A MULHER NO MUNDO DO TRABALHO – “ Eu, os meus direitos e as minhas oportunidades – O meu testemunho”- por Margarida Ruivaco

0001 (2)Numa homenagem à vida e obra de Hanna Arendt, somos convidados a reflectir na liberdade, direitos e garantias nas mais diversas áreas da nossa vida. O trabalho é uma dessas áreas, e sobre isso me debruço.

O meu mundo de trabalho é essencialmente de homens e, até há pouco tempo, eu teria idade para ser filha de grande parte dos homens com quem trabalho ou trabalhei.

Eu sei, saber de leituras, de horas passadas em frente a uma televisão ou a um computador, da realidade de muitas outras mulheres. Mulheres com vidas mais duras, mais tristes, com menos amor, menos oportunidades. Lamento-as. Mas não sei colocar-me nos seus lugares. Então, não é dessas que vou falar.

Sei de mim e da minha experiência, com mulher engenheira, rodeada de homens, líder de homens, chefiada por homens, e como mulher, esposa, filha e mãe. Darei, pois, o meu testemunho.

Antes de mais, e para que fique claro, vejo a igualdade de direitos como igualdade de acesso aos direitos, seguido de igual cumprimento dos deveres. Aplicado a homens. Aplicado a mulheres. Sem distinção. E isto é o básico, para mim, em termos de direitos. Aplica-se a todos os tipos de direitos, a qualquer género humano, em qualquer lugar do mundo.

Isto remete para uma das minhas ideias mais convictas: as oportunidades. As oportunidades e os direitos deviam andar lado a lado. O acesso equitativo aos direitos só é possível se houver esse mesmo acesso a oportunidades. E só é possível comparar sucessos quando se conhecem as oportunidades.

Eu sou a mais velha de quatro filhos. A mais velha de dezassete primos. Os meus avós maternos e paternos tiveram percursos de vida muito diferentes, mas em comum existia a pobreza, a vida de trabalho duro e a educação esmerada dos filhos: para a familia, primeiro, como pessoas honradas e dignas depois, como trabalhadores sérios e por fim com o acesso à educação.

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Ilustração: quadro de Dorindo Carvalho

Com mais ou menos dificuldades, os meus pais tiveram acesso ao ensino básico. Mais tarde, em adultos, tomaram a opção de seguir com os estudos: o meu pai, no inicio da sua vida de trabalho, completou o que seria hoje equivalente ao 12º ano; a minha mãe recomeçou a estudar, já com quatro filhos, tinha eu já quinze anos e completou o 11º ano e não fossem a matemática e o inglês, o 12º estaria concluído.

Todos os meus tios e tias, acabaram por ter também acesso as estudos acima da média, nas suas épocas, com recurso ao seu esforço financeiro e apoio da família, a maior parte em adultos. Porque os seus pais, ainda que não tivessem posses para lhes pagar estudos, sempre estiveram conscientes da importância da educação académica e deram aos filhos as ferramentas para que a procurassem, que fizessem surgir essa oportunidade. E todos eles o fizeram.

O meu percurso académico começou no infantário em 1978. Ainda que a minha mãe trabalhasse em casa, os filhos foram para o infantário. Poucas crianças os frequentavam. Somos do campo, da aldeia, e os filhos ficavam em casa. Escolas, também não havia muitas.

O percurso só foi interrompido com a conclusão da licenciatura, em 1998. Tinha 23 anos, estava licenciada em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico e tinha que encontrar emprego.

E o primeiro dilema foi: onde?

Só concorri a uma grande empresa. Tive a oportunidade, mas decidi não a aproveitar. Ir para uma grande empresa significaria, como significou para muitos colegas, ser destacada para qualquer sítio do país ou estrangeiro. Recusei. E acabei, rapidamente, a trabalhar numa pequena empresa perto de casa. Permitiu-me preparar o casamento há tanto esperado e ficar a morar perto dos pais e dos sogros.

Coloquei o projecto de família à frente do projecto de sucesso no trabalho. Ninguém escolheu por mim: eu tinha direito, tive a oportunidade e pude decidir.

Verificou-se uma boa escolha. A empresa já não existe, fechou, polemicamente, há uns meses. Nela aprendi muito, o bom e o mau. Fui esforçada e autêntica. Progredi, fui aumentada. Fui humana. Fui criticada por isso. Ganhei o respeito de muitos trabalhadores. Casei, perdi vida própria por excesso de horas de trabalho. E quando achei que não estava bem saí, procurei outro emprego. Tinha 26 anos um bom ordenado.

