A MULHER NO MUNDO DA CULTURA

Vamos dedicar o espaço que se segue a mulheres ligadas ao mundo da cultura. E começamos por falar da nossa homenageada. Hannah Arendt  era uma apaixonada pela poesia e pela literatura. Não seria uma poetisa muito dotada, mas era uma leitora ávida Entre os seus escritores preferidos, contavam-se Bertolt Brecht e William Faulkner do qual não se cansava de citar a  frase “O passado nunca está morto e nem mesmo é passado”.

Na abertura de um conjunto de artigos dedicados às pensadoras, ás escritoras, às activistas políticas, aqui deixamos dois poemas de sua autoria. Como este que escreveu aos 17 anos.

Cansaço

A tarde caindo —
Um suave lamento
soa no piar dos pássaros
que invoquei.

Muros cinzentos
desmoronam-se.
As minhas próprias mãos
se encontram de novo.

O que amei
não posso manter.
O que me cerca
não posso deixar.

Tudo declina
enquanto cresce a escuridão.
Não me domina —
pois deve ser o curso da vida.


Canção de Verão

Através da abundância que amadurece no Verão
Eu irei — e deslizarei minhas mãos,
Estenderei os meus membros doridos pa­ra baixo,
Em direcção à terra escura e pesada.

Os campos que se inclinam e sussurram,
Os sulcos nas profundezas da floresta,
Tudo exige um rigoroso silêncio:
Que possamos amar, embora soframos;

Que o  nosso dar e o nosso receber
Possam não contrair as mãos do sacerdote;
Que na quietude clara e nobre
Possa a alegria não morrer para nós.

As águas de Verão transbordam,
O cansaço ameaça destruir-nos.
E perdemos a nossa vida
Se amamos, se vivemos.

Segundo a interpretação feita por Elizabeth Young-Bruehl a este poema,  “Ainda se sentia presa ao dilema de um amor ilícito e impossível”. O amor seria o de Heidegger

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