LÉOPOLD SENGHOR
(1906 – 2001)
CANTO DA PRIMAVERA (I)
Para uma jovem negra de róseo calcanhar
Cantos de aves sobem lavados ao céu primitivo
Sobe até nós o cheiro verde da erva, Abril!
Oiço o sopro da aurora comovendo as nuvens brancas das
minhas cortinas
Oiço a canção do sol a bater-me nas persianas melodiosas
Sinto como que um bafo e a lembrança de Naëtt sobre a
minha nuca nua que se comove
E o meu sangue cúmplice mau grado meu a sussurrar-me
pelas veias.
És tu minha amiga – oh! Ouve as brisas já quentes no Abril
de um outro continente
Oh! escuta o deslizar de azul verniz das asas das andorinhas
migradoiras
Escuta o burburinho preto e branco das cegonhas na ponta
das suas asas abertas
Escuta a mensagem da primavera de uma outra era de um
outro continente
Escuta a mensagem da África distante e o canto do teu sangue!
Que eu escuto a seiva de Abril que em tuas veias canta.