Tive boas ofertas, de bons salários e regalias.Era fácil, na altura. O meu nome era reconhecido num meio pequeno. Valia dinheiro. Escolhia uma empresa, propunha-me a uma entrevista, e saía de lá contratada.

Em 2002 fui trabalhar para outra empresa. Nunca tive um salário tão alto. Engravidei. Trabalhei durante toda a gravidez, ainda que isso implicasse alguns milhares de quilómetros semanais. Durante os meses em que lá trabalhei, apercebi-me das más condições de trabalho de dezenas dos trabalhadores, tanto os da empresa, como os trabalhadores temporários. Saí da minha zona de conforto, enfrentei a administração, denunciei internamente todos os abusos. Dei o meu melhor para tentar corrigi-los. Uns consegui, outros não. Aproximou-se a data do parto, e foi-me claramente sugerido que não tirasse a licença de maternidade. Obviamente, despedi-me.

Coloquei o projecto de família à frente do projecto de sucesso no trabalho. Ninguém escolheu por mim: eu tinha direito, tive a oportunidade e pude decidir.

Antes do término da licença, estava a trabalhar de novo. O marido esteve desempregado durante 3 meses, ficou em casa com a filha e eu voltei ao trabalho. Durante mais quatro anos anos, continuei a trabalhar por conta de outrem. Tive mais uma filha, mantive a minha verticalidade no trabalho e no trato com os funcionários e colegas. E um dia decidi que o trabalho estava a prejudicar a minha família. Voltei a despedir-me, criei a minha empresa e cá estou eu: uma micro empresária a contar tostões ao fim do mês, todos os meses.

No entanto, as minhas filhas ganharam uma mãe que as leva à escola, as acompanha nas actividades, que está presente, que participa nas estruturas de apoio à família e aos outros pais, que dá apoio à família, que fez diversas formações, deu aulas, fez um mestrado e ainda pode fazer voluntariado. Há muitas mães e pais que o podem fazer, valendo-se de alguns direitos que não o parecem ser: nem todos lhe podem aceder, nem todos tem a oportunidade de o fazer. Muitos outros olham com inveja e desprezo quem consegue. Outros porém, nem nos seus melhores sonhos poderiam fazê-lo.

Como engenheira, sempre fui e continuo a ser, respeitada no meu local de trabalho, seja no escritório ou em obra. Fui sempre testada, até ao limite, e tive de mostrar, à partida, que sou sempre pelo menos tão boa ou melhor qualquer homem (nas obras, os homens são bons até demonstrarem que não prestam, mas nesse dia, não há misericórdia. Já as mulheres, fazem o percurso inverso).

Destaquei-me pela minha seriedade e competência, e pelo trato fácil. Aprendi a liderar equipas de dezenas de homens, respeitando as hierarquias e não desvalorizando ninguém, do mais baixo servente até ao director de produção. Dei-me aos respeito. Não usei o meu aspecto ou a minha condição para obter vantagens. Não me recusei a nada legal e honesto, não impus nada que eu não pudesse cumprir, aceitei e discuti as opiniões dos colaboradores.Fui exigente. Fui forte. Fui eu própria. Fui técnica com olhos e coração de mulher. Sou.  Marquei a diferença pelo humanismo com que decidi pautar a minha presença.E marco.

Tomar a decisão e assumir-me como dona do meu tempo e do meu trabalho, numa área tão atingida pela crise, custou-me grande parte da minha capacidade e autonomia financeira. O marido, uma jóia rara que partilha tarefas após as longas jornadas de trabalho com que sustenta a família grande parte dos meses, que apoia, mesmo que não concorde, que consola, mesmo que já tenha avisado, que abraça, que ralha, revela, dia a dia, a sua grandeza de Homem, Pai e Marido.

Coloquei o projecto de família à frente do projecto de sucesso no trabalho. Ninguém escolheu por mim: eu tinha direito, tive a oportunidade e pude decidir.

Em todas as minhas decisões contei com o apoio desse grande Homem, com quem casei, fazem, exactamente hoje, 14 de Outubro de 2013, 13 anos.

E, juntos, retomamos os projectos dos nossos pais e avós de educar para a família, para a honra e dignidade, para o trabalho e para o conhecimento.

Para que as nossas filhas possam ter acesso aos direitos, ter as oportunidades e saibam e possam decidir. Ainda que ele todos os dias renuncie a direitos para que nós deles possamos desfrutar.

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