EDITORIAL – UM PAÍS ARTIFICIAL

Imagem2Quando começou a publicar-se, em 1976, o El País creditou-se como «o jornal da transição» – com excelentes colaboradores, graficamente arejado – um bom jornal. Porém, com a força da sua tiragem diária, tem vindo a acentuar a sua posição de defensor da herança franquista, nomeadamente no que se refere à manutenção da tutela de Madrid sobre as nações históricas subjugadas.  Com a Catalunha contando os passos da sua sardana, avaliando vantagens e desvantagens, custos, ganhos e perdas da independência, o El País denuncia-se como paladino da “Espanha una e grande” que Franco construiu em cima de um milhão de mortos.

A propósito do dossiê que a  Generalitat catalã divulgou, um documento onde reúne em 50 páginas os agravos do governo central à Catalunha, diz-se no El País de hoje que «nada incomoda mais o Governo Catalão e a Convergência Democrática do que ser acusados de se terem tornado independentistas de um dia para o outro». Não sabemos até que ponto esta acusação é justa e quanto, das atitudes do Governo e da Coligação catalães é genuíno patriotismo e quanto é oportunismo. Mas, visto de Portugal, para muitos observadores, a posição dos governos de Madrid é profundamente suspeita, antipática – ostentando uma arrogância que nada justifica – Espanha configura um estado ilógico, historicamente falseado, culturalmente opressivo. Um «País» artificial .

Muito do lixo ideológico que ficou do franquismo se concentra sobretudo no PP, mas se dilui também pelos outros partidos – quando se aborda a questão das nacionalidades oprimidas, os espanholistas transformam-se em reaccionários, seja qual for a sua ideologia. Em Portugal, antes de 1974, também havia democratas colonialistas. Naturalmente que tudo aquilo que repugna em Espanha, existe na Grã-Bretanha – os ingleses, por mais democratas que sejam, não querem largar a Irlanda do Norte, a Escócia ou Gales. E conservam, ambos os estados, monarquias bafientas e ridículas. Já vimos dissolver-se estados opressivos como era a União Soviética, com os russos a reprimir numerosas nacionalidades e a Jugoslávia, com os sérvios a dominar toda a federação. Eram estados socialistas e o «amigo americano» ajudou a repor as nacionalidades históricas. Londres e Madrid são centros de poder colonialista tão odiosos como foram Moscovo ou Belgrado.  Mas têm, para os senhores do mundo, a grande virtude de ser amigos dos Estados Unidos.

Mas Voltemos ao artigo do El País – «O objectivo final do presidente Catalão, Artur Mas, é o de convencer que o problema catalão não é apenas produto da crise económica, mas obrigar Rajoy a sentar-se à mesa das negociações para, se não quer falar do plano soberanista, no mínimo rectifique a sua política quanto à Catalunha». O relatório denuncia desprezo pela língua e pelas instituições catalãs. Porém, os «supostos agravos», como se diz no El País, resumem-se a uma importância –  9.375 milhões de euros. Pretende-se ridicularizar a aspiração catalã á independência, transformando-a numa manobra chantagista. Repetimos, não sabemos até que ponto os responsáveis pelo Governo catalão não estão a usar o independentismo como arma de arremesso ou como moeda de troca para obter contrapartidas do governo central. O que sabemos é que grande maioria dos catalães deseja a independência. E que tendo os organismos de defesa da higiene pública proibido que se embrulhe o peixe em folhas de jornal, o El País deixou de ter utilidade.

Leave a Reply