POESIA AO AMANHECER – 302 – por Manuel Simões

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LÉOPOLD SENGHOR

(1906 – 2001)

CANTO DA PRIMAVERA (I)

Para uma jovem negra de róseo calcanhar

Cantos de aves sobem lavados ao céu primitivo

Sobe até nós o cheiro verde da erva, Abril!

Oiço o sopro da aurora comovendo as nuvens brancas das

minhas cortinas

Oiço a canção do sol a bater-me nas persianas melodiosas

Sinto como que um bafo e a lembrança de Naëtt sobre a

minha nuca nua que se comove

E o meu sangue cúmplice mau grado meu a sussurrar-me

pelas veias.

És tu  minha amiga – oh! Ouve as brisas já quentes no Abril

de um outro continente

Oh! escuta o deslizar de azul verniz das asas das andorinhas

migradoiras

Escuta o burburinho preto e branco das cegonhas na ponta

das suas asas abertas

Escuta a mensagem da primavera de uma outra era de um

outro continente

Escuta a mensagem da África distante e o canto do teu sangue!

Que eu escuto a seiva de Abril que em tuas veias canta.

(de “Hosties noires”, trad. de Luiza Neto Jorge)

Nasceu no Senegal mas estudou em França, onde se licenciou em Letras. Foi presidente da Federação do Mali (Senegal e Sudão) em 1959, e  depois presidente do Senegal. Foi, com Aimé Césaire, o ideólogo do conceito de negritude e inspirador da africanidade. A sua poesia, de temática africana, aproxima-se, porém, da poesia francesa da época. Obra poética: “Chants d’ombre” (1945), “Hosties noires” (1948), “Ethiopiques” (1956), “Nocturnes” (1961). A sua obra poética foi reunida em “Poèmes” (1964).

 

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