HOMENAGEM A UMA PROFESSORA QUE AMOU SEUS ALUNOS por clara castilho

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Não se homenageiam só os mortos. Aliás, isso deveria ser feito em vida. Hoje vou falar de uma professora que amou seus alunos.

De seu nome Ilda Silvério, trabalhou na Casa da Praia, de onde se reformou prematuramente, devido a problemas de saúde. Que não melhoraram. Está longe do nosso convívio mas sempre perto de nós.

Foi há pouco tempo que revi um artigo publicado no “Publico”, já lá vão 13 anos. Ocorria o nosso 2º Encontro e a jornalista Paula Torres de Carvalho foi até lá para sobre ele falar. E aconteceu assistir a uma “conferência” de crianças, esta sobre os Planetas. E também sobre isso escreveu. 

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Uma “conferência” é algo que é costume acontecer por ali. E não só, visto que não é invenção nossa. De entre as práticas que fomos buscar a Freinet, a apresentação pelos alunos de trabalhos feitos por eles, é um momento de vivência colectiva, depois do estudo de algo que eles escolheram e lhes faz sentido, de confronto consigo próprios, vencendo os medos e ousando exporem-se.

Pois desta vez, porque estava a estudar os planetas na escola, um aluno propôs abordarem este assunto. Mas, porque tudo ali se faz de uma maneira um pouco diferente – aproveitando a pedagogia de uma forma terapêutica – a professora Ilda propôs às crianças que primeiro imaginassem um planeta. Os textos que dali saíram foram muito divertidos e deram-nos muitas informações sobre o sentir de cada um:

“Planeta dos horrores”, “Planeta palhaço”, “Planeta das escadas rolantes”, “Planeta supervoador”, “Planeta da Super-água”, “Planeta da fantasia”. Não foi por acaso que o E. visualizou um planeta onde tudo andava ao contrário, que a A. lá pôs flores e borboletas e que o M. imaginou um mundo conflituoso cheio de guerras…

Daqui se deu o salto para o verdadeiro estudo que as crianças apresentaram nesse dia. Desde então outros estudos vieram, sobre corujas, castelos, terramotos, aviões, um mundo de assuntos que povoam os interesses das crianças.

Mas bem recentemente, outros planetas foram apresentados e em muitos de nós surgiu um nó na garganta por nos lembrarmos da Ilda. Em várias mesas alinhadas, cobertas com um pano, um globo numa das pontas, os textos que iriam ler à frente, cinco crianças esperavam que todas as pessoas da Casa se sentassem nas cadeiras por eles postas em filas. O nervoso miudinho ia aumentando, o J. que mal sabia ler ia ser ajudado pela A., o D. mal se conseguia aguar quieto, o M. punha-lhe a mão no ombro, lembrando-lhe que não estava sozinho e que ali tinha que tentar “comportar-se”, o C. pressentia que ia ser a “estrela” por ser o mais desembaraçado. No fim responderam às perguntas da assistência e foi com uma salva de palmas e grande alívio que foram almoçar, não sem antes todos terem arrumado as cadeiras.

A Ilda que sabia ser uma figura de referência na vida de muitas crianças, ajudando-as a organizar os seus mundos interiores. A Ilda  acolhia-as  mesmo em momentos em que, mais agitados, deitavam mesas abaixo, mostrando-lhes que podiam expressar as suas zangas, que alguém as compreendia e estava ali para ajudar. Ilda que as incentivava a não desistir, a continuar, a corrigir erros a acreditarem nelas próprias.

Frágil Ilda, por quem perguntam muitos meninos que nos visitam, espantados por a não encontrarem, como se o mundo tivesse parado ali,  naquele sítio de onde levaram forças para enfrentar o futuro. Forte Ilda que luta contra a morte, certamente lembrada de boas coisas que na vida viveu. 

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