PREFÁCIO DE JOÃO CRAVINHO A UMA OBRA DE ROBERT J. SHILLER, PRÉMIO NOBEL DA ECONOMIA. NOTA INTRODUTÓRIA DE JÚLIO MARQUES MOTA.

Nota introdutória

Hoje foi atribuído o prémio Nobel da Economia, prémio  que na verdade  resulta directamente não da Fundação Nobel mas sim de uma avultada dotação financeira concedida à Fundação Nobel pelo banco central da Suécia, o Sveriges Riksbank.

Ironizando, diríamos que é um prémio concebido por bancos, por banqueiros, logo tem o perfume do vil metal e da ausência de honestidade intelectual que aos banqueiros está normalmente associada e muito mais em tempos de crise como os que estamos a atravessa.

Há cinco anos, muito antes da indicação de quem ia ganhar o prémio, nesse ano de 2008, discutia eu com uma colega minha nomes possíveis e logicamente eu inclinava-me para os lados de quem tinha vindo de Cambridge, Inglaterra, entre os quais um nome a salientar, Luigi Pasinnetti, ao que a minha colega me respondeu, esteja bem descansado que não é capaz de acertar e simplesmente, porque com a crise, o prémio Nobel, vai ser um prémio de transição. Sorri, e pensei: bem, dada a honestidade da Academia neste campo, que é muito pequena a avaliar pelas sucessivas nomeações, dada a violenta crise que atravessamos, não serão então capazes de atribuir o prémio de Economia a um neo-liberal, porque estes são os verdadeiros responsáveis teoricamente pela crise e a falta de vergonha não terá chegado a tanto. E saiu-nos na rifa Paul Krugman, hoje economista de leitura indispensável para quem queira fazer análise em economia com o mínimo de seriedade. Hoje, um homem visto à esquerda, da mesma maneira que Martin Wolf (!) do Financial Times, mas na altura, sabem-me dizer quem era verdadeiramente Paul Krugman, visto do ponto de vista científico, Paul Krugman, o homem que defendia a utilização de sweatshops para os países em vias de desenvolvimento?  Era na verdade um economista de transição, de passagem de um modelo para outro, de um paradigma que se considerava morto para um outro ainda inexistente tomando como matriz os ensinamentos de Keynes e das crises, do New Deal de Roosevelt e do falhanço do Consenso de Washington, que é a bíblia neoliberal.

Diria a minha colega que a Academia nunca se compromete, um pouco como a Igreja, e isto mostra-se que é verdade. Depois vem o prémio dado aos homens que trabalharam no campo neoliberal como  Thomas J. Sargent and Christopher A. Sims (2009), Peter A. Diamond, Dale T. Mortensen and Christopher A. Pissarides (2010) ou ainda agora , as nomeações de Fama e de Lars Peter Hansen, por contraponto à nomeação de Robert Schiller. Como são de campos claramente diferentes ou os trabalhos de Fama e Hansen merecem o prémio Nobel e então devemos ignorar o trabalho de Schiller, ou o trabalho de Schiller merece o prémio e devemos então ignorar os outros dois laureados .

Com que ironia se pode ler a posição do Financial Times  na sua edição de hoje:

A few years ago, Fama might have had the award on his own (or perhaps shared it with Ken French). Sharing it with Shiller is certainly a sign that the world and the consensus of academic opinion have moved on. But despite initial appearances, it is not incoherent for these two figures to share an award. Academic disputes can too easily be looked at like boxing matches. In this case, this is a sensible award to two academics who have between them greatly advanced our understanding of how stock markets work.

Simples, portanto. A  crise ainda não passou, muito longe disto. Novas tempestades estão à porta, para não falar sequer no shut down americano e a teoria dominante pode voltar a ser posta em causa. A Academia acertou porque premiou os dois campos! Nem sim, nem não, mas também não nem um talvez. Se o sim representar o mundo neoliberal, se o não, representar o mundo vasto dos keynesianos e kaleckianos, se o talvez representar os Leopardos de Lampedusa, Visconti e, Palley, a Academia, reaccionária como sempre, bem o dizia Sartre, e como o mostram as sua sucessivas opções quanto a nomeações, estará do lado do não, estende uma mão aos Leopardos e diz que o outro lado também existe, mas não se passa disso. Se analisarmos a forma como os Nobel de Economia são seleccionados e por quem, percebemos que a predominante serão os homens dos mercados, os neoliberais, os responsáveis da crise de hoje, e da de amanhã também, escolhidos pelo mundo das finanças e das Universidades predominantemente neoliberais americanos. Nada mais a dizer, portanto .

Qualified Nominators

The right to submit proposals for the award of a Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel shall, by statute, be enjoyed by:

1. Swedish and foreign members of the Royal Swedish Academy of Sciences;
2. Members of the Prize Committee for the Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel;
3. Persons who have been awarded the Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel;
4. Permanent professors in relevant subjects at the universities and colleges in Sweden, Denmark, Finland, Iceland and Norway;
5. Holders of corresponding chairs in at least six universities or colleges, selected for the relevant year by the Academy of Sciences with a view to ensuring the appropriate distribution between different countries and their seats of learning; and
6. Other scientists from whom the Academy may see fit to invite proposals.

