CRÓNICA DE FARO Nº 4. Por JÚLIO MARQUES MOTA

Pela mão de Spartacus, de Hegel e de Marx, uma viagem ao mundo infernal da precariedade, em Faro, em Portugal, na Europa

PARTE VII
(CONTINUAÇÃO)

As principais conclusões que eu gostaria que tenham em conta a partir deste meu trabalho é a de que a economia internacional irá voltar a ser e a comportar-se, dentro de poucas décadas, de acordo com o que considero ser a normalidade de antigamente, da época de 1870 a 1910, cujas características são:

i)          A globalização na forma de integração das economias nacionais e dos mercados para além das fronteiras irá continuar, com o crescente apoio dos principais círculos do poder dos mercados emergentes;

ii)         Como a hegemonia dos EUA, que é relativamente a economia dominante, está a perder importância no quadro da multipolaridade actual, o sistema económico internacional terá menos sujeito à aplicação de regras rigorosas e estará então sujeito a uma muito maior volatilidade económica;

iii)         A erosão do poder na aplicação dos direitos de propriedade (intelectual e outros), terá efeitos significativos sobre a divisão global do trabalho, o que irá reforçar essa multipolaridade e a convergência de rendimentos;

iv)        A estabilidade de preços vai prevalecer, com oscilações mais acentuadas em torno de uma baixa inflação média impulsionada pelos choques reais (preços relativos), e situações de deflação irão ocorrer ao longo do tempo;

v)          Haverá mais do que uma moeda a ter um papel global ou de reserva de valor, e os benefícios em termos de taxas de juros de se ter uma tal moeda e com um tal papel irão diminuir;

vi)         A diversificação internacional do investimento vai aumentar, e assim será com os fluxos brutos de capitais, com as contas de capital nos principais mercados emergentes a moverem-se mais para a situação de equilíbrio se não de défice mesmo, ao contrário do que se passa agora.

Este é uma história  de como se irá processar, sob múltiplos aspectos, uma ainda maior aproximação e integração dos mercados livres, mas devo claramente expressar que estou a falar apenas de previsão, e isto não tem nada a ver nem com o estar a recomendar às pessoas nem com o poder estar a assumir ou defender uma tal evolução. Sendo esse o caso, isto levanta uma série de possíveis paralelos com o final do século XIX ao nível político e das políticas, relativamente ao protesto popular dos trabalhadores, relativamente ao estatuto dos países que coordenam as políticas e as lutas contra os actores ‘revolucionários’ e não governamentais, uma rivalidade que se deslocou e se transformou na concorrência imperial pelos mercados e pelos recursos e, claro, com o eventual limite político à integração internacional que contribuiu para a I Guerra Mundial e que Harold James chamou de “o fim da globalização.”

As políticas internas e as relações internacionais mudaram muito mais do que a economia durante um século de intervenção económica desde 1910, dadas as lições das guerras mundiais, a expansão da democracia, o desenvolvimento da dissuasão nuclear entre as grandes potências, a criação de redes de segurança social e dada a existência de Estado-providência, mesmo nos mercados emergentes, e dadas as fortes barreiras contra o imperialismo de outrora.”

Todos os meus companheiros ficaram agora como eu fiquei quando li este texto, espantados. Se não resistimos a esta força brutal do neoliberalismo, eis pois o que nos espera. E só me lembrei da canção de Diana Krall, Stop this world e dos versos:

Stop this world, let me off

There’s just too many pigs in the same trough

There’s too many buzzards sitting on the fence

Stop this world, it’s not making sense

(…)

Stop this game, deal me out I know too well what it’s all about

I know too well that it had to be

Stop this game well it’s wrecking me (…)

Os diferentes dados apresentados nesta crónica são claros, os Estados a esfumarem-se como elemento chave na regulação e na direcção das sociedades, a ficarem Estados mínimos, com volumes de empregos mínimos, eis pois a conclusão. Olho para o meu companheiro da noite e para os meus antigos alunos enquanto vamos todos caminhando pelo final de Verão e, estas ideias me percorrem a cabeça. Entretanto, lembrei-me de um pequeno acontecimento que se deu comigo, hoje. No café, ao balcão, pelas 15 horas desta tarde uma senhora come apressadamente uma sandes. Pergunta à empregada se tem telefone para chamar um táxi. Quer ir para a estação dos caminhos-de-ferro e está muito cansada. Em jejum até aquela hora, para fazer um exame médico. Respondem-lhe que não têm. A senhora fica muito aflita. Pergunto eu se têm o número do táxi. Dizem-me que sim e peço-o. Pergunto à senhora se tem telemóvel. Tenho, mas (…). Tem, mas não tem saldo, penso eu. Acertei. Não se rale, eu tenho o meu telefone. Telefono e espero que me digam o número do táxi. Depois acompanho a senhora à saída do café e aguardo o táxi. Entretanto a pergunta que justifica este texto: quanto lhe devo senhor, pela sua gentileza, pela sua chamada também? Quero-lhe pagar, senhor. E aqui a simplicidade de tudo isto, a simplicidade de uma sociedade já tão violenta que até a gentiliza já tem um preço, veio-me há memoria uma crónica do Mario Castrim do final dos anos 60, das que escrevia na penúltima página, ao fundo da página, no Diário de Lisboa. Pequenas crónicas, grandes crónicas, sempre. Na avenida Fontes Pereira de Melo alguém lhe pergunta onde é ou a Avenida Fontes Pereira de Melo ou a António Augusto de Aguiar, já não me lembro exactamente. Quer ir a um consultório. Castrim informa a pessoa e na volta da sua informação a mesma pergunta: quanto é, meu senhor. A palavra meu apenas a mais do que a expressão de agora. Cerca de 40 anos separam estes dois factos afinal bem equivalentes, a dizer-nos que bem equivalentes é a realidade que cada um deles traduz. De fascismo de então à equivalência funcional do fascismo, agora, a diferença é cada vez mais curta e se nos descuidamos dentro em breve a diferença será nula. Nula!

(continua)

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Para ler a parte VI desta crónica do argonauta Júlio Marques Mota, publicada na sexta-feira, dia 6 de Setembro, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/09/06/cronica-de-faro-no-4-por-julio-marques-mota-6/

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