SOBRE UMA GRANDE E DURADOURA AMBIÇÃO, SOBRE O PASSADO; SOBRE O FUTURO DA ÍNDIA – Por SATYAJIT DAS – II

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

(continuação)

Innians’ Success (…).

As decisões tomadas em 1991 abriram o caminho para um período de expansão e prosperidade da economia indiana. Nas últimas duas décadas, deu-se uma quase quadruplicação do valor da produção em volume, crescendo a uma taxa média de cerca de 7% ao ano e superior a 9% relativamente ao período de 2005 a 2007 (praticamente as taxas de crescimento que se observaram na China).

Os elementos chave que contribuíram para este crescimento foram: um quadro de uma grande população que criou um substancial mercado interno, as taxas de poupança elevadas que financiaram o investimento e uma força de trabalho com uma boa instrução e em que há um muito bom domínio da língua inglesa, a mesma força de trabalho que anteriormente se encontrava sub-empregada. A desregulação permitiu um comercialismo latente, que esteve suprimido durante os dias de ‘licença Raj’, tendo-se assim criado uma trajectória de dinamismo económico.

Todavia, embora tendo presente que as reformas de 1991 e os recursos naturais do país foram cruciais, a Índia teve sorte, dado que a abertura do país coincidiu com a ascensão do processo de produção chamado de deslocalização de actividades (” business process outsourcing -BPO“). As nações desenvolvidas começaram a externalizar os serviços básicos de suporte ao processo de produção e as tecnologia da informação (“TI”) para fornecedores estrangeiros mais baratos. A necessidade de refazer o software de computador para evitar o Y2K ou Bug do milénio e apoiar o boom da Internet forneceu um impulso significativo para a indústria das TI no país.

Analogamente, o ambiente externo foi também favorável, caracterizado por um forte crescimento global sustentado pelo “dividendo da paz” resultante do fim da Guerra Fria. A ascensão dos mercados emergentes, especialmente os seus parceiros dos BRICs Brasil, Rússia, Índia e China), ajudaram a sustentar um fluxo de investimento na Índia. Uma fraca rupia indiana apoiava o crescimento, permitindo que os exportadores indianos concorressem no mercado mundial incentivando em simultâneo a vinda de capital estrangeiro.

Acresce que a Índia também evitou o pior da crise monetária asiática de 1997/1998 e da crise financeira global de 2007/2008. O alto nível de regulação do sistema financeiro, incluindo os extensivos controlos de capital e o foco interno sobre o sistema bancário, tudo isto protegeu a sua economia.

O último factor que apoiou o crescimento foi a grande diáspora indiana. As décadas perdidas resultaram numa fuga de capital humano para as economias desenvolvidas. Contudo, no início da década de 1990, registou-se um fluxo constante de regresso dessa fatia emigrada, trazendo na bagagem uma sólida formação, qualidades aumentadas pela formação e experiência no exterior, tendo a economia indiana beneficiado expressivamente.

Os indianos não-residentes (“NRIs”) foram importantes no fornecimento de capital. Por seu turno, os indianos que se encontravam a trabalhar no exterior, independentemente de ocuparem cargos técnicos ou mais modestos, especialmente no Médio Oriente, remetiam mais de US $ 20 mil milhões por ano para a Índia, mais do que qualquer outro país do mundo. Os bem-sucedidos empresários indianos expatriados assim como os profissionais, forneceram as ligações empresariais que foram cruciais tendo funcionado como uma alavanca da actividade económica.

A Índia e a população que a compõe chegaram ao cenário económico da globalização. O activista Arundhati Roy satirizou a visão favorável do presidente George Bush dos “Innians“: “(…) Eu gosto dos rish Innians (…) eles são obedientes e inteligentes (…) eles fornecem adicionalmente inteligência para ajudar a resolver os problemas (…) Innia é importante como um mercado para os produtos EUA (…) um milhar de milhões de pessoas a explorar (…) ” Os Innians residentes no país dividem agora o sucesso com os seus compatriotas imigrantes.

A Índia Iluminada (…).

O PIB da Índia aumentou 43% entre 2007 e 2012, um pouco menos que a China, que aumentou 56%, mas muito mais rápido do que as economias desenvolvidas, que cresceram apenas 2%.

Os economistas tudo fizeram para se superarem uns aos outros na explicação dos valores atingidos pela economia indiana. As previsões de taxas de crescimento de 8,5% ao ano ou, até mais, tornou-se banal. Morgan Stanley, o banco de investimento americano, previu que o crescimento da Índia chegaria a cerca de 9 a10%, ultrapassando mesmo o ritmo de crescimento da China que era de 8% num prazo de três a cinco anos.

