SOBRE O DESASTRE OCORRIDO QUINTA-FEIRA, DIA 3 de OUTUBRO, EM LAMPEDUSA COM MIGRANTES AFRICANOS – UM ALERTA DE JÚLIO MARQUES MOTA

Boat people de hoje -por Daniel Rondeau, embaixador de França em Malta

(Tradução de Júlio Marques Mota)

TERCEIRA PARTE
(CONCLUSÃO)

Os passageiros, cujos papéis de identidade terão, na sua maior parte do tempo, sido roubados, entregues a si mesmos (os passadores ficam nas margens), têm como única instrução colocarem o leme. Às vezes estão equipados de compassos, de GPS ou de telefones satélites (Turaya SO-2520). O material utilizado continua a ser sempre o mesmo, sinais da existência de redes estruturadas e estáveis.

O preto da pequena embarcação fazia uma mancha preta sobre o mar. Estes pequenos barcos assim como os barcos de fibra de vidro, sempre no limite de flutuação, são frágeis, ligeiros, indefesos perante uma qualquer rabanada de vento, e mesmo de uma má vaga. O Verão é também a estação de tempestades tão rápidas quanto brutais. Nunca são longas, mas mostram-se impiedosas para os frágeis barcos da imigração. Os marinheiros franceses do Arago sabem disso alguma coisa, eles que, em vão, assinalaram ao responsável da Frontex (nesse dia um oficial alemão) uma embarcação a algumas horas de uma rabanada de vento já previsto. Decidir não lhes levar assistência, era condenar os 30 passageiros a uma morte certa. Nenhum sobreviveu. Todos os candidatos à partida conhecem os perigos, mas é demasiado tarde para eles voltarem para trás. E voltar para ir para onde? Para o deserto? Sem dinheiro? A sua travessia dura em geral dois a três dias. Em casos de avaria ou erro de direcção, pode durar dez dias.

O seu destino prioritário é a ilha de Lampedusa, mais raramente a Sicília. Malta é, diz-se, apenas frequentemente um destino por defeito (mas em 2008, 2 522 imigrantes ilegais mesmo assim alcançaram o solo maltês, ou seja, um pequeno milhar a mais do que em 2006 e que em 2007).

Conhecemos o número dos que chegam, mas nunca o dos desaparecidos. Como é que este pequeno barco que andava à deriva, vazio, debaixo das nossas asas não levava passageiros? Morreram quando estavam quase a alcançar o fim pelo qual tinham aceitado tantos sofrimentos e privações. Nunca as suas famílias saberão no que eles se tornaram.

Mortos, sem sepultura, sem epitáfio, sem nome, solitários e mudos na morte como se assim tivessem estado durante os últimos meses da sua vida. Uma hora depois, apercebíamo-nos da frente ensolarada das falésias de Dingli e sobrevoámos numerosas reentrâncias da costa. Entre Gozo e Comino, as explorações de criação de atuns desenhavam círculos na água. Dois dias depois, soubemos que o barco grande sobrecarregado que sobrevoámos durante muito tempo e que com pesar tínhamos deixado nunca chegou a lado nenhum. Os sobreviventes destas modernas odisseias são colocados, à chegada, em Malta num campo de detenção esperando ser interrogados e fixado o seu estatuto. Os estrangeiros não reconduzíveis são devolvidos à liberdade, depois de dezoito meses de detenção (é um máximo; a média é de um ano). A maior parte refugia-se nos campos abertos, como o campo de lona de Hal Far. Saem de manhã do seu abrigo para procurarem trabalho para o lado de Marsa.

Tinha chovido toda a noite quando fui a Marsa, numa manhã de Dezembro; como sempre em Malta, quando chove com abundância, certas ruas ficam transformadas em rio. A chuva tinha cessado à minha chegada perto do porto. Às 5 horas da manhã, as ruas deste baixo bairro em metade abandonado ainda estão desertas. Seguidamente, a igreja abriu as suas portas, ao mesmo tempo que dois ou três cafés, e os primeiros fiéis atravessaram a praça. Foi nesse momento que começaram a chegar, como sombras que deslizam nas últimas cortinas da noite. Sozinhos, ou em pequenos grupos, duas ou três bicicletas, bem vestidos e com a cabeça enfiada no capuz da sua parca para se protegerem do vento matinal. Agruparam-se em diversos lugares à beira da estrada, nomeadamente em redor de uma rotunda. É aí que têm o hábito de esperar uma eventual contratação. Automóveis passam, param, o motorista negoceia o preço do trabalho para o dia ou para a semana.

No início do mês de Dezembro de 2008, Brice Hortefeux, ministro da Imigração, da Integração, da Identidade nacional e do Desenvolvimento Solidário, anunciou que a França acolheria, em 2009, 80 imigrantes vindos de Malta. Encontro neste momento Tonio Borg, o simpático ministro maltês dos Negócios Estrangeiros, por ocasião de uma recepção dada na casa de campo Arrigo. Falamos das tradições de Natal em Malta, dos infantários animados, da Córsega, de Bonaparte (o escritório de Tonio Borg no ministério tinha sido, em Junho de 1798, e durante alguns dias, o escritório e o quarto de dormir do general francês), depois perguntei-lhe sobre o que pensa da decisão francesa. “Excelente!

