É-me penoso registar a humilhação de Obama em resultado da forma como enfrentou a questão da Síria. Não tenho escondido, nesta coluna, a esperança com que encarei a sua primeira eleição como presidente da hiperpotência global e a satisfação com que, apesar de tudo, recebi a sua reeleição. Quando agora afirmo que me é penoso assistir à sua humilhação é porque creio – ou quero crer? – que, contra sua própria vontade, está refém de poderosíssimos lobbies com os quais, ingenuamente, pensou poder conviver.
Na questão da Síria cruzam-se variadíssimos fatores que tornam muito difícil uma leitura com um mínimo de racionalidade. Concentremo-nos, por agora, no ataque das armas químicas. A sua utilização é, obviamente, um crime contra a humanidade. Como tantos outros, mas é-o, nesta particularidade. São, porém, inúmeras as dúvidas em aberto e, acima de todas, sobre a sua autoria. Afirmações e declarações perentórias da intelligence norte-americana são mais do que suspeitas, pelos demasiados paralelismos com a encenação fraudulenta do Iraque que justificou a funesta agressão de 2003, cujo preço o mundo e, nomeadamente os iraquianos, continuam a pagar. As hesitações de Obama na entrevista em que se proclamava pronto a atacar a Síria, foram reveladoras. Seria um ataque limitado, seria um ataque proporcionado, seria uma mera ação punitiva. Ficavam por esclarecer os objetivos e, pergunta-se o cidadão comum: ainda que estivesse provado – e não está – que o Estado Sírio era o autor, quem conferiu a Obama e aos seus acólitos, a missão punitiva? Dizem não poder levar o problema ao CS da ONU porque o anunciado veto da Rússia e da China inviabilizaria a retaliação. Mas é exatamente para isso que existe o CS, para impedir ações unilaterais que, fora do seu âmbito, são agressões. Isto é, pura e simplesmente, a constatação da dispensabilidade da ONU e do CS, face ao poder hegemónico da hiperpotência imperial na regulação dos conflitos.
Sabe-se que o presidente dos EUA, qualquer presidente dos EUA, para além das limitações constitucionais dos seus poderes, está condicionado por uma série de lobbies, poderes mais ou menos ocultos. Neste caso particular Obama está pressionado por três dos mais poderosos lobbies, o judaico, o petrolífero, o complexo industrial militar. Obama, o Nobel da Paz, foi forçado a vestir o manto do falcão. Acabou humilhado por Putin que, afinal, lhe atirou a boia de salvação que, no íntimo, talvez desejasse. E que provavelmente lhe evitou a humilhação no Congresso. Seria, de facto, paradoxal, ver a força aérea e a marinha dos EUA, na Síria, transformadas na força estratégica de apoio aos que, há 12 anos, atacaram os EUA nos seus símbolos do poder mais simbólicos, em Washington e Nova Iorque. Entretanto o seu aliado Cameron já tina sido humilhado no seu parlamento e Hollande humilha-se a si próprio pondo-se em bicos de pés para aparecer como paladino do ataque à sua antiga colónia.
Ataque adiado. No Médio Oriente o falcão judaico e os tiranos das petromonarquias não escondem a sua frustração. Israel, possuidor de um enorme arsenal de armas químicas, para além das nucleares, repete-se considerando inaceitável que outros possam dispor do que a ele é clandestinamente consentido.
Obama já veio corrigir o tiro Afinal a Síria nem sequer é importante. O importante é o Irão e, esse, continua na mira. Afinal não são apenas as encenações de Bush que se repetem. É o essencial a sua estratégia que, quando da agressão ao Iraque, foi claramente anunciada. Era apenas o primeiro passo para a reformulação do mosaico político do Golfo, a que se seguiriam a Síria e o Irão. Eliminar o eixo do mal.
Por isso digo que é penoso ver Obama, um homem aparentemente bem intencionado, confirmar que o verdadeiro poder nos EUA – e no mundo – está para além da Casa Branca. Já o sabíamos, mas pensávamos que Obama iria enfrentá-lo. Se o tentou, perdeu, e perdeu sem dignidade.
16 de Setembro de 2013
