HANNAH ARENDT OU DOMITILA DE CARVALHO? – por Luís Salgado de Matos

Imagem1 (4)Nesta  edição especial d’ A Viagem dos Argonautas dedicada à igualdade de género, a homenageada é Hannah Arendt (1906-1975), filósofa social judia e alemã do século passado. Não deveríamos antes homenagear Domitila da Carvalho (1871-1966)?

O mais certo é o leitor ignorar tudo sobre esta última. Foi a primeira aluna da Universidade de Coimbra e a primeira mulher deputada – ou uma das três primeiras, no Estado Novo.   Escolhemos uma pioneira do Estado Novo de propósito: se estudamos a libertação da mulher, devemos tratar da libertação da mulher, sejam quais forem as etiquetas doutrinais ao abrigo das quais ela foi prosseguida. Aliás, nada prova, nem sequer sugere, que Hannah fosse menos de direita do que Domitila. Também poderíamos pensar em Adelaide Cabete (1867-1935), maçona, esquerdista e feminista precoce. Ou Ana de Castro Osório (1872-1935).

Por que razões devemos votar em Domitila e não em Hannah?  A declaração de voto exige um pequeno desvio: «igualdade de género» significa que homens e mulheres têm igual acesso a toda e qualquer posição social. Ora este definição só prevalece numa sociedade individualista, regida por princípios liberais. Não se aplica à sociedade tradicional, em que «a casa do homem é o mundo e o mundo da mulher é a casa». Ora Domitila nasceu uma geração antes de Hannah e viveu num país, o nosso, muito menos  individualista do que a Alemanha de Weimar.

Domitila era por certo menos sexy do que Hannah e a obra desta teve mais eco   – mas Domitila era matemática e médica, profissões que não geram escritos populares. Domitila combateu pela causa da libertação das mulheres numa organização política mais hostil e com menos condições para a vitória da solução individualista e liberal do que a Alemanha weimariana. Hannah foi perseguida por ser judia mas mas não sofreu nenhuma perseguição de género: teve uma grande paixão pelo seu professor Martin Heidegger, e concretizou-a, o que a ajudou na sua carreira.

Até agora julgámos em valor relativo. É claro que em valor absoluto Hannah merece ser homenageada – não pela ridícula imagem que dela dá o filme Hannah Arendt, mas, ao que sabemos da sua vida pública, por ter sabido conciliar o sexo com a vida inteletual.

 

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