A PROCURA DO EQUILÍBRIO EM PORTO DE MÓS por clara castilho

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Há uns anos atrás conseguia estar nesta praia algarvia com uma certa calma e sem estar em cima de ninguém, desde que me dispusesse a andar um bom bocado para a direita, no sentido de Sagres. Tem umas arribas que até nem são bonitas, de uma rocha acinzentada, mas o areal é longo. Bem lá na ponta, uma pequena queda de água desfaz a rocha em lama, com que algumas pessoas se besuntam, voltando ao convívio dos outros meios fantasmas.

Este ano encontrei, num local com muitas pedras construções em que estas se equilibravam, de tamanho maior a mais pequeno, subindo para o céu, umas ao lado das outras.

Já tinha visto em fotografias algo semelhante, em locais paradisíacos e com pedras bem bonitas. Estas são cinzentas e tristes. No entanto, o conjunto faz parar quem passa, pessoas espantadas, mas que olham com respeito, umas direi mesmo com uma certa veneração. E que tiram fotografias, colocando-se em frente, à vez.

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Quando por lá andava, uma menina perguntava ao pai, em tom discreto, quem tinha feito e porquê. Meti-me na conversa, disse-lhe que não sabia, mas que eventualmente tinham sido várias. E quanto ao porquê, fi-la pensar na concentração e paciência que exigirá. Concordou, a menina. “Imaginas-te a fazer uma destas pequenas pirâmides.  Achas que eras capaz? E quanto tempo levarias? Poderias estar a pensar noutras coisas, na telenovela, no concerto rock que vai dar à noite? Ou terias que estar voltada só para contigo própria?” A menina concordou que tinha que estar só a pensar em cada pedra, procurar a outra mais pequena que se ajustasse e não caísse, tentar o equilíbrio… “Ora aí está! É isso, o equilíbrio! E enquanto se procura o equilíbrio das pedras, talvez se encontre o equilíbrio dentro de si…”

Talvez esse mesmo equilíbrio se encontre ao olhar por muito tempo a água do mar que sobe e desce.

E talvez encontremos formas de não nos resignarmos por estarmos a estragar o que de belo existe no ecossistema e na forma em que o estamos a estragar…

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