A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 1 – por Sérgio Madeira

 

 – A estupidez é um cão fiel!

– Acha?

– Tenho a certeza. Acompanha-nos desde o berço e só se despede junto do leito de morte, após nos ter seguido como uma sombra durante toda a vida.

 – A todos nós?

– Claro. A cada um de nós e à humanidade.

– Mas, às vezes somos inteligentes. E a humanidade…

– Isso é verdade. O cão distrai-se a mijar num candeeiro. Mas, depois, lá vem ele a saltitar. Os cães e as ideias estúpidas possuem um enorme poder de sedução. Um cão pondo a cabeça de lado e olhando-nos como se nos quisesse compreender e uma ideia estúpida que nos surge como luminosa, são irresistíveis.

Da cadeira de rodas e com a sua voz rouca, num tom irónico, o homem ia cuspindo frases. Sacudiu a cinza do cigarro e tossiu.

 

Primeiro capítulo

.Porto Santo, manhã de segunda-feira 13 de Abril de 2009

Imagem1

Envolvido por uma fina écharpe de bruma, o Ilhéu de Baixo assemelhava-se a um grande réptil do período jurássico ou talvez a uma gigantesca iguana emergindo preguiçosamente das águas e espreitando, agachada, com paciente codícia uma invisível presa perdida na imensidão do Atlântico. A manhã,  considerando que se estava apenas na  segunda semana de Abril,  apresentava-se fresca sem que se pudesse dizer que estava frio – 16 graus, talvez… Muitas nuvens., pois o céu quase sempre enevoado é a imagem de marca da ilha. A temperatura do mar estava quase igual à do ar.

Não trouxera relógio, mas sabia que deviam ser quase dez horas. A maré vazava, aproximando-se da baixa mar.  No extenso areal deserto da praia, enquanto corria descalço pela areia molhada, num jogging moderado, como o Alfredo aconselhara,  António Amaral respirava ritmadamente o ar salgado. Deixara já para trás o edifício do aparthotel Luamar, que marcava sensivelmente a metade do percurso,  aproximando-se agora da sua meta,  a praia da Ponta da Calheta. Saboreava antecipadamente a bica que iria beber no bar do restaurante da praia, o Pôr-do-Sol. Habitualmente grande bebedor de café,  o médico, tendo analisado demoradamente o ecocardiograma, concedera-lhe duas chávenas por dia como limite, mas ele, mais papista do que o papa,  num corajoso arroubo de fundamentalismo, apenas concedia uma a si mesmo – esta bica da manhã (depois de almoço, bebia um descafeinado). Por isso, acordava cedo já a pensar nesse prazer,  tornado agora tão  valioso pela quase abstinência forçada. «Um ou dois cafés, nenhum cigarro e quanto a sexo»… aí o Dr. Nunes fizera uma pausa para criar suspense e concluíra num tom matreiro e malicioso «bem, vá lá, quanto a sexo, não há restrições a não ser aquelas que a idade te impõem e que já não são nada poucas – podes continuar como até aqui a cumprir os serviços mínimos» – e rematara sempre chocarreiro:

– «Mas, atenção, nada de viagras!».

À sua aproximação, um grande bando de gaivotas levantou voo deixando na areia molhada a tatuagem de múltiplos tridentes.  Chegara agora a um labirinto de pequenas rochas, expostas pela maré baixa, interrompendo a pista dura e compactada do extenso areal e obrigando-o a escolher passagens, a contornar,  chapinhando nas bolsas de água. Podia, caso não se quisesse molhar,  ter subido a praia uma escassa dezena de metros e continuado a marcha pela areia seca, mas sentia um prazer infantil em mergulhar os pés na água que a exposição ao sol da manhã amornara. Na próxima curva do areal veria já o almejado Pôr-do-Sol. Salivou quando antegozou o gosto do café.

Foi então que, entre duas rochas maiores, viu o corpo,  quase nele tropeçando.

Os olhos abertos e sem brilho, com as pálpebras levemente descaídas, conferiam ao rosto do morto uma certa expressão de abandono, de indiferença. A boca aberta, os dentes superiores expostos, com os ganchos metálicos de uma esquelética a surgir aos cantos,  acentuavam um ar triste e resignado, denunciando uma qualquer palavra que começara a ser dita e fora subitamente interrompida. Uma farripa de cabelos grisalhos, alourados, cobria e descobria a calva ao sabor do movimento ritmado das ondas. O homem estava obviamente morto,  sangrando da testa e do peito e aparentando  já alguma rigidez,  movendo-se com o ar inteiriçado e grotesco de uma marioneta ao sabor das ondas fracas da maré vazante,  que ora o cobriam de água,  ora o abandonavam em seguida sobre seu leito de areia.

Uma dança macabra.


Continua amanhã – Andaremos mais de três décadas para trás e vamos assistir ao desencadear da Operação Shelltox, em Moçambique, no distrito de Tete.

Leave a Reply