

Inspirador do Novo Mundo e do emergente Brasil foi D. Manuel I, muito justamente conhecido mais tarde como O Venturoso.

Tudo isso acabou resultou em uma contrapartida de D. Fernando. Nomeou-o até a morte para o mais alto cargo de Piloto Mayor.

Assim, a antiga polêmica da intencionalidade e/ou acaso no descobrimento do Brasil se resolve em favor da intencionalidade, que não foi de Pedro Álvarez Cabral mas do rei D. Manuel I, O Venturoso.

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