Num relatório intitulado: India Better Off Than Most Others, Macquarie Capital argumentava que as tradicionais fraquezas da Índia, como as baixas exportações, um sistema financeiro predominantemente estatal e apenas levemente integrado com os mercados estrangeiros, lento crescimento das exportações devido à burocracia e ao grande sector agrícola nacional a produzir apenas para o mercado interno, eram agora os pontos fortes que sustentam e justificam o crescimento.

Os dirigentes indianos deslocavam-se entre fóruns internacionais, munidos pelo seu estatuto e pelo seu novo poder. Estes faziam compras de troféus de negócios no exterior, financiados pela dívida. No Fórum Económico Mundial, em Davos, representantes do governo indiano e das actividades económicas anunciavam que o país poderia crescer, até mesmo enquanto o pais repousava, a dormir.

A arrogância económica da Índia foi exemplificado por um slogan de marketing, primeiro popularizado pelo então governante Bharatiya Janata Party (“BJP”) para as eleições gerais indianas de 2004 – “A Índia Iluminada”.

Enquanto o progresso económico deste país da Ásia Meridional era evidente, os benefícios tinham uma base social estreita. Uma grande parte da população continuou a debater-se com baixos padrões de vida ou de pobreza, sem acesso a serviços básicos, como o acesso a uma mínima alimentação básica, água potável, saneamento, bem como aos serviços de educação e saúde básicos. A base do crescimento também não era equilibrada.

Depois de anos de jejum de uma única história vigorosa, os media indianos focaram-se na “grandeza” da nação, baseando-se em factos estranhos. O episódio era o de que a capitalização de mercado do State Bank of India ultrapassara a do Citigroup e era assim em factos como este que os holofotes dos media se concentraram. A imprensa celebrou a primeira edição indiana de Harpers Bazaar que contou com uma tampa de cristal cravejada, a introdução pela Rolls-Royce do seu novo Phantom Coupé na Índia e a abertura de uma novo stand da BMW em Delhi.

Multimilionários Brilhantes (…).

As estatísticas contabilizam que agora na India há cerca de 7% dos multimilionários do mundo, apesar do seu PIB representar apenas 2% do PIB mundial. A riqueza total destes multimilionários rondava os 20% do PIB do país, aproximadamente o mesmo que a Rússia, mas superior ao da China, onde a fatia é inferior a 3%.

O iemenita, Mukesh Ambani, patrão do gigante petroquímico indiano Reliance Industries, o quinto homem mais rico do mundo, com um património líquido de cerca de US $ 50 mil milhões, investiu parte da sua riqueza para construir Antilia (uma “modesta” habitação de 27 andares em Bombaim), que remonta a um valor de US $ 2 mil milhões, onde é possível ser observada de algumas das favelas de Mumbai. A pródiga propriedade foi apelidada de Taj Mahal indiano do século XXI. Todavia, verificou-se uma controversa desde o início, o que levou a que Mukesh Ambani e a sua família supostamente não se tenham mudado para a sua nova casa concluída, preferindo deslocarem-se entre Antilia e a sua residência anterior, Sea Wind.

A imprensa especula que o prédio não estava em conformidade com o princípio da Vastu, uma tradição indiana semelhante ao Feng Shui, o antigo sistema chinês de estética. A forma de Antilia deveria mover a energia beneficamente através da construção para melhorar a riqueza e o bem-estar dos seus moradores. Contudo, esta pode estar a violar um princípio fundamental do Vastu. Matinalmente, o lado leste do edifício não recebe muita luz, sendo mais aberto ao Ocidente, o que o expõe à energia negativa.

Os hindus acreditam que viver num edifício que é não construído de acordo com os princípios Vastu traz má sorte. Nos últimos tempos, o império de Mukesh Ambani tem sido adversamente afectado por uma amarga luta com seu irmão Anil, bem como com problemas legais e regulamentares nalguns dos seus negócios.

Como Ambani, a má sorte da Índia pode ser apenas o começo, já que o crescimento desacelera rapidamente e os seus problemas estão aumentar vincadamente. O primeiro-ministro Singh admitiu recentemente que, “seria errado concluir que a Índia está agora definitivamente colocada numa trajectória de crescimento rápido.” Isto contrasta com o anterior optimismo do ministro do Interior P. Chidambaram: “Graças ao nosso consumo interno e à procura, a Índia e um punhado de outros países, apesar do mal-estar mundial, é um exemplo brilhante de uma economia resiliente”.

– Ver mais em: http://www.economonitor.com/blog/2012/05/the-great-pretender-indias-economic-past-and-future-part-1-india-shining /#sthash.SnLGSEnf.dpuf

(continua)

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Para ler Parte I deste texto vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/09/15/sobre-uma-grande-e-duradoura-ambicao-sobre-o-passado-sobre-o-futuro-da-india-por-satyajit-das-i/

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