NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 111 – por Manuela Degerine

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Outra Lisboa

Descobri há semanas numa sinalização amarela e vermelha que passa junto ao hospital de D. Estefânia, mas só hoje surge a oportunidade de verificar por onde ela conduz. Saio com água, comida, máquina fotográfica, botas de caminhada, um mapa de Lisboa… Parto para o desconhecido numa cidade que creio conhecer.

Ultrapasso a “Morgadinha da Estefânia”, hoje fechada, atravesso o Largo, espaço muito familiar, prossigo pela mesma rua, tiro no n°76A uma fotografia aos azulejos, tanta vez o imaginei sem ter comigo a máquina, ignoro a Rua da Praia da Vitória, o meu carreiro na direção do Saldanha, avanço por uma parte da Estefânia onde não estive nos últimos anos quando, junto à passagem para peões, creio num poste ver vestígios de amarelo cobertos com publicidade – que consigo arrancar. (Uma cidade é a sobreposição, quase sempre pacífica, de incontáveis códigos.) Encontro por debaixo o sinal de viragem à esquerda: eis-me na avenida Duque de Ávila. Aqui os traços foram pintados de maneira a serem vistos por quem caminha na ciclovia. Tento desfazer-me da memória, não situar os trilhos, os poisos, habituais ou ocasionais, a Namur, a Versailles, nunca aqui passei – creio – vinda da D. Estefânia, por conseguinte a perspetiva é nova e a máquina um adjuvante, fotografo o portão do n°73, a porta do 75, o portão do 77, simétrico do primeiro, o “Labor” e as cariátides, as incongruências arquitetónicas… Não encontro conhecidos que me destruam a distanciação.

– Que andas aqui a fazer?

Corre portanto tudo pelo melhor, atravesso a Av. da República, atravesso a 5 de Outubro, teria de girar noventa graus para o corpo ocupar a posição habitual, o que agora vejo é todavia familiar, passantes com um cão, passantes com ar vago, sentados nos bancos, sentados nas esplanadas, a ler, sim, é o “Expresso”, noutros lugares seria um jornal desportivo, os corpos expõem-se com à-vontade, mais bronzeados, menos disformes do que nos bairros populares, vou-lhes colando etiquetas, viúva, casados, amantes, divorciada, pai de família, suspeitando uma realidade além da aparência, o pai de família é o namorado da mãe, expõe com sinceridade este ar enjoado… Hoje é sábado, circulam poucos carros, trago leves quilos na mochila, o tempo está agradável (vinte e três graus), a cidade oferece sombras… Sinto o prazer de caminhar. E de parar.

Chego à rua do Doutor Nicolau de Bettencout e, conhecendo a psicologia de quem marca estes percursos, não me restam já dúvidas quanto ao espaço para onde me dirijo… Por ser zona que pouco conheço, deixar-me-ei levar pela sinalização. (Mas antes aproveito para ir comer uma talhada de melão no CAM.)

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