Isto mostra que a Europa não é apenas a afirmação comum dos nossos egoísmos. Sabe, quando falei desta eventualidade a um ministro francês há alguns anos, uma mulher, disse-me: ‘Peçam tudo o que quiserem, excepto isso!’ Progredimos.” A notícia é muito recente. Muitas perguntas permanecem ainda, quanto aos procedimentos a fazer.

No dia seguinte, tomo contacto com o Padre Joseph Cassar, jesuíta que anima a secção maltesa Jesuit Refugees Services, uma organização internacional criada nos anos 80 aquando do drama dos boat people. Alto e magro, bonito rosto enquadrado por uma barba curta e branca, de óculos leves, de olhos sombrios, transbordante de uma bondade voluntária, de calma também, o Padre recebe-me no escritório da WS Aloysius’s Gonzaga College, sob uma fotografia do Pai Arrupe tirada no Japão. Em redor do jesuíta, alguns membros da sua equipa, um outro padre da sua companhia, dois eritreus, e três mulheres, das quais uma jovem francesa, Céline. “Existimos em Malta desde 1993”, diz o padre Cassar. “Era necessário então responder ao número crescente de iraquianos imigrados, na sua maior parte cristãos, seguidamente bósnios que procuram refúgio em Malta depois de uma passagem pela Líbia. Desde 2002, ocupamo-nos dos imigrantes africanos chegados por barco. São os boat people de hoje. É a mesma tragédia que aquela que se desenrolou ontem no mar da China, e que Bernard Kouchner conhece bem”. A única diferença, certamente, é que agora, é aqui, na nossa Europa, no Mediterrâneo.

Quando o interrogo sobre se é possível avaliar o número de desaparecidos, responde após um silêncio. “É impossível sabê-lo com precisão. Mas tentamos fazer avaliações. Todos os candidatos à viagem são organizados por famílias, por fratrias ou por aldeias, e comunicam por telemóvel. Quando um barco está em dificuldade, ou estão sem notícias, acontece que as famílias nos contactam. Chegamos assim a fazer algumas avaliações. Pensamos que, em cada ano, entre 600 e 1 200 imigrantes morrem no Mediterrâneo”. Mais de um terço dos que partem não chegariam a terra firme?

As primeiras tempestades de Outono desencorajam a aventura da travessia. Em meados de Novembro, um moderno paquete de cruzeiro não teve um grande azar ao entrar no porto de Palermo? Mas durante alguns meses ainda, corpos levados pelas correntes encalhavam na margem do Sul da Sicília; os pescadores de Malta e outros continuam a apanhar restos de homem nas suas redes. Acontece, no entanto, que alguns audaciosos, aproveitando o período de bom tempo, tentam ainda a travessia. O padre diz-me que, no fim de Novembro, um cargueiro russo socorreu várias dezenas de naufragados. “Isto pelo menos prova que nem todas as embarcações desviam a sua rota quando se apercebem de um barco em dificuldade. Certamente”, responde-me o padre. “A solidariedade das pessoas que navegam no mar não morreu, ainda que todos tenhamos conhecimento de dramáticas entorses às regras de assistência e de salvamento”. Quando deixo o seu escritório, o padre Cassar mostra-me um fresco pintado por congoleses. É uma pintura naif, muito figurada, que representa a sua terrível viagem e se assemelha a uma dança macabra, apesar das cores vivas, dos vermelhos e dos amarelos.

Os povos em torno do Mediterrâneo procuraram sempre as eternas promessas da vida. Esta procura deu frequentemente aos homens boas razões para abandonar as suas aldeias, as suas cidades e de se irem embora. Gregos, fenícios, cartagineses, deixaram anteriormente as suas margens para seguirem a rota de Ulisses. Mais perto de nós, em pleno século XIX, numerosos franceses, artesões nas cidades, trabalhadores na casa dos quarenta e mais anos, embarcados no fundo de porão de batelões, seguidamente sobre fragatas, atravessaram o Mediterrâneo para irem fundar colónias, explorações agrícolas e aldeias, em regiões pantanosas ou zonas de arbustos bravios. E no século XX, quantas travessias no outro sentido! Camponeses do Rif, do Chouf ou de Kabylie vindo trabalhar nas minas e nas fábricas francesas. Franceses da Argélia retornando a França apenas com a sua mala como património.

Tudo isso não se pode ter passado sem dor.

A História continua apaixonante e terrífica. Mas hoje, a única promessa cumprida, e demasiado frequentemente, é o túmulo. Ulisses é negro e morre no mar, no silêncio das ondas, depois de meses de espera, de aflição.

Nunca encontrará o rei mago Baltazar. O Mediterrâneo, onde procuramos infatigavelmente o rosto da sabedoria e da beleza, não deve tornar-se num cemitério.

Daniel Rondeau, “Boat people d’aujourd’hui”, Le Monde, 26 de Março de 2009.

Leave a Reply