Nos capítulos anteriores – Em 2009, António Amaral está de férias no Porto Santo. Na praia, encontra o corpo de um homem morto a tiro. Em 1972, do distrito de Tete. Moçambique, prepara-se uma operação militar contra uma aldeia que, se pensa abrigar um líder da guerrilha. António recorda os dias anteriores ao mórbido achado. As tropas especiais chegam a Xuvalu, o alvo da operação. No hotel, ao jantar, António e Cecília, sua mulher, são surpreendidos pelo pianista, que se lhes dirige. Em Xuvalu começa o massacre.
Sétimo capítulo
– Dr, António Amaral, minha senhora…
António fez menção de se levantar, mas o pianista dissuadiu-o:
– Dr, Amaral, por favor, não se incomode. Peço desculpa por vir interroper o vosso jantar. Vou tocar numa discoteca e tenho de sair já. O Dr, Alfredo Nunes, telefonou-me e recomendou-me que me pusesse ao vosso serviço – Com gestos calmos, educados, colocou um cartão de visita sobre a toalha – Manolo Ruíz… para vos servir.
António pediu-lhe que se sentasse. O pianista, obedeceu:
– Um ou dois minutos, não mais. –
– Então conhece o Alfredo?
– Somos amigos, conhecemo-nos em Lourenço Marques.
-Pois agradeço muito a sua disponibilidade, mas espero não ter de o incomodar…
– Ora essa… Se em alguma coisa puder ser útil – apontou o cartão – é só fazer um telefonema. tenho os dias livres. Sou como o Drácula, só funciono à noite.
Riram e o pianista despediu-se. Com passos elegantes atravessou a sala e saiu na direcção do corpo principal do hotel.
António Amaral, 63 anos, era sócio-gerente da Albatrosmotor, Lda., empresa de serviços – importações e exportações de motores para barcos de pesca e embarcações de recreio. Licenciado em Letras, curso de História, e pós-graduado em Gestão era, há 29 anos, casado com Cecília, professora de Português e de Francês do ensino secundário. Tinham-se conhecido na Faculdade, embora ele, estudante tardio e com o curso atrasado pelas lutas políticas e consequente prisão, estivesse já a completar o curso quando Cecília era ainda jovem caloira. Tinham uma filha de 17 anos, Noémia, estudante do 12º ano. Noémia anunciara a sua chegada numa altura em que ele e Cecília, que, embora mais nova do que o marido, estava na altura já com 38 anos, tinham desistido de ter filhos, após mais de dez anos de tentativas infrutíferas, com diversos abortamentos espontâneos pelo meio. A rapariga tinha, pois, direito aos mimos e mordomias, principalmente por parte do pai, mais próprios de uma neta do que de uma filha. A jovem concebia o mundo como um palco em que ela era a protagonista e os outros milhares de milhões de humanóides, meros figurantes. António tinha consciência de que não a educara da melhor maneira, mas sabia que Cecília, organizada e disciplinadora contrabalançava o seu excesso de benevolência.
Em Março, numa manhã de sábado, quando, muito, muitíssimo contrariado, no meio de uma infernal multidão, apesar da crise global, atacada por um doentio frenesim consumista, ele e Cecília faziam compras na Makro de Alfragide, sentiu uma súbita e forte dor no peito, acompanhada por uma aflitiva sensação de opressão, um insuportável peso que quase o impedia de respirar. Seguiram-se fortes náuseas e tonturas, como se estivesse na iminência de desmaiar. Pela primeira vez na vida, ocorreu-lhe a ideia de que ia morrer.Logo desistindo das compras, voltaram para casa, em Carcavelos, numa pequena moradia situada perto da linha de comboio, sendo Cecília a conduzir o carro, pois ele, ainda entontecido e agoniado, não se sentia em condições de o fazer. Prescindindo do almoço, tomou um chá e deitou-se, passando o resto da tarde deitado. Esteve durante algum tempo acordado, imerso numa modorra feita de pensamentos negativos sobre a grande precariedade da vida. Entre pensamentos disparatados e súbitas incursões em territórios do sonho, acabou por adormecer pesadamente, sem pesadelos. Preocupada, Cecília, vinha de vez em quando abrir a porta cuidadosamente do quarto para vigiar o estado do marido. Quando, passadas horas, acordou era já noite. Embora a dor no peito tivesse passado, sentia-se ainda um pouco tonto e nauseado, pelo que limitou o jantar a mais uma chávena de chá e a uma torrada. Viu um pouco de televisão, evitando a transmissão de um jogo do Sporting, e deitou-se cedo. Leu umas páginas de Ágata Christie (andava a reler a obra completa que comprara em colecção encadernada). Dormiu bastante bem.
Estes períodos de exigente e fanático regime dietético no género de – pequeno-almoço: 20 gramas de bolachas de água e sal e um de sumo de tomate; meio da manhã – um ovo de galinha cozido; almoço – cenoura, couve-flor, uma lula fresca e um tomate; lanche – uma maçã starking; jantar coelho manso, acompanhado por rabanetes; ceia: 15 gramas de pão integral e 15 gramas de queijo fundido…, bem como as fúrias de exercício físico intenso (natação duas vezes por semana, ginástica cinco dias por semana, jogging aos sábados e domingos…) eram, passadas algumas semanas de grande e militante perseverança, substituídos por um abandono dionisíaco a lautas e prolongadas refeições de «negócios» e, nos fins-de-semana a alardes de meditativa preguiça física em que aquilo que mais o aproximava do desporto eram os desafios de futebol que, esparramado num sofá, via na televisão, bebendo, conforme a época, um caloroso uísque de malte ou uma cerveja gelada. A bicicleta fixa fora arrumada num recanto esconso e quase invisível da garagem, pois o simples facto de ver aquele instrumento de saúde e desporto, acordava em António um incómodo sentimento de culpa, de má-consciência, como um católico praticante quando falta à missa de Domingo. O abdómen, verdadeiro barómetro desta alternância democrática entre vida salutar e queda no excesso, crescia então até perímetros preocupantes, obrigando-o a comprar novos pares de calças e a andar com os casacos desabotoados. O espelho de corpo inteiro devolvia-lhe após o duche uma imagem desoladora. A balança era outro instrumento que ora caía em graça, ora em desgraça. Primeiro retirava o espelho e a balança, mas passado algum tempo, lá vinha uma nova vaga de desporto e regime. O espelho e a balança voltavam à casa de banho.
E assim fora vivendo António até àquele sábado de Março.