*Este artigo reproduz parcialmente o que foi publicado no Estrolabio
Introdução
Passa hoje, dia 7 de Outubro, mais um aniversário da morte de Edgar Allan Poe. Ocorrida em circunstâncias que não estão completamente estabelecidas, pôs fim a uma vida difícil, recheada de dramas e dificuldades de toda a espécie.
Entre elas, o do reconhecimento no seu próprio país, que só aconteceu bastantes anos depois.
Poe é hoje reconhecido como um dos vultos mais interessantes da literatura norte americana. E mesmo da literatura mundial. Contudo é famoso em primeiro lugar pelas histórias de terror e mistério que escreveu. Já o é menos pelo seu talento como poeta. E ainda menos por ter sido o criador da chamada detective story, que nós vulgarmente chamamos história policial, ou romance policial, e ser assim o precursor de Conan Doyle, Agatha Christie e tantos outros escritores famosos. E é muito pouco conhecido por ter sido um teorizador da literatura, à qual pretendeu mesmo dar um carácter científico.
Uma personalidade controversa
Helena Barbas, na introdução ao seu livro Poética (Textos Teóricos)[1], que inclui a tradução de quatro textos teóricos de Poe, começa por recordar que não existe nenhuma biografia fidedigna deste. Jean Royère (1871-1956), no seu livro Clartés sur la Poésie[2], refere que o primeiro biógrafo oficial de Poe, Rufus Wilmot Griswold, introduziu no seu trabalho graves calúnias, que terão sido reproduzidas por outros autores. Mesmo a causa da sua morte é muito discutida. Uns atribuem-na ao alcoolismo, outros a doença, e ainda há outros que aventam a hipótese de ter sido vítima de uma agressão.
A maioria dos biógrafos concorda em que o escritor teve uma existência infeliz, com numerosos episódios de desastres afectivos. O primeiro foi sem dúvida a morte do pai e da mãe quando ainda era uma criança pequena, o que fez com que tivesse de ser recolhido por outra família, de onde lhe vem o apelido Allan. Desde novo que teve grandes desgostos amorosos, que culminaram com a morte de Virgínia, a sua jovem esposa, vítima de tuberculose, em 1847, portanto dois anos antes da morte do próprio Poe. Entretanto frequenta a Universidade da Virgínia, e mais tarde, a Academia Militar de West Point. Em ambos os casos, não terá concluído os estudos.
Poe era sem dúvida dotado de uma inteligência excepcional e de uma cultura vastíssima, e interessava-se pelos mais variados assuntos. Amante de História Natural, chegou a publicar um manual de conquiliologia. Também escreveu sobre criptografia. Ganhava a vida escrevendo para jornais e revistas, chegando a vender por quantias módicas alguns dos seus melhores trabalhos. A sua actividade como crítico literário granjeou-lhe muitas polémicas e mesmo inimizades. As críticas a Longfellow, a Emerson e a outros contemporâneos produziram um grande impacto, muitas vezes desfavorável, sendo sem dúvida uma das razões porque, durante muito tempo, não foi tido em grande conta no seu próprio país. Foi sobretudo em França que começou a ser grandemente valorizado.
Sob o signo de Edgar Poe
Fui buscar o subtítulo acima a La Littérature Fantastique, de Jean-Luc Steinmetz[3]. Este assinala que Poe teve muitos imitadores, mas que poucos conseguiram captar o humor, a distinção e a inteligência com que ele tratou o que o legado do romantismo lhe tinha trazido em estado de terror em bruto.
Poe foi obviamente influenciado por Ann Radcliffe (1764-1823)[4], e por outros seguidores do chamado romance gótico. The Fall of the House of Usher (1839) é o seu conto que mais claramente mostra essa influência. A propósito, é de referir que enunciou a ideia de que o conto (“the Tale”) proporciona “a melhor oportunidade de prosa para exibir o talento mais elevado”, numa crítica à obra de Hawthorne[5].
No que respeita a influências poéticas, há que assinalar a de Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), cujas ideias Poe chegou mesmo a ser acusado de usurpar. É preciso dizer neste campo que Poe se apresentava como um cultor da forma, defendendo que a música, como a forma de arte mais perfeita, deveria ser o principal padrão de referência para a poesia, até por ser a melhor maneira de produzir efeito no ouvinte ou no leitor. Defendeu também que o poema deve ser breve, para poder ser lido de uma só vez, e assim tornar mais intenso o efeito poético. Estas e outras ideias que apresenta nos seus textos teóricos foram contestadas pelos seus contemporâneos americanos, mas o seu interesse foi posteriormente reconhecido, não só em França, mas pelos meios literários em geral.
Na verdade, a fama de Poe em França (e também em Inglaterra), na segunda metade do século XIX, foi enorme. Baudelaire e Mallarmé traduzem Poe para francês, Júlio Verne escreve uma sequência ao romance The Narrative of Arthur Gordon Pym, intitulada Sphinx des Glaces, Villiers de l’Isle-Adam e até Maupassant denotam a sua influência. A norte do canal, Tennyson presta-lhe tributo. E quem negará que The Happy Prince e The Portrait of Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou Dr. Jekyll and Mr. Hyde, de Stevenson, têm a influência de Poe?
Já falei acima da detective story, ou romance policial, para todos nós. Género muito menosprezado pelo snobismo intelectual, só há pouco tempo começa a ser compreendido todo o seu potencial. A sua criação deve-se sem dúvida a Poe. Até o sistema narrativo, de um escriba a relatar os trabalhos de um decifrador de mistérios, foi retomado pelos seus seguidores. O Dr. Watson, narrador das aventuras de Sherlock Holmes, é inspirado no narrador das brilhantes deduções de Auguste Dupin. The Murders in the Rue Morgue (1841), são a abertura para um novo género literário.
Edgar Allan Poe foi um poeta extraordinário, contista fenomenal, teórico e crítico literário. Mas foi também um desbravador de novos caminhos para a literatura em geral.
Agradecimentos
Para além dos autores citados, Helena Barbas (que magnífico trabalho!), Jean Royère (falecido há tanto tempo, mas nunca é demais frisar o entusiasmo que tinha por Poe), Jean-Luc Steinmetz, e outros, cumpre lembrar o estupendo trabalho da The Edgar Allan Poe Society of Baltimore, a quem peço que continue a investigação sobre a vida e obra deste grande autor.
[1] Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, de 2004. As traduções são de Helena Barbas.
[2] Edição de Albert Messein, Paris, 1925.
[3] Colecção Que sais-je?, Presses Universitaires de France, Paris, 1990.
[4] O mais famoso dos seus romances foi The Mysteries of Udolpho. O primeiro romance gótico a tornar-se conhecido foi The Castle of Otranto (1765), de Horace Walpole.
[5] Ver o livro de Helena Barbas, acima referido, pág. XXIV da introdução.