Quis o acaso que eu tenha estado pelo meio da edição em português do livro de Robert Schiller, Subprime – o crédito hipotecário de alto risco, numa edição de qualidade da Livre, uma chancela de Ana Paula Faria. E para esse livro solicitei um prefácio ao eng. João Cravinho. Quis o acaso que esse prefácio seja também um ataque explícito aos trabalhos de Fama e à irresponsabilidade dos neoliberais e da Academia Sueca ao premiá-los. Pois bem, Fama é hoje premiado  e, por isso,  sinto a obrigação de disponibilizar aos nossos leitores o prefácio que por João Cravinho me foi enviado para ajudar o leitor português a ler Schiller. Um bom livro, um livro a ler, se ainda estiver disponível.

Coimbra, 15 de Outubro de 2013.

Júlio Marques Mota

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Prefácio de João Cravinho

Primeira Parte

Nos últimos dois anos, o mundo escapou por muito pouco ao colapso global, económico e financeiro, mediante a mais extrema, maciça e meteórica série de intervenções estatais, em substituição ou ultrapassagem do mercado, que a história regista.

Em Setembro de 2008, houve uma sexta-feira em que o Secretário de Estado norte-americano só conseguiu abater a oposição aos seus planos explicando que ou se intervinha de imediato de modo tão extraordinário, anunciando também que de futuro se continuaria a fazer o que fosse preciso, fosse o que fosse, para salvar a economia do colapso, ou na segunda-feira seguinte não haveria economia. Passou-se praticamente o mesmo no Reino Unido, onde se esteve a escassas horas do congelamento de levantamentos bancários.

Invertendo a ortodoxia dominante, o Estado – na realidade o contribuinte – assumiu quase sem reservas riscos financeiros privados de toda a sorte e mobilizou à exaustão os recursos necessários para assegurar, de forma nem sempre transparente nem equitativa, a quasi-nacionalização de grandes grupos financeiros ou mesmo industriais , a injecção sem limites de liquidez e o lançamento de sucessivos pacotes multibilionários,. Em síntese, as intervenções estatais foram até onde foi necessário para, por um lado,trazer a mínimos de vida semi-cadáveres demasiado grandes para falir sem arrastar para o abismo a totalidade do sistema económico e financeiro. E, por outro, para restaurar a confiança e vencer a paralisia dos mercados de crédito.

As engenharias financeiras que levaram a esta crise, trabalho de inovação irresponsável que se prolongou por mais de dezena e meia de anos, entranharam-se tão profundamente no cerne das mais diversas actividades que só o uso a fundo, por boas e por más razões, do poder do Estado conseguiu suster in extremis a catástrofe. A ironia da história é que esta crise só foi possível pela adesão hegemónica do mundo académico, do mundo da política e do mundo da finança à suposta bondade irrestrita da minimização do Estado face à alegada eficiência e racionalidade dos mercados financeiros, garantes, no juízo geral dos últimos anos, da auto-correcção intrínseca dos mercados sem recurso à “perniciosa” regulação pública.

Os fundamentos intelectuais das práticas que conduziram ao quasi-colapso de 2008 estão firmemente inscritos na revolução anti-keynesiana promovida a partir de Chicago. Designadamente, a conjugação das hipóteses de eficiência do mercado (Fama) e das expectativas racionais (Lucas) acabaram por se impor como a representação do mundo dominante entre os economistas. Em nenhum outro campo foram essas ideias mais redutoramente exaltadas e aplicadas que no domínio dos mercados financeiros.De forma sucessivamente degradada e obviamente absurda.Na irónica observação de Justin Fox ,ate Friedman foi ultrapassado.Este centrou-se na ideia de que o mercado funcionava melhor que os governos enquanto que os teóricos e práticos financeiros exclusivamente inspirados por Chicago decaíram em agir, ou deixar agir, como se o mercado fosse perfeito.

Esta deriva apenas se reforçou exponencialmente com o uso incontrolado e mecânico da mais sofisticada modelação matemática, importada acriticamente das chamadas ciências duras, na tentativa de medir o risco de cada operação ou produto, como se o futuro fosse uma mera projecção probabilística do passado, sob regime de informação perfeita. A gestão do risco, projectando probabilisticamente o futuro como passado (hipótese ergódica) chegaria para resolver os problemas da prática financeira com o recurso a complexos modelos matemáticos. Na verdade, cada vez mais sofisticados mas também cada vez mais afastados da realidade das decisões e cada vez menos compreendidos na sua estrutura e limitações pela quase totalidade dos seus utilizadores. Mas a vaga de tal abordagem computorizada do risco, excluindo o incerto, tornou-se imparável. Entre outras razoes, devido a aura que passou a envolver os quantitativistas financeiros por forca da dose de prémios Nobel atribuídos na década de 90 a teóricos  dessa área: Markowitz, Miller e Sharp em 1990; Merton e Scholles em 1997.Nessas circunstancias, a mitificação dos modelos e dos computadores ajudou a esquecer que em matéria de apreciação do risco e de reacção ao incerto a omissão do factor humano e fatal. Os mercados financeiros não deixam de ser construções sociais.

(continua)

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