SOBRE UMA GRANDE E DURADOURA AMBIÇÃO, SOBRE O PASSADO; SOBRE O FUTURO DA ÍNDIA – Por SATYAJIT DAS – I

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

 

Nota de apresentação do texto:

 

UM texto de leitura obrigatória-   Este texto que não é claramente de um homem de esquerda à Ocidental, é um terrível documento de  uma enorme  lucidez sobre o neoliberalismo de hoje,  visto através de um  país dos BRIC’s o da letra   I. Lamento apenas, mas lamento muito que ele não tenha desenvolvido  a seguinte frase:

As exportações indianas são diversificadas, tanto geograficamente como em termos dos produtos que vende. Mas, as empresas orientadas para a exportação são afectadas pelas fragilidades económicas dos seus principais parceiros comerciais. Com poucas excepções, eles não se deslocaram na cadeia de produção à escala global do valor, continuando a fornecer a nova versão economia de mão-de-obra barata. A inovação continua a ser diminuta em relação aos líderes do mercado internacional.

Lamento ainda que não tenha gasto uns parágrafos a questionar a divisão internacional do trabalho que ele até descreve muitíssimo bem. Mas descrever é uma coisa, questionar, é uma outra, e bem diferente. 

Boa leitura

JMota

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SOBRE UMA GRANDE E DURADOURA AMBIÇÃO, SOBRE O PASSADO; SOBRE O FUTURO DA ÍNDIA

Satyajit Das, Maio de 2012

Índia - I

I ª Parte – “India brilhante”

No rescaldo da crise financeira global, os optimistas esperavam que os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) poderiam ser a locomotiva económica para a economia global. Mas o crescimento económico da China caiu para um mínimo histórico nos últimos três anos. O crescimento económico do Brasil sofreu uma queda de cerca de 7,5% para menos de 3%. Já a economia da Rússia depende fortemente dos preços do petróleo e energia. A economia da Índia similarmente estagnou. Na terceira parte do nosso texto analisa-se o desenvolvimento e a trajetória futura do “I” na sigla “BRIC”. A primeira parte concentra-se-se no estudo desde o plano de fundo até ao recente crescimento da Índia.

No verão de 2011, a equipa de cricket da Índia parte para a Inglaterra, para aí disputar uma série de quatro torneios. Os indianos ocupavam o lugar nº 1 do torneio, eram então titulares da One Day International World Cup e recentes vencedores do campeonato de Cricket T20. A Índia foi, de modo estrondoso, aniquilada ao ser derrotada por 4-0. Posteriormente, no final de 2011, a história repete-se e volta a sofrer uma derrota pesada, registando-se o mesmo resultado por 4-0, desta vez derrotada pela Austrália.

Considerada pelos seus fanáticos simpatizantes como uma grande potência no críquete, a equipa indiana desiludiu novamente, registando resultados aquém do esperado, ou seja, abaixo da grandeza que lhe era exigida neste desporto. A economia indiana caminha assim a par como o seu críquete, dado que ambos parecem destinados a nunca serem capazes de estar à altura do seu potencial.

Crescimento Hindu (…).

Nos 30 anos após a independência, este país da Ásia Meridional alcançou uma modesta taxa de crescimento económico de 3-4% ao ano e o rendimento melhorava cerca de 1-2% anualmente. Esta foi a “taxa de crescimento Hindu”, um termo depreciativo cunhado pelo economista Raj Krishna para chamar a atenção para o débil resultado do crescimento na Índia, em comparação com outras economias similares asiáticas.

O fraco resultado económico da Índia não se encontra associado aos resultados de factores religiosos, mas sim, prende-se com as políticas socialistas ou mal amanhadas, ou mal assimiladas ou até mal compreendidas pelos seus dirigentes. O Primeiro-ministro da indiano, Jawaharlal Nehru, admirava a União Soviética (URSS), tornando-se um dos escassos seguidores das suas últimas políticas económicas sem sucesso.

A economia era administrada por uma Comissão Central de Planeamento, através de uma série de planos de 5 anos, modelada num processo similar do que foi utilizado no sistema soviético. As grandes empresas eram propriedade estatal e por este geridas. Às empresas privadas eram-lhes exigidas as necessárias autorizações oficiais, sendo em simultâneo as suas operações rigorosamente controladas pelo regime regulador em vez de o ser pela procura estabelecida nos mercados livres.

A economia indiana era uma economia fechada para o mundo. A política principal era a de substituição de importações e assente numa dependência de mercados internos para o desenvolvimento. A moeda da Índia (rupia) era inconvertível. Um sistema de altas tarifas e licenciamento de importações estrangeiras restringia as importações.

Esta foi a era da “Licença Raj”, uma referência às licenças elaboradas, às regulações e à estupidificante burocracia necessária exigida para se poder trabalhar no país. Para as autorizações necessárias chegava a ser necessário recorrer a 80 agências governamentais, um número impressionante para que fosse permitido às empresas privadas produzir bens e serviços na Índia.

Sob os termos de uma licença, o governo regulava todos os aspectos das operações, incluindo os níveis de produção, preços, política de investimento e de financiamento, tendo inclusive restringido as empresas de despedirem trabalhadores ou de encerrarem as suas  fábricas.

No momento da sua independência, a economia indiana caracterizava-se por ser uma economia estável, uma economia relativamente aberta com altas taxas de crescimento económico e com significativo comércio internacional  e com investimento estrangeiro significativo. Pelos anos de 1980, três décadas de uma vincada má gestão económica levaram a que a Índia tenha tido taxas de crescimento baixas e  que a sua a economia se se tenha fechado ao comércio e ao investimento, tornando-se propensa a grande instabilidade.

Desesperada Revolução (…).

Na década de 80, a Índia fez pequenos e tímidos esforços no que respeita à sua reforma. No início dos anos 90, o país encontrava-se em grandes dificuldades. Uma combinação de factores internacionais (preços elevados do petróleo), e falhas internas (problemas nas finanças públicas e turbulência política), deixaram a nação efectivamente à beira da falência. O que restava em termos de reservas cambiais apenas chegava para cobrir os pagamentos por um período de cerca de 2 semanas. O Reserve Bank of India (“RBI”), banco central do país, foi forçado a deslocar por via aérea 47 toneladas de ouro para o Banco da Inglaterra (BoE), como uma humilhante garantia para um empréstimo, enquanto esperava pela ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em 24 de Julho de 1991, Manmohan Singh, o actual primeiro-ministro e então Ministro das Finanças, disse no Parlamento indiano que, “a margem de manobra, ou o tempo para viver com dinheiro emprestado, era já pertença somente do passado.” No entanto Mr. Singh conseguiu a aprovação de um orçamento reformista, recorrendo a uma desvalorizando da rupia e abrindo a porta para o investimento estrangeiro a determinadas indústrias, tendo também reduzido as tarifas e facilitado o processo da atribuição de licenças.

Ainda na esfera discurso no Parlamento, Mr. Singh terminou-o, citando o escritor francês Victor Hugo: “nenhum poder na terra pode parar uma ideia cujo tempo de vida já chegou.” Dentro da próxima década, a ideia da Índia como uma “grande potência económica do mundo” parecia estar ao seu alcance.

(continua)

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