EDITORIAL – “Por menos crimes se deu o Regicídio”.

Imagem2Sabe-se que o Partido Ecologista Os Verdes é um anexo do Partido Comunista Português e que existe para que o PCP possa apresentar-se nos actos eleitorais integrado numa coligação, a CDU – Coligação Democrática Unitária. Além do PCP e do PEV, a CDU inclui nas suas listas elementos da ID, Associação de Intervenção Democrática. É uma estratégia eleitoral normal e o que queremos aqui salientar é a forma peculiar e desassombrada de uma deputada do PEV, Heloísa Apolónia que convergindo ideologicamente com o PCP, como não podia deixar de ser, tem um estilo pessoal sem o tom da proverbial cassete (a que, por exemplo, Bernardino Marques não foge).

Temos aqui expendido uma opinião que não é consensual no blogue – os partidos de esquerda não deviam continuar num Parlamento dominado por uma esmagadora maioria neo-liberal. Mas, na medida em que esse abandono não está entre os projectos quer do PCP quer do BI, seria bom que o estilo interventivo, desafiador e irreverente de Heloísa Apolónia substituísse o registo domesticado com que os deputados de esquerda fazem as suas intervenções.

E, hoje 5 de Outubro, lembramos mais uma vez o discurso de Afonso Costa na Câmara de Deputados, no dia 20 de Novembro de 1906, condenando as medidas que o executivo de João Franco assumiu, com a aprovação do rei: «Por muitos menos crimes do que os cometidos por D. Carlos I, rolou no cadafalso, em França, a cabeça de Luís XVI». Esta frase implicou a expulsão da sala e a suspensão do mandato de Afonso Costa, mas desencadeou um movimento  de adesão que levaria à prisão de 63 pessoas, comícios em Lisboa e no Porto com milhares de manifestantes. Digamos que foi a arrancada final que culminaria quatro anos depois na proclamação da República, passando pelo Regicídio. Recentemente, Mário Soares parafraseou Afonso Costa, dizendo que por menos crimes do que os cometidos por Cavaco Silva e pelos seus protegidos, se deu o Regicídio.

Claro que os tempos são outros e que nem Cavaco Silva, nem Passos Coelho, nem Paulo Portas, merecem ficar na História por via de um acto desesperado. São insignificantes títeres de poderes políticos e financeiros, bonecos descartáveis. Os criminosos que puxam os cordéis, facilmente encontram substitutos. É gente irrelevante e desprezível que o marketing político pago por quem manda, promove e despromove.

Mas o teatro de marionetas continua. Ontem, Passos Coelho disse no Parlamento que as medidas de austeridade «terão de se manter durante muito tempo”, se o país se quiser “manter dentro do euro e cumprir a disciplina orçamental” a que está obrigado». Esta clarificação foi feita em resposta a Heloísa Apolónia, que lhe perguntara “quais são as medidas anunciadas este ano, incluindo as adiantadas ontem pelo vice-primeiro-ministro] temporárias e quais as definitivas”. Heloísa Apolónia dissera antes que “o país precisa de novas políticas e não de novos números políticos”,  E chamara a atenção para a contradição entre o que disse Passos Coelho,- “não serão acrescentadas novas medidas de austeridade às que já foram anunciadas”, e as declarações da Maria Luís Albuquerque, que “não descarta mais medidas de austeridade” para cumprir as metas acordadas com a troika. «São medidas recessivas que tiveram implicações que estrangulam a vida das famílias. Muitas das medidas que estão a anunciar como transitórias acabaram por se transformar em definitivas e estruturais. As dificuldades que as famílias têm hoje podem ser para sempre”,  disse Heloísa Apolónia, que lembrou ainda o corte de 0,3% na despesa dos ministérios que, no caso da Saúde, “pode provocar maior perturbação na prestação de serviços às populações”.

Uma deputada cuja frontalidade se saúda.

Leave a Reply