SOBRE O DESASTRE OCORRIDO ANTEONTEM EM LAMPEDUSA COM MIGRANTES AFRICANOS – UM ALERTA DE JÚLIO MARQUES MOTA

Boat people de hoje -por Daniel Rondeau, embaixador de França em Malta

(Tradução de Júlio Marques Mota)

Segunda Parte
(continuação)

Aquando da descolagem, Malta estava ainda banhada de uma ligeira bruma azul. O tenente Carré assinalou-me por rádio as telas das tendas do campo aberto que acolhe uma parte dos imigrantes clandestinos que alcançaram a margem maltesa, seguidamente e de forma rápida tomámos um pouco de altitude. O mestre mostrou-me no radar a zona que o Falcon iria sobrevoar, fazendo voos sistemáticos de vai e vem entre Malta e os confins das águas territoriais da Líbia. “Vigiamos bandas paralelas. Quando o mar está liso como hoje, nada nos escapa. Uma pequena bóia de pescador, um cardume de peixes à superfície, ou mesmo um saco de plástico, qualquer coisa que flutue deixa um eco sobre o ecrã”.

Cada vez que um eco aparecia, o homem do radar assinalava a posição ao posto de pilotagem e descíamos imediatamente a 200 pés acima da água para identificar a sua origem. Durante as primeiras horas, o mar pareceu-me desesperadamente vazio. Nem cargueiros, nem veleiros. Nada de pescadores, também. “As embarcações evitam aproximar-se das águas territoriais líbias, é por isso que há pouco tráfego nesta zona” . Muitos alertas, no entanto.

Sacos de plástico, barris vazios que flutuavam à deriva, restos diversos. No radar, eu podia ver as plataformas petrolíferas libanesas, a costa da Tunísia, as de Malta e de Gozo. Pela vigia, a luz alterava-se em cada momento. O espelho do mar passava por todas as gamas de azul. Azul de cerâmica ou céu terno, azul safira, de ardósia, quase malva às vezes, com matizes de verde e amarelo quando nos aproximamos das costas africanas. E no céu, sempre, nem uma nuvem. O piloto anunciou por rádio que bem gostaria de comer uma banana e de beber um chocolate. Era a hora de pausa para café.

Acabávamos de virar e começar a nossa segunda faixa de vigilância. Embarcações! Eram apenas pescadores tunisinos, a alguns milhas de Lampedusa. Um deles tinha colocado um pára-sol amarelo no seu barco para se proteger do sol.

Passamos ainda entre duas outras embarcações de pesca, seguidamente o mar animou-se. Acabávamos de entrar na zona das tartarugas. Vêem-se algumas à esquerda do aparelho. As suas carapaças captam a luz das ondas. Um tubarão nada à superfície. Não se demora e desaparece entre duas águas sob as asas do avião. Pássaros amedrontados pelo barulho dos reactores partem em estrela a rasar a água. Um pouco mais longe, uma grande lula deriva com um ar de preguiçosa. O mar já não é um deserto.

De repente, o avião inicia uma viragem e o piloto grita pelo rádio: “Embarcação afundada à direita”. Marie-Odile fotografa o barco naufragado que parece prisioneiro do mar. Era um barco de imigrantes que se tinha afundado uns dias antes. Alguns tinham podido ser salvos. Mas os outros? O que é que lhes aconteceu? No caso do naufrágio, nunca se sabe com precisão qual o número de desaparecidos. O mar já não era um deserto, mas sim um cemitério. A alguns milhas do barco naufragado passava um veleiro holandês. O piloto entra imediatamente em contacto com o capitão, por rádio. Era bom ouvir uma voz. Cinco minutos ainda, um grito nos nossos capacetes. Thomas, o co-piloto, anuncia uma baleia sobre a esquerda. Demasiado tarde, esta já tinha mergulhado.

O operador de radar assinalou um novo eco, e o avião desviou-se ligeiramente para se deslocar sobre a zona. Alguns minutos foram suficientes. Todos os membros da tripulação gritaram ao mesmo tempo apercebendo-se da embarcação: um grande barco de pesca, com uma cabina de madeira pintada de fresco em branco no meio da ponte, que dissimula o acesso ao porão. A embarcação navegava em direcção a Lampedusa. Não tinha matrícula. Sobre a ponte amontoavam-se uns cinquenta africanos, numa incrível desordem, apertados uns contra os outros, frequentemente com a cabeça entre as mãos, alguns caídos sobre a ponte do navio, alguns pendurados sobre o tecto da cabina ao lado de barris azuis, reservas de água ou de combustível. “Devem ser tão numerosos no porão, diz uma voz no meu capacete. Vêm da Líbia e já têm pelo menos trinta horas de mar atrás eles”.

A embarcação destacava-se sobre o fundo azul sombrio do mar e avançava sob a abertura das vagas de espuma sob um céu límpido. O céu era tão claro, o mar tão sereno mas não o era naturalmente para esta nuvem de homens matraqueados pelo sol de Setembro, para eles era apenas uma sucessão de abismos. Uma trovoada, uma avaria, e o seu navio insensato, uma antiga embarcação de pesca no limite da sua vida física útil podia tornar-se o seu túmulo.

Anteriormente, estas embarcações eram reparadas durante o Inverno e repostas como novas. Hoje, estes barcos frequentemente mal arranjados, susceptíveis de múltiplas avarias, são vendidos a preços de ouro e permitem aos passadores substanciais lucros. Mais passageiros que os barcos pequenos permitem, mais segurança, mais facilidade de reparar entre duas viagens, peças de substituição abundantes em todo o Magrebe, era o necessário. Dito isto, nenhum pescador embarcaria alguma vez num barco em tão mau estado. Giramos à sua volta, a baixa altitude, Marie-Odile tira fotografias que envia imediatamente indicando a posição do navio ao Centro de Controlo e de Investigação em Roma. A maior parte dos passageiros não nos olha. Adormecidos, atingidos pelo calor, doentes talvez. E os que nos olham, não manifestam nada.

A maioria dos imigrantes vem hoje da Somália, Eritreia, em menor escala do Mali, da Costa de Marfim, do Níger ou da Nigéria. Todos estão prontos a morrer para viver na Europa. Cada época teve as suas viagens infernais. O século XX não inventou nem o ódio nem a indiferença, mas precipitou dezenas de milhões de homens e de mulheres para a morte ou para a deportação. Cada um sabe como as políticas criminais que devastam a África, mortalmente doente de SIDA, lançam agora populações inteiras no exílio. Este exílio não é no entanto o único sofrimento destes homens desenraizados, condenados a progredir para o Mar Mediterrâneo por estradas sem leis.

A esperança é um muito longo caminho, que pode durar meses ou mesmo anos. Eles só encontram na estrada das suas vidas o desprezo do estrangeiro. Obrigados a trabalhar para pagarem a sua viagem, sempre roubados, frequentemente abusados, às vezes abandonados a uma morte certa em pleno deserto do Sahara e sujeitos em cada etapa a aberrantes direitos de passagem, todos eles sujeitos à chantagem de toda a gente, polícias, agentes de alfândega, comerciantes, transformados em escravos ou prostituídos, raptados, sequestrados, submetidos às piores abjecções, os homens assim como as mulheres, e as crianças também, são homens moralmente exangues que conseguem alcançar as praias líbias (Tripoli, Zuwarah ou Al-Khums, Misratah ou Zlitan) onde poderão, talvez, depois das humilhações finais e depois de ter pago 1 000 dólares, por fim, embarcarem (eles frequentemente já terão gasto entre 1 000 e 1 500 dólares para a sua viagem terrestre).

Todos sabem as engrenagens destas organizações mafiosas, os nomes de certos responsáveis são conhecidos (na Nigéria, em Cartum e noutros lugares) e numerosas reuniões de peritos europeus, e nomeadamente os responsáveis de Frontex, confirmam que a rota dos clandestinos, descrita pelo jornalista italiano Fabrizio Gatti em 2007, continua a estar sempre pavimentada pelos mesmos horrores. Mas a verdade continua sempre por construir, como dizia Camus, como o está o amor, como o está a inteligência.

Cada um a bordo do Falcon imaginava a sua viagem. Voávamos em círculos curtos e repetidos acima das suas cabeças. Para quê, demorarmo-nos? Todas as informações relativas à posição da embarcação, a sua velocidade e a sua rota presumida tinham sido transmitidas. Em princípio, os passageiros estavam agora em segurança. O avião retomou a direcção de Malta. Ninguém mais falava, mas a observação continuava. Um pescador à esquerda, que faz rota para o Norte! Duas embarcações de casco verde! Esta construção muito branca, à direita, é um draga-minas tunisino! Depois de seis horas de voo a rasar as ondas, diversos sonhos enchiam o nosso cérebro, preenchiam os nossos pensamentos. A maior parte das crianças das embarcações da imigração africana tinham nascido da prostituição forçada. As suas mães frequentemente estavam infectadas pelo vírus da SIDA. Interrogava-me, sem estar a ousar falar, se as duas lactentes recentemente arrancadas ao mar não estariam elas já doentes, elas também, quando o piloto assinalou um pequeno barco preto, voltado e vazio, que derivava sobre a nossa direita.

Este tipo de embarcação ligeira, frequentemente de má qualidade, é o barco mais frequentemente utilizado pelos passadores, que se servem também de barcos de fibra de vidro, de qualidade frequentemente fragilizada por uma construção apressada, uns e outros equipados de motores fora de borda de 40 cavalos. Estes barcos partem das margens com a sua sobrecarga de passageiros, jerricãs de gasolina, reservas de água e de alimentos.

(continua)

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Para ler a Primeira parte deste trabalho de Daniel Rondeau, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/10/04/sobre-o-desastre-ocorrido-ontem-em-lampedusa-com-migrantes-africanos-um-alerta-de-julio-marques-mota/

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