Romance
As riscas levam-me para a Embaixada de Espanha e, muito mais adiante, como eu previa, cortam pelas hortas urbanas na direção de Monsanto. Junto a uma tasca, à sombra de cujo toldo paro para vestir o casaco, pois agora o sol queima, olham-me com hostilidade – não, não sou daqui. Os rostos, os corpos, as atitudes, o urbanismo: tudo contrasta com a Duque de Ávila. O passo rápido é a melhor defesa, atravesso junto à “Casa do Concelho de Ponte de Lima” e, no prédio ao lado do portão, um graffitti denuncia a violência contra as mulheres…
Pretendo ouvir, às três e meia, uma conferência de Maria Alzira Seixo no Centro Cultural de Belém, por conseguinte quando, à entrada do Parque, um sinal manda virar à direita
, eu viro à esquerda: para a Ajuda. Passo pelo Aqueduto das Águas Livres, depois caminho, durante mais de uma hora, à beira de uma estrada, à sombra de pinheiros, acompanhada, de vez em quando, por grupos de ciclistas; não são ainda três horas quando começo a descer a Estrada de Pedro Teixeira. (Pedro Teixeira é o herói prodigioso ao qual o Brasil pode agradecer a Amazónia: só isto.) Passo pela Associação Desportiva da Juventude Ajudense, azul e branca, atravesso a Estrada de Caselas, mais adiante leio: “Cemiterio destinado pela Câmara Municipal de Lisboa para enterramento dos finados pertencentes as freguezias d’Ajuda e Belém, Anno de 1849”. (Quem se inquieta com a reforma ortográfica terá lido – nem digo mais – uma lápide do século XIX? A ortografia é mera convenção e, antes desta, outras reformas houve: Eça de Queirós não seguia as regras que nós aprendemos.)
Entro na Igreja da Memória, mandada construir por D. José I no local do regicídio, vejo o túmulo do Marquês de Pombal, passo a seguir por um bonito chafariz e, mais abaixo, descubro que um volume de “O Tempo e o Vento” – entalado entre os batentes de uma janela – permite nesta casa a circulação do ar… Metáfora das funções do romance. A conferência de Maria Alzira Seixo traça a génese do género, do latino “Satiricon” ao francês “Les Illusions Perdues”, passando pelas obras de Rabelais, Fernão Mendes Pinto, Voltaire, Rousseau, Diderot, Prévost, Marivaux… Regresso pelo beira do Tejo até à Praça do Comércio, subo pela Rua Augusta, Largo do Intendente, Rua do Benformoso… Vivi um dia perfeito.
