O pintor e argonauta Dorindo Carvalho viveu 14 anos na Venezuela e ali participou em numerosas iniciativas culturais ligadas à Embaixada de Portugal em Caracas. Para uma exposição com pinturas inspiradas por poemas de autores portugueses (exposição que nunca se realizou), Dorindo Carvalho pintou este quadro sobre o «Poema de um funcionário cansado», de António Ramos Rosa. É uma óleo sobre tela com as dimensões de 80X80 cm. O texto do poema, foi já publicado no trabalho do argonauta Álvaro José Ferreira. Repetimo-lo aqui.
A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só
Poema de António Ramos Rosa (in “O Grito Claro”, Faro: Ed. do Autor, col. A Palavra, 1958; “Antologia Poética”, prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – págs. 30-31)

