Ora bem, ainda falta abordar mais “obras” de Maria Keil, longe no tempo, mas que marcaram a época em que foram feitos. Iremos falar de cenografia, figurinos, tapeçaria e mobiliário. Nem mais.
No ano de 1940 foi criada a Companhia de bailado Verde Gaio (ou Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio). Pretendia-se evocar o folclore e os costumes nacionais, tendo subjacente a ideia que os Ballets Russes de Diaghiley divulgavam. À volta deste projecto encontrava-se António Ferro, os compositor es Frederico de Freitas e Jorge Croner de vasconcelos, o coreógrafo Francis Graça, a escritora Fernanda de Castro, o pintor Paulo Ferreira. E, para algumas das peças foram chamar Maria Keil para fazer os cenários e os figurinos. Concretamente no espetáculo de estreia, com a A Lenda das Amendoeiras , que foi visto no Teatro Trindade, em Lisboa.Neste projecto, colaboraram também os pintores e desenhadores modernistas Thomaz de Melo (Tom), Bernardo Marques e Mily Possoz e José Barbosa.
No catálogo da exposição “De Propósito”, vem um texto de Vera Fino:
“A tapeçaria constitui uma das muitas formas de expressão artística adoptados por Maria Keil. A sua colaboração com a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre inicia-se em 1949 com a obra Pescador da Barca Bela inspirada no poema homónimo de Almeida Garrett. Cativada pela qualidade técnica e pela originalidade do “ponto de Portalegre”, Maria Keil volta a trabalhar para tapeçaria, em obras de grande dimensão, no âmbito de duas encomendas para o Hotel e Casino do Estoril nos anos sessenta. Ainda neste período produz três tapeçarias para as agências da TAP (Nova Iorque, Copenhaga e Madrid). Data de 1995 a sua última colaboração com a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, ficando por concretizar, já neste século XXI, um projecto de grande envergadura, para o qual tinha sido desafiada nos últimos e preenchidos anos da sua vida criativa”.
No que se refere a mobiliário, fiquemos com o texto de Bebiano Braga :
“No início dos anos 40 até meados da década de 50 de novecentos, Maria Keil dedicou-se empenhadamente ao desenho de mobiliário para interiores comerciais, ligados à restauração e à hotelaria, e para interiores domésticos, aqui com especial modernidade.
Num misto de regionalismo e estilização folclórica, o seu mobiliário e decoração foram dados como exemplo da imagem do “portuguesismo” que a “campanha de bom gosto” do SPN/SNI defendeu na revista Panorama, a partir de 1941. É modelo o restaurante Tito, na Baixa da capital, projecto de 1939 em colaboração com o arquitecto Keil do Amaral, seu marido, ou melhor ainda, a Pousada de S. Lourenço, na Serra da estrela, riscada pelo arquitecto Rogério de Azevedo. Neste vasto programa decorativo, de 1948, reinterpretou o mobiliário vernacular, propondo novos motivos ornamentais gravados sobre madeira escura, têxteis da região beirã e candeeiros de ferro forjado.
Apontando uma opção estética diferente, a sua exposição de 1955, na Galeria “Pórtico”, em Lisboa, é um momento maior de móvel de arte. Aí soube conciliar o desenho de linhas contemporâneas e cosmopolitas com apontamentos em talha ou azulejo, reflectindo um bom entendimento da tradição portuguesa no mobiliário. O contraste cromático da madeira entalhada e o corpo do móvel bem construído foram valorizados pela colaboração do mestre entalhador Manuel Magalhães. Através do desenho certeiro dos volumes simples e dos motivos figurativos a aplicar, delicados e poéticos, Maria Keil propôs a renovação do mobiliário para o lar